quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

3... 2... 1... 12!!!!

Todos os anos a praxe é a mesma. Uma panóplia de superstições para trazer a prosperidade é cumprida religiosamente no dia 1 de Janeiro. E como a crise não está para grandes brincadeiras, até mesmo os mais cépticos as seguem porque, já se sabe, “Eu não acredito em bruxas, mas que as há, há…”.

Vai entrar 2012, de modo que ficam aqui os 12 conselhos a seguir durante e após as 12 badaladas, garantindo assim o máximo êxito dos 12 meses que se avizinham!


1.      Fazer (muito) barulho
Um dos rituais consiste em acordar quem está a dormir nos antípodas com a “panelagem” toda a fazer barulho, muito barulho! Assim, se se quer um ano muito venturoso um dos segredos será sacar dos testos e das panelas até as furar com tanta pancada. No meu caso, como tinha caçadores na família, após a meia-noite seguiam-se minutos de absoluto terror para mim com o meu tio a dar tiros para o ar nas traseiras da casa, fazendo lembrar clãs muçulmanos no dia do casamento da filha de 12 anos.


2.       Usar roupa interior nova e colorida
Fruto de uma crença que vem, não se sabe bem de onde, acreditamos com todas as nossas forcinhas que o destino que o ano vindouro nos oferece é directamente proporcional à cor da roupa interior que envergamos na noite e no dia da transição. Tradicionalmente, em Portugal, as lojas escoam todo o stock da bela da cueca azul por alturas do final do ano. Mas aqui há uns anos introduzi uma adaptação a este ritual. Era dia 31 e estava em Espanha, mais propriamente numa loja asiática, desesperada por encontrar um exemplar azul, quando o empregado mostrou todo o seu contido espanto, típico dos povos daquela geografia, no momento em que 10 portugueses lhe perguntaram por cuecas azuis. Ao que parece, os “nuestros hermanos” usam roupa interior nova, sim, mas encarnada na “nochevieja”. E nós não nos ficamos por menos: levamos umas vermelhas (para usar na noite) e umas azuis (para usar no dia), na esperança de duplicarmos a nossa sorte. E como o senhor não estava preparado para esta demanda cromática, houve quem, do sexo masculino, tivesse que levar, ao invés do boxer, o fio dental vermelhusco!


3.       Tomar um banho gelado
Quanto a este costume só posso agradecer ao Jesus e dizer bem alto: “Deus conserve intacto o meu bom senso!”. Por muita coragem e sorte que precisemos para encarar as medidas de austeridade com que, quase diariamente, o nosso governo nos presenteia, não correm nestas veias quentes bravura suficiente para mergulhar a falta de fé nas águas gélidas do nosso oceano. Mas para quem a tiver, ou estiver muito desesperado, ou ainda para quem não encontrou melhor forma de curar a ressaca da noite anterior antes do cabritinho assado em casa dos pais, deixo aqui os meus mais sinceros e orgulhosos parabéns!


4.       Usar lençóis novos
Sinónimo de ponto de viragem na vida (não de 360º, espero eu), comprar uns lençóis novos pode ser uma boa estratégia! Também pode ser um bom pretexto para alguns que, pela primeira vez em 12 anos de casamento, podem escolher a sua própria roupa de cama - que, até à data, foi sempre comprada por sogras e por tias afastadas por alturas de Natal e aniversário, com incontornavelmente diferentes pontos de vista sobre rendas, estopas e cornucópias.


5.       Deitar fora objectos velhos
E porque não pegar nos lençóis antigos, nas roupas que usávamos quando tínhamos 20 anos (e que nunca mais nos vai servir, nem que cumpramos com o máximo afinco este protocolo de 12 regras), e nos extractos bancários de há 10 anos atrás (que não trazem outra coisa que não seja sofrimento) e não fazemos uma grande fogueira? Pelo menos poupamos no aquecimento… Já estamos a ganhar qualquer coisinha, não vos parece?


