(sequela do Mom to be - Parte I, publicado em 12 de Abril de 2012)
Há um dia em que acordas e pensas: "
tenho um maridão 5 estrelas, um emprego estável (mais ou menos, dada a conjuntura), uma casa minimamente confortável, faço férias com uma regularidade que me permite manter a minha sanidade mental, tenho alguns passatempos, mas… Falta alguma coisa!". E toda a gente responde a isto: “
precisas é de ter um filho!”. Mas será que é mesmo isso que faz falta?
Passamos uma vida inteira atormentadas pelos relatos dos partos naturais da nossas tias, avós e mães, acompanhados por dores lancinantes, horas infinitas em trabalho de parto e intermináveis cortes e suturas. Mais as noites mal dormidas, as mamas doridas, os cabelos vomitados e os terríveis desequilíbrios hormonais. E de cada vez que alguém fala nisso, pensas: “
mas é mesmo disso que eu preciso?”. E num instantinho voltas à realidade confortável, satisfeita por
poderes ir ao ginásio depois do trabalho (mesmo que não
vás), por conseguires manter as unhas impecavelmente arranjadas e impecavelmente grandes, por poderes dormir até ao meio-dia aos fins-de-semana e por não teres que andar com o cabelo amarrado 25 horas por dia. E agradeces por teres resistido a esse rasgo de insanidade que quase te fez perder a tua independência.
Depois começas a notar
comportamentos realmente bizarros nas tuas amigas e, num instante, aquilo que pareciam ser estranhos rituais alimentares, materializam-se num pequeno papel onde a novidade é dada: vem aí um bebé! Entras em delírio absoluto. A primeira gravidez do grupo é acompanhada segundo a segundo, como se da tua se tratasse, e entras em taquicardia no momento do parto, quase como se, por solidariedade com a tua amiga, estivesses também tu a sentir as contracções. Mas ainda não é aí que o clique se dá para desatares a procriar.
Dali a pouco tempo vem mais um papelinho e, com ele, mais um bebé! E outro, e mais outro. A páginas tantas parece que a tua vida está repleta de mulheres grávidas e de crianças a nascer. Não há um dia em que abras o teu facebook que não vejas mais uma fotografia de uma criança acabadinha de vir ao mundo nem pedidos de adesão a páginas de puericultura. E continuas a achar imensa piada, por ser aos outros que está a acontecer, e não a ti, que ainda não te sentes preparada, madura, nem com o "chamamento". E cada vez mais te dás por satisfeita com a vida organizada e autónoma que levas.

Tudo isto até ao dia em que entras num consultório médico, depois de uma visita que já devia ter chegado e que nunca mais vem, analisam o teu útero vazio e te dizem: "
hummm... se calhar vai precisar de umas pastilhinhas para resolver aqui uma situação...". E é aqui que o teu mundinho planeado, resolvido e feliz sofre um pequeno abalo sísmico de 7,3 na escala de
Richter. "
Espera aí! Afinal isto não funciona quando queremos, tipo interruptor?". Sentes que afinal de contas não tens grande controlo sobre a tua vida e que nunca deverias ter feito planeamentos sem margem para
decalages. Esperas por chegar a casa para falar com o maridão, mas na pequena viagem de 15 minutos que fazes, sentes as tuas prioridades a mudarem rapidamente de posição. Deixas de te lembrar das histórias dos partos horrorosos e só te vêm à cabeça os dramas de quem passou anos à procura de herdeiros genéticos. Fazes duas ou três contas de cabeça e percebes que o teu pico de fertilidade já passou há muito e que estás quase nos 30! E decidem em conjunto, sem grandes dramatismos (até porque o prognóstico não era assim tão negro), que se calhar não é pior ideia começarem a por pés a caminho naquela que será a "Grande Viagem".

Mas como estas coisas não acontecem sempre que queremos, principalmente a quem tem problemas desta natureza, assumes um compromisso contigo própria de não "panicar" sempre que receberes a visita da dama de vermelho. E isso até é bom, porque a passagem do "não-chamamento" para o "clique" foi demasiado brusca e precisas de te habituar à ideia de que a tua vida vai mudar para sempre!
Passa um mês e nenhuma novidade... Respiras de alívio porque achavas muito cedo se acontecesse. Passa outro e continuas igual. Mas quando, ao fim de 4 meses, a Sra. de Vermelho se esquece de te avisar que vai ter que fazer um desvio para comprar pão e que vai chegar 2 semanas mais tarde do que o previsto, começas a imaginar tudo, desde a forma como vais esconder a notícia dos teus amigos que foram contigo de férias nesse dia, ao infantário, até ao escorrega que vais pôr no terraço. E depois de uma noite mal dormida com a ansiedade, fazes o 1º teste de gravidez a querer que o resultado seja positivo e... dá negativo.
Dois pares de meses mais tarde e sempre sem quebrar a promessa, começas a pensar se serás normal e precisas de fazer algum esforço para não te diminuíres e para acreditares naquilo que a médica te diz: "até um ano de treinos, é absolutamente normal". Não ajudam as dezenas de comentários que tens que ouvir sobre já estar na hora, os olhares cirúrgicos que fazem à tua barriga sempre que chegas a casa de alguém, mas também chegas a um ponto em que ligas à Terra. Cumpres com o teu compromisso e não entras em parafuso sempre que abres a porta à "Lady in Red", apesar de perceberes que, se ela tivesse decidido ir cantar para outra freguesia, estavas mais do que preparada psicologicamente para a "Grande Viagem".

Alguém próximo de ti te diz que 2013 será o ano e desejas secretamente que no primeiro dia 13 do ano recebas essa novidade, até porque, para não variar, a Maria Encarnada deve ter perdido o autocarro e está, novamente, atrasada! Mas dia 13 o Benfica joga contra o Porto (sem qualquer alegoria ao fenómeno biológico feminino) e tens a casa cheia de pais e de sogros benfiquistas que eliminam qualquer possibilidade de momento a dois. Lembras-te de uns boxers que viste numa montra, adequados a futuros papás, e pensas: "que bom que era poder oferecer isto ao maridão!".
Até que, no dia seguinte à hora do almoço, imbuída de um pressentimento estranhamente real, decides passar no supermercado e comprar um teste! Entre o prato principal e a sobremesa vais ver o resultado e concluis, incrédula: "tenho mesmo que passar na loja de roupa interior!".
O resto da história, já toda a gente sabe! Entras em êxtase e nem sabes como vais conseguir ir trabalhar sem que ninguém perceba que é o dia mais feliz da tua via. Aguentas-te até à noite para dar a notícia ao maridão, agora Super-Papá. Ele, que não estava a contar nada com este final de tarde, entra primeiro em choque, depois em lágrimas e depois em euforia! Apetece-vos contar ao Mundo, mas só revelam o segredo ao empregado de mesa porque, a partir de agora, és tu que vais adoptar
todos aqueles comportamentos alimentares estranhos. Imaginas o pequeno ser que cresce dentro de ti e só consegues imaginar o dia em que o vais ter nos braços! Desejas os cabelos vomitados, as unhas rentes e o cheirinho da pele do teu bebé que exala através da sua cabecinha!
E depois não tens enjoo nenhum, muito pelo contrário: sentes a bicha solitária à solta e só te apetece comer. Ainda assim, não tens qualquer pudor (ainda que a tua médica te proiba terminantemente de engordar mais do que 12 quilos) e não vês o momento de mostrar a tua barriga à Humanidade e de dizer bem alto: