quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sansão - o gato autista

“Autismo - au.tis.mo masculino - transtorno invasivo do desenvolvimento que compromete as interacções sociais, comunicação e a variedade comportamental do portador.”

Finalmente encontrei a justificação para a conduta do meu gato. Anteriormente designado por “Sansão, o Morcão”, cedo começou a revelar uma sintomatologia coerente e reveladora da malfadada maleita que o impede de acompanhar, literalmente, as pegadas da sua irmã e ser um gato de apartamento feliz, descontraído e sociável. Dalila, a irrepreensível anfitriã que acolhe toda e qualquer visita na sua mansão com pulos enérgicos (e um pouco descontrolados) de modo a receber mimos que cubram a maior parte da sua área corporal, é o animal perfeito para se ter em casa, se exceptuarmos os ataques compulsivos de comichão nas patas, aliviadas sempre pelos meus sofás e cadeiras, já sem pele e com a espuma à vista. Mas nem o contacto com ela, nem o nome com que o baptizámos, fizeram com que a personalidade do coitadito mudasse.

Sansão e Dalila com 1 mês
Acolhi-os com apenas um mês de vida e com menos de vinte centímetros de comprimento – aos gatos e aos respectivos maus feitios que traziam atrelados. Os primeiros dias foram infernais: só lhes conseguia tocar com luvas de cozinha calçadas, sob pena de transformarem as minhas mãos em desperdício de oficina automóvel; miavam a toda a hora; não queriam comer comida saudável (ração); e eram uns minúsculos seres, com meia dúzia de pêlos no ar, feiinhos que até metiam dó! Mas o tempo foi correndo e passados uns dias começaram a vir ter connosco, primeiro a Dalila, o felino alfa, e a seguir o desconfiado Sansão. Algumas semanas depois e eram animais pseudodomésticos que se sentavam ao nosso lado (não no nosso colo, atenção), permitiam que lhes fizéssemos umas carícias, desde que durassem breves segundos e não passassem abaixo da linha do pescoço, e recebiam-nos quando chegávamos a casa, reclamando algum tempo de qualidade. Passaram-se, entretanto, dois anos e a minha gata virou um pingo de mel que nem virada do avesso, pendurada pelo rabo ou perseguida durante horas pelos miúdos, é capaz de morder quem a está a apoquentar. E do outro lado da moeda, heis que aparece “Sansón, El Cagón”, que se esconde atrás da caixa de sapatos que está debaixo de um sofá no quartinho do Ninguém, sempre que ligo o aspirador, a varinha mágica ou dou um espirro.

O felino é o verdadeiro fenómeno. Senão vejamos. De acordo com a Associação Americana de Autismo, os sintomas de autismo incluem:

1. Distúrbios no ritmo de aparecimentos de habilidades físicas, sociais e linguísticas.

Confirma-se. Já lá vão dois anos e tal, o que na idade dos gatos significa… 7x2=14… +7/12x(Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro, Janeiro)… Bem, mais do que a idade do armário, pelo que as desculpas de uma puberdade retardada não se adequam a este contexto, e no que diz respeito a este exemplar, as suas habilidades sociais são iguais às de uma pedra.

Quanto às “habilidade físicas”, há uma em particular que me apraz bastante: quando vê um desconhecido em casa (que, basicamente, é todo o ser humano que não eu ou o maridão, mesmo que já lá tenha estado quinhentas vezes) petrifica. É capaz de ficar horas a fio na mesma posição (às vezes dois ou três dias se a estadia das visitas se prolongar) e, se tentar pegar nele, faço-o com uma enorme dificuldade porque parece que pesa o dobro do normal. Não come, não dorme e às vezes parece que desliga o cérebro.

No que diz respeito às suas habilidades linguísticas, falarei mais à frente.

2. Reacções anormais às sensações. As funções ou áreas mais afectadas são: visão, audição, tacto, dor, equilíbrio, olfacto, gustação e maneira de manter o corpo.

Confirma-se também na generalidade. Momentos houve em que pensamos mesmo que era primo do Stevie Wonder, porque é preto e não enxergava alguns obstáculos. Mas parece-nos que com o tempo sofreu significativas melhorias no campo visual (isso ou foi decorando os caminhos de modo a conseguir desviar-se a tempo).

Parece-me também que tem uma audição sã apenas para alguns comprimentos de onda porque, quando quero sair de casa e o chamo para não ficar nos quartos, não me aparece, mas, se logo a seguir fizer barulho com a porta do frigorífico ou com a embalagem do fiambre, surge numa correria, mesmo que esteja na ponta oposta da casa e que a televisão esteja no volume máximo.

Os meus gatos (e aqui também tenho de falar na Dalila) têm um paladar muito selectivo e estranho até: ou sabem ler e têm a mania das marcas, ou então são realmente críticos em relação às rações do supermercado: linhas brancas, “jamé”; Friskies, nem constipados; Wiskas só misturados com a ração que mais gostam; Purina, vão comendo, mas ao início retorcem os bigodes; mas a Royal Canin chamam-lhe um figo! Para quem não sabe, apresentei as marcas por ordem crescente de preço, só para terem uma ideia da “chiqueza” da bicharada. Só não são esquisitos na hora de rapinarem a nossa comida (mas, ainda assim, em algumas ocasiões encontrei umas espinhas no tapete, por não as conseguirem aguentar no estômago). Já agora, agradeço muito este "exquisite taste" que permite que a minha casa não tenha uma única mosca ou mosquito!