6.       Vestir roupa de cor
O branco simboliza a paz e o equilíbrio, que são duas coisas que fazem falta a muito boa gente que conheço. Mas as cores não ficam por aqui. Quem procura amor verdadeiro deverá vestir cor-de-rosa e se se procura uma paixão ardente, a opção recairá sobre o vermelho. O amarelo está relacionado com a riqueza em bens materiais, o verde com a saúde e o azul com a limpeza (daí a cueca azul, porque os portugueses são muito limpinhos). Eu cá vou usar preto, que para mim é sinónimo de esconder o pneumático indesejado – e que bem que este talismã funciona!


7.       Mezinhas, simpatias e afins
Se fizerem uma pesquisa na net por “rituais de ano novo” num instante têm ao alcance dos vossos olhinhos um sem fim de “simpatias” que prometem amor, dinheiro, sucesso e cura para a unha encravada. Algumas envolvem a queima de substâncias naturais em casa, acompanhadas de frases proferidas em voz muito alta e de danças pouco convencionais, pelo que será recomendável avisar os vizinhos ou esperar que estes saiam de casa, não comprometendo, assim, a ideia que eles têm da nossa saúde mental.


8.       Fazer um brinde
Não se trata de beber para esquecer, nada disso, nem quero que, com estas minhas palavras, alguém fique em casa no dia 2 de Janeiro por extrema desidratação provocada por excesso de álcool. Há que brindar ao novo ano que aí vem que em tudo será grande: brindar ao incremento da taxa de desemprego, brindar ao aumento do número de horas de trabalho e brindar ao acréscimo do IVA nos produtos transformados e na restauração.


9.       “Subir para cima” de uma cadeira
Sim, meus caros, este pleonasmo foi intencional. Na hora de chamar a sorte para jogar na nossa equipa, nenhum exagero é excessivo. Certifiquem-se apenas de que o teor alcoólico não se incompatibiliza com esta peça de mobiliário (atenção aos exageros do ponto anterior), evitando assim passar as primeiras horas do ano numa sala de espera das urgências. Se bem executado, este gesto trará melhorias significativas na nossa qualidade de vida, sobretudo se não tivermos nenhuma perna engessada.


10.   Entrar no ano novo com o pé direito
À semelhança da rotina anterior, entrar com o pé direito no novo ano pode significar prosperidade. Para evitar confusões, recomenda-se distinguir o pé direito com algum artefacto. Mas, atenção, que este objecto seja discreto e pouco volumoso, não vá o diabo tecê-las e provocar a queda durante o ritual descrito no ponto anterior. Nota: resultados não comprovados em canhotos e disléxicos.


11.   Ter dinheiro na mão
Eu sei que para muitos pode ser difícil, nesta altura, chegar ao último dia do mês e do ano e ainda ter notas no bolso. Mas descansem! Fiz uma pesquisa e segundo o que consegui averiguar, o ritual pode ser substituído por atirar umas moedas ao ar no momento da passagem do ano – e agora  todas as três pessoas que lêem este blogue se dirigem rapidamente ao espelho de água do shopping mais próximo para ver se encontram alguma!


12.   Comer 12 passas e fazer os 12 desejos
E porque o mote é o número 12, remato com o mais popular de todos os rituais: comer as 12 passas ao som das 12 badaladas, ao mesmo tempo que se pedem os 12 desejos. Gostaria que no meu caso a coisa fosse um pouco mais simples, mas, infelizmente, é tipo remédio para a tosse! Para começar detesto passas, pelo que não as mastigo. Engulo-as de uma só assentada para minimizar o sofrimento e, para que o faça rapidamente, bebo uma golada do tradicional espumante, igualmente intragável para mim, mas que me permite não ficar com aquela papa na boca, prestes a provocar movimentos expulsivos de suco gástrico. E depois vem o pé direito, e subir para a cadeira e atirar as moedinhas ao ar… Irra!!! Com esta titânica empreitada não sobra grande tempo para os 12 desejos que, normalmente, se reduzem a um “que este ano seja ainda melhor que o anterior” e a ”muita saudinha”: no meio de tanta repulsa e de tanto nervo lá ficam perdidos os objectivos bem definidos que andei a estudar nos dias anteriores (porque, para que as coisas aconteçam, temos que saber exactamente o que queremos). Desta feita, parece que este ano não vou ficar magra, nem ser aumentada, nem correr a meia maratona e muito menos tocar piano decentemente. Houve uma vez que pedi à minha mãe para me comprar uvas de mesa para não começar o ano logo agoniada, mas só havia daquelas com os bagos gigantescos (cujo termo mais vernáculo não pode ser referido em horário nobre), de maneira que à terceira uva que meti na boca deixei de conseguir mastigar, engasguei-me com o sumo e passada meia hora ainda estava a tirar grainhas da boca… Resultado: tanta azáfama, tanto preparativo e tanto sacrifício e... esqueci-me de pedir os desejos!


Bem caríssimos, com estas 12 me vou, senão ainda corro o risco de não conseguir fazer nenhuma. Para o ano há mais, espero eu, pelo que, se for abençoada por um momento de iluminação e articulação, reservarei um desejo para conseguir escrever mais e melhor em 2012!!!

UM BOM ANO!!!


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Caminhada de Fé

Caríssimos,

O tempo para me dedicar dignamente a este espaço tem sido, efectivamente, pouco. Mas o verdadeiro motivo pelo qual não tenho escrito tem que ver com o facto de me ter estado a dedicar a outra causa.

Em Setembro passado fiz uma caminhada de fé e, para que as recordações não se perdessem no tempo, quis imortalizá-las e partilhá-las com outras pessoas que pensem seguir as nossas pegadas - e são, seguramente, muito mais do que imaginámos! Depois de termos ido a Fátima a pé e de termos falado com amigos e conhecidos sobre essa experiência, fomos surpreendidos por um enorme número de pessoas que já foram ou querem fazer o mesmo, quer o motivo seja a fé, o crescimento pessoal, a introspecção ou simplesmente o desafio de vencer obstáculos e atingir metas.

Por tudo isto, caso conheçam alguém que esteja interessado em fazer esta ou outra peregrinação, não hesitem em enviar-lhe o endereço deste blogue que será, indubitavelmente, uma grande ajuda!

caminhadafe.blogspot.com


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Casa dos Degredos

No seguimento do que falei na última publicação que aqui deixei, resolvi começar a divagar precisamente sobre um tema que não conheço, só para que os meus caríssimos reconheçam a minha polivalência!!! ;) E aqui vai ele, todo lançado, o assunto sobre o qual apresento uma despojada dificuldade em falar, uma matéria na qual sou uma completa leiga (e com algum orgulho). A verdade é que é tema de café, de elevador e de conversas telefónicas de administrativas, interrompidas sempre subitamente pela chegada do patrão. A sucessão de acontecimentos é ouvida no autocarro, no metro, no avião, na sala de espera do consultório médico e na fila dos correios. As novidades são partilhadas pelas vizinhas que se encontram nas varandas contíguas, quando estão a estender a roupa, e pelos colegas de equipa enquanto fazem o aquecimento para o encontro semanal da “peladinha”. Como se pode ver, é um assunto tão transversal a todos os contextos e a todos os níveis sociais, que me sinto uma perfeita extraterrestre por não ser capaz de mostrar qualquer tipo de entusiasmo e por não ter a capacidade de dar continuidade a uma conversa, por ausência de conhecimento da causa.

Para os mais distraídos como eu que ainda não tenham percebido, estou a falar da “Casa dos Segredos”. E para evitar que me peçam para falar sobre o assunto, vou já descarregar todo o conhecimento que tenho sobre a causa.