E se quiser falar na postura, meus amigos, nem vos conto! Sempre que alguém entra em nossa casa e se aproxima da área onde ele está, imediatamente encolhe as patas e transforma-se naquilo que será a variante Basset-Hound (cão salsicha) para gatos, arrastando-se nessa posição durante vários metros até ao quartinho já mencionado…

3. Fala e linguagem ausentes ou atrasadas.

Check. Quanto à fala e linguagem do Sansão pouco posso dizer porque são praticamente inexistentes, a não ser quando vê uma fatia de um qualquer enchido ou uma posta de bacalhau - o que tem a menos no cérebro tem a mais no olfacto. Aí solta um miau grave e desafinado, imitando um rapaz adolescente quando começa a mudar a voz, revelando a falta de uso do instrumento... vocal. :) Tendo em conta que os gatos têm o dobro das nossas cordas vocais só posso dizer “Deus dá nozes a quem não tem dentes”…

4. Relacionamento anormal com os objectos, eventos e pessoas.

Adequa-se totalmente. O meu gato é um ser realmente estranho. Lembram-se de ter falado na luva que calçava para lhes tocar quando tinham apenas um mês de vida e que utilizei apenas durante alguns dias? Pois muito bem! Ainda hoje não me posso aproximar do meu gato com ela na mão sem que ele vire as orelhas para trás, encolha as patas e vire pedra, ou desate a fugir.

Esta relação de ódio contemplativo aplica-se na mesma escala às pessoas que em algum momento lhe puxaram o rabo ou o calcaram, ainda que sem essa intenção: basta ao meu sogro tocar à campainha que ele imediatamente desaparece, ainda antes de lhe abrir a porta, sendo apenas vislumbrado um bom par de horas depois de se ter ido embora.

Mas a excelência do seu autismo revela-se nesta situação particular. Se é violada a distância que, para o Sansão, lhe reserva a devida segurança, não hesita em mostrar os seus proeminentes caninos de dois centímetros super afiados, um "pffffffffffffffffff" ameaçador seguidos de, caso a futura vítima não recue, uma exibição das suas unhas.

Ora, perante este comportamento, vou para o veterinário com ele sempre cheia de receio do espectáculo que sua excelência possa vir a dar. Todavia, não sei se por estar longe do seu território, se por ter sido submetido a um olhar hipnótico que a nova doutora lhe lançou, desta vez portou-se lindamente – ainda melhor do que a irmã.

A única vantagem deste comportamento atípico para um gato é na hora de comprar brinquedos. Existem uns ratinhos à venda presos por um elástico a uma vareta, para que possamos brincar com eles. A nós, basta-nos comprar um, porque enquanto que a Dalila brinca com o rato, o Sansão não descansa enquanto não alcança o seu alvo: o fio! Fica possuído a ver o fio no ar, e entre saltos (o que não é fácil para o gato de quase 6 quilogramas) e patadas, só pára quando vê o fio no chão, momento em que considera a vítima como abatida.

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Tirando isso, adoro o meu gato. É o gato mais lindo do mundo e segue-me para todo o lado que vá (dentro de casa, claro, que ele não arrisca pôr a sua linda patinha preta fora da soleira da porta, não vá dar-lhe um ataquinho se sentir uma rajada de vento). Percebe quando estou mais em baixo e enrosca-se no meu colo sempre que preciso de força. Neste preciso momento está deitado a ronronar entre o meu colo e o computador, hábito frequente sempre que estou nestas lides das palavras, como se estivesse a ler tudo aquilo que escrevo. E uma coisa é certa: é o fã nº 1 deste blog!!!


Nota Final: Após escrever estes textos, normalmente vou à grande rede procurar umas imagens que ilustrem o conteúdo das minhas frases. Desta vez descobri que existe um estudo que compara o comportamento dos gatos com o dos portadores do Síndrome de Asperger. Fica aqui um vídeo que resume o livro de Kathy Hoopmann:



3 comentários:

  1. Adorei!!! O meu partilha alguns traços, mas a ter que diagnosticar-lhe algum distúrbio teria que ser esquizofrenia com transtorno dissociativo de identidade: os sintomas variam desde alucinações (fica minutos a olhar para um ponto da parente sem interesse nenhum) a múltiplas personalidades (anjo num momento, diabo da Tasmânia no outro). Mas é o meu bebé, e é como diz o outro: já não há crianças burras, só com necessidades educativas especiais. ;)

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  2. os gatos não precisam de olhos para comunicar.
    O Stevie Wonder (para quem ñ sabe o gatinho cegueta que tenho cá em casa) é um comunicador nato.
    Se calhar tens de mandar tirar os olhos ao teu ... lolol... tou a brincar claro!

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  3. Nossa! que fofo! O meu tem autismo! mas ele é um amor!

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