  • Sei que é mais um reality show que é apresentado na nossa televisão em horário nobre e que, por isso, passa a ser integrado no sistema de informação de todas as nossas criancinhas! E que frutífero que é estes pequenos humanos saberem que o mediatismo que uma figura pode ter é directamente proporcional não ao seu valor social, intelectual ou profissional, mas sim à capacidade (em litros) que as suas mamas ou glúteos aguentam! “Mas isso agora, não interessa nada!” – expressão repetida ao expoente pela apresentadora e satirizada num programa da concorrência que critica, de forma tão caustica e divertida, este programa de (des)entertenimento.          


    • Sei que já venho tarde, porque não é a primeira edição do programa e esta já deve estar a meio, mas ainda assim faz-me uma comichão terrível que se crie um programa que não tenha assunto nenhum. Basicamente, gira em torno de uma ou duas mãos cheias de homens e mulheres que não fazem absolutamente nada. Passam o dia a arrastar, de um sofá para o outro, os seus corpos plásticos e as suas mentes vagarosas, a posar para as câmaras e em estranhos rituais de acasalamento. A sério que não consigo compreender isto - mais depressa entendo um jogo em que 20 homens, que andam 90 minutos a correr atrás de uma bola, assim que a alcançam, ficam imbuídos de um espírito do além e, apesar de todo o esforço para a agarrar, atiram-na para outro lado qualquer.

    • Sei também que os concorrentes são escolhidos a dedo, ou seja, escolheram os porteiros de discotecas mais "inchados", as strippers mais "inchadas" também, as portadoras em estado terminal do síndrome de culturodificiência adquirido e as autoras do programa “Em Mau Português”.
    - “Estou ilusionada.” 
    - “Mas o que é que quer dizer ilusionada?” 
    - “Quer dizer que tenho um aleijamento. 

    • Apesar de terem namorados e amigas coloridas cá fora, andam todos enroladinhos uns com os outros porque estão carentes (de juízo, só pode ser), está um frio tremendo lá dentro (dada a carência, também, de roupa que envergam) e tudo o que fazem é apenas a pensar no jogo. Que é como quem diz, é estratégia, pura e simplesmente, para ganhar o dinheirito: "é tudo por ti, 'mor"! ;) 

      • Do pouco que vi, deu para perceber onde os criadores deste programa foram buscar a inspiração. À semelhança de um filme domingueiro - “EDtv” - quer os participantes, quer os familiares, amigos e ilustres inimigos, todos se encontram expostos à vontade sensacionalista de um programa que vive à conta do cochicho, da especulação e da queda da última réstia de moralidade que ainda possa existir. Não me admiraria nada se fossem buscar a educadora de infância de um deles só para descortinarem um qualquer acontecimento embaraçoso ocorrido aos 3 anos e meio, mas totalmente irrelevante para o caso, e assim continuarem a alimentar um apetite desenfreado de audiências - por exemplo, a criança ter confidenciado na escolinha que a empregada da mãe da cunhada da vizinha do 3º esquerdo estendia as cuecas rosa choque XXL rendadas do marido.

        • Esta história de distinguir pessoas com o mesmo primeiro nome utilizando apenas a primeira letra do segundo está a criar moda e nos infantários, nos escuteiros, nos liceus e nas catequeses, as criancinhas com nomes mais vulgares passaram a ser tratadas por "João Éme", Ana "Éle" e Luís "Pê" - fazendo lembrar nomes de máquinas industriais ou de medicamentos.

          Enfim… Dá para tudo! E mais não digo porque não sei e porque não tenho força nem vontade de ver este lixo televisivo (carne para canhão para os pobres de espírito que se alimentam, quais parasitas, da baixeza da condição humana), correndo já sérios riscos de ser bombardeada pelos meus queridos amigos que sejam espectadores assíduos deste espectáculo, a quem, desde já, peço desculpas se as minhas palavas causaram algum tipo de ofensa.

            

          E para quem gostar ou tiver curiosidade em experimentar só posso dizer isto:

          "Casa dos Degredos: o verdadeiro repasto gourmet com a melhor selecção do pior que cá dentro pode existir, ao alcance de um toque do seu telecomando".



          quarta-feira, 23 de novembro de 2011

          Desafios


          Apesar de ter dito que não escrevia para ninguém, só para mim, blá, blá , blá, a verdade é que a coisa se desvirtuou um pouco. Nestes últimos 4 meses em que a minha veia da escrita esteve (e continua a estar) canalizada para um outro projecto, tenho recebido alguns pedidos de satisfação de “clientes” assíduos deste blogue, reclamando o regresso de, pelo menos, uma publicação semanal, como outrora fora prática corrente. Pois bem! Uma publicação semanal, não consigo prometer, mas vou esforçar-me ao máximo para escrever o maior número de vezes possível. Mas para isso conto com a vossa ajuda: enviem-me uns grãozinhos de arroz para que possa escrever sobre eles. Já sabem, desde o estado do tempo ao corte do subsídio de Natal, prometo fugir à habitual crítica e salpicar com alguma ironia e humor, as trivialidades do nosso dia-a-dia. Só não escreverei se me pedirem para discutir o jogo para a liga dos campeões que deu ontem, ou sobre as previsões de quem vai ganhar a "Casa dos Degredos". Desafio os meus queridos amigos a desafiarem-me. Combinado?

          Aproveito o momento para informar que me rendi aos smartphones e que, perante a grandeza deste equipamento a minha mente assoberbou-se e quase arruinava este blogue. A verdade é que eliminei quase todas as imagens que as minhas publicações continham pelo que continuo com "obras cá em casa". E para além das imagens, também o fundo do blogue se perdeu. :( Assim sendo, quem tiver algo bem bonito que se enquadre, toca a enviar para o e-mail ou deixar no facebook.

          Obrigada a todos!!!

          segunda-feira, 1 de agosto de 2011

          Que calor esquisito!

          Está um calor esquisito, sim senhor! Não é todos os Verões que temos o privilégio de vestir as últimas tendências de moda de manga comprida e de esconder as proeminências abdominais com blazers, casacos e écharpes. Dizem os tablóides que é o Verão mais frio dos últimos 27 anos, o que tem sido verdadeiramente deprimente para os turistas e catastrófico para os comerciantes e empresários de turismo. Parece que a meteorologia estabeleceu uma qualquer coligação com a crise e tanto frio, tanto vento e tanta roupa a tapar a pele de galinha está a conseguir extorquir aquilo que de melhor o nosso país tem (a seguir às Tripas à moda do Porto, prato que, aliás, se come muitíssimo bem nesta altura fresquinha do ano, pelo menos neste) e as únicas coisas capazes de nos fazer esquecer as dificuldades financeiras que atravessamos - o Sol e o calor. Ora, curiosamente ou não, há precisamente 27 anos estávamos sob o domínio do último reinado de d'El Rei D. FMI em Portugal (antecessor da Raínha D. Troika) e das suas glaciais resoluções. Tenho cá para mim que é possível fazer adivinhação "meteorológico-económica"... Ou quererá isto dizer que já devemos a tanta gente que nos esquecemos de pagar ao São Pedro? 

          E aquela velha máxima do grande poeta e filósofo minhoto Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros "Qual é o melhor dia para casar, sem sofrer nenhum desgosto? É o 31 de Julho, porque a seguir entra Agosto". Este ano nem com gosto, nem sem gosto: a Primavera insegura deu lugar a um Outono implacável. Mas engane-se quem pensar que isso desmoraliza todos os portugueses, impedindo-os de ir à praia. Ainda que tenha ligado o "mija-mija-limpa-pinguinhas" no caminho e que vá completamente artilhado de guarda-sol, pára-vento, barraca, cobertor e uns pauzinhos de lenha - não vá o frio apertar a sério - eis que aparece o Zé Tuga às 8h da matina com a sua Maria a "acartar" com esta tralha toda, mais o garrafão e o tacho de arroz de frango. "Vencido, mas não rendido" exalta ele num silêncio comedido pelo bater do dente, fazendo este exercício de mentalização enquanto tira a toalha de praia para aquecer corpo e alma.

          E por falar em calor, tenho a recordação, cunhada a altas temperaturas na minha memória, de estar a estudar para os exames, em Julho, de chinelos de praia, calções e camisola de alças, como quem vai para a praia - sem o poder fazer. E a indumentária mantinha-se mesmo que tivesse que ir tirar dúvidas com algum professor - é que o calor não se aguentava e não havia lugar a dress codes adequados! Como queria eu ter um Sábado que fosse para me estender ao comprido a fazer fotossíntese - Deus dá nozes a quem não tem dentes... Ao invés, este ano já fui comprar umas malhas de meia-estação que me mantenha os pulsos bem quentes e assim evitar uma ruptura de ligamentos ao escrever no computador. Só arrumei a roupa de Inverno este fim-de-semana, porque começava a ficar deprimida ao olhar para os camisolões e perceber o quanto os queria vestir sempre que ia à varanda estender roupa lavada... Consegui comer no terraço duas vezes e, numa delas, tive que vestir um polar para me conseguir aguentar. Acho mesmo que a única vez que utilizei o ar-condicionado desde Maio foi hoje, porque alguém deixou a janela aberta no fim-de-semana e estava um frio que não se aguentava, de modo que tive de aquecer a sala! E dou por mim, pesarosa e nostálgica, a pensar no quão bom era à noite ter de sair de casa porque não se suportava o calor, só sendo possível amenizar este sofrimento com um geladinho na Foz...

          Notícia de última hora: no primeiro dia de Agosto o trânsito para o Algarve está caótico, apresentando-se algumas estradas de acesso cortadas. Novidade? O motivo são as rajadas de vento fortíssimas e a chuva intensa.

          Enfim: está um calor esquisito!


          Fica aqui um "miminho" para fazer recordar outros Verões.



          E para gostos "menos ecléticos"... ;)




          segunda-feira, 11 de julho de 2011

          Teclodependência


          Sintoma: chegar a casa de alguém, não saber qual a campainha e, em vez de ligar ao anfitrião, premir o maior número de botões do intercomunicador no menor espaço de tempo possíveis. 
          Diagnóstico: “teclodependência”, utilização compulsiva de botões e de teclas de equipamentos electrónicos, gerando um processo em que esta dependência se vai apoderando, progressivamente, da vida do utilizador, sem que este se aperceba deste problema, nem que aceite o apoio e os avisos de familiares e amigos, tornando extremamente difícil a sua recuperação; do inglês, buttonjunkie.

          Não tenho conhecimento de algum estudo científico que corrobore a minha teoria, mas, se não existe, alguém devia começar a pensar seriamente no caso. A conclusão não foi obtida tendo como modelo apenas a minha metade boa (que nestas situações não é assim tão exemplar), mas sim a grande maioria dos espécimes masculinos que conheço - pelo que estou já a dar uma mãozinha à Ciência, sugerindo que o facto possa, muito provavelmente, estar associado a uma doença genética, assinada pelo cromossoma Y. E a importância da análise desta patologia reveste-se de toda a utilidade dado que estes episódios extemporâneos têm sempre como consequência uma sensação de desconforto, vergonha e constrangimento por parte das acompanhantes femininas destes “doentes”.

          As situações são recorrentes, varrem uma grande diversidade de manifestações e, quando menos esperamos que a sintomatologia se expresse, eis que eles descobrem um botãozinho minúsculo numa zona recôndita de um qualquer equipamento. Sem saberem muito bem porquê e para quê, desatam para ali a carregar, a carregar, e a carregar como se não houvesse amanhã, descontinuando este ritual, em muitos dos casos, apenas quando algum sinal sonoro se faz sentir, assinalando a gravidade dos danos instalados, ou quando lhes começa a doer o dedo e a necessidade é dada por extinta.

          Esta teoria tem sido consolidada, ao longo dos últimos anos, através da minha presença em muitas destas situações, que atestam a necessidade de partilhar esta preocupação. Tudo começa na pré-adolescência, momento em que, consumidos por um formigueiro na ponta dos dedos que lhes paralisa o cérebro, tocam às campainhas de todas as casas da rua inteira, a que se segue a fuga, os risinhos histéricos e o regozijo. 

          E já que pensamos em campainhas e na infância/puberdade temos, obrigatoriamente, de nos lembrar dos semáforos. Qual é o miúdo que pode ser impedido de carregar num botão quando lhe dizem que ele simplesmente não o pode fazer, aguçando a sua curiosidade ao acrescentarem que há a probabilidade de ele apanhar com um choque eléctrico e fazer faísca? Isso seria exactamente o mesmo que lhe estar a dizer “não penses numa bola de futebol”. Funciona? Claro que não e o vírus hospeda-se definitivamente, ao mesmo tempo que se prepara para assumir dimensões gradualmente avassaladoras e irreversíveis.


          A idade vai avançando, mas, infelizmente, os comportamentos conservam-se. Além disso, os elevadores também não ajudam nada... Esta situação é mais evidente quando mais do que um destes “machos” entra no pequeno compartimento, momento em que passam a repartir um só cérebro. A intensidade do sintoma é reforçada pelo tardar da hora, sendo que atinge o clímax a partir das 2 da manhã, altura em que carregam no alarme de emergência que ecoa por todo o prédio, assim como as suas gargalhadas embriagadas, ao mesmo tempo que param em todos os “apeadeiros” de um edifício de 12 andares mais 3 caves. 

          E não podia deixar de fora as consolas de jogos. Seja jantar de família, reencontro anual de amigos da primária ou um simples “passo aí para me emprestares o teu berbequim”, qualquer encontro serve para que os elementos que partilham desta maleita iniciem uma competição virtual. Acto contínuo e esquecem-se de quem está em casa, do que tinham para fazer, de quem tinham de “entreter”, ocupando os seus cérebros única e exclusivamente com o dedilhar coordenado e afincado da coreografia dos botões, actividade que os fará desligar da terra e atingir a vitória dos deuses - assim pensam eles! 

          Relacionado com este tema, há também o dos computadores, e ai de quem se aproxime do equipamento quando eles estão no poder. Para evitar danos colaterais, somos obrigadas a desenvolver a capacidade de tirar as dúvidas colocadas por eles sobre uma qualquer situação relativa ao seu funcionamento, oralmente, com gestos ou com sinais de fumo, mas sempre sem recorrer ao manuseio da máquina mágica – ou seja, toca a decorar os nomes todos dos comandos porque Deus nos livre de clicar numa tecla, resolver o seu problema e pôr em causa a marcação do seu território tecnológico.

          E para continuar a alimentar este vício desmedido avançam numa campanha de aquisição de toda a espécie de aparelhos eléctricos e electrónicos como máquinas fotográficas, acessórios para aumentar a jogabilidade das consolas e dos computadores, óculos para ver filmes a 3D,  ratos e teclados que parecem naves espaciais, micro projectores portáteis de filmes, e toda uma série de gadjets que não melhoram significativamente o nível de qualidade de vida, mas que, por terem um conjuntinho de botões bem apelativos, são o suficiente para reduzir substancialmente os seus níveis de stress e melhorar a harmonia no seio do ambiente profissional e familiar.

          Conselho para quem vive com um portador desta “doença”: no próximo Natal, aniversário ou ataque mais inesperado e descontrolado, oferecer um comando universal para televisão, DVD, cortinas, estores, iluminação, aparelho de som, cão, piriquito e empregada da limpeza – um único objecto dá para tudo e mantém-nos entretidos durante horas!


          sábado, 25 de junho de 2011

          Check list para férias


          Sempre considerei que sou muito mais do tipo que trabalha para viver, do que do tipo que vive para trabalhar. Por isso mesmo, na minha opinião, as férias são uma das melhores invenções que Deus permitiu que o Homem criasse (a seguir à Coca-Cola e às máquinas de lavar a roupa). A verdade é que, independentemente do FMI, das condições meteorológicas, das pandemias e dos conflitos políticos, o ser humano foi meticulosamente desenhado para conseguir estar sempre apto a gozá-las (às férias, claro).

          Resolvi aproveitar uma semana de apenas 3 dias úteis para dar uma escapadela e qual a minha surpresa quando me apercebi que, para visitar o destino que desejava, não havia vagas em nenhum voo a partir de Portugal – não por serem poucos, muito pelo contrário, mas antes porque meio país resolveu pensar da mesma maneira que eu. E estas coisas deixam-me verdadeiramente “inchada” de tanto orgulho: pertencer a uma nação que de tudo faz para ultrapassar a crise ou, pelo menos, ultrapassar a depressão e a angústia acesas pela falta de dinheiro! Além disso, esta atitude, note-se, revela também um altruísmo tão tipicamente português porque, ainda que o desenvolvimento da nossa indústria hoteleira seja significativamente inferior ao do dos nuestros hermanos, não nos escusamos de continuar a contribuir para a franca expansão deste sector espanhol! Mas como tristezas não pagam dívidas e, seguramente, estar aqui a lamentar-me não irá, de modo algum, contribuir para o aumento da liquidez do nosso Estado, avancemos porque estou de férias e o tempo é precioso!

          Voltando ao mote desta publicação, adoro férias, sejam elas para conhecer cidades novas ou para apanhar banhos de sol, de mar e de areia. Por este motivo, gosto de iniciar com alguma antecedência e preceito o ritual da preparação do acontecimento – além disso, com um modelo de cabecinha de vento como esta que o meu pescoço sustenta, todo o planeamento é indispensável.

          O registo é recorrente: check lists atrás de check-lists com versões datadas, revistas e actualizadas de “vestuário”, “acessórios”, “medicamentos”, “produtos de higiene”, “artigos de lazer” e “calçado”. Mas as listas não se limitam ao que se leva na bagagem e seguem-se as “coisas a comprar”, “recados a deixar”, “contas a pagar” e outras que tais, certificando-me, assim, que posso deixar o palácio sem estar de cinco em cinco minutos a pensar se fechei a porta à chave, se pedi a alguém para regar as plantas e se não deixei comida a decompor-se no frigorífico. Ora, como estava tão difícil encontrar um sítio mais ou menos decente para molhar os pezitos, a certeza em sair não era assim tanta pelo que, sob pena de agoirar a ociosidade dos próximos dias, decidi protelar o procedimento preparativo até que tivesse os bilhetes na mão.

          travel checklist mind map paul foreman Travel Checklist
          Véspera de ir de férias e de meio dia de trabalho. 22h00 e inicia-se o enchimento das maletas sem qualquer um dos auxiliares de memória atrás mencionados. E porque os dias quentes são ainda muito tímidos e escassos, as roupas de verão jazem adormecidas no baú desde o Verão passado. Segue-se o processo crítico de seleccionar a roupa para levar. Sem tempo para averiguar se os respectivos tamanhos se adequam à anatomia actual e se as partes de cima combinam com as de baixo, amontoam-se duas pilhas de peças que trazem à superfície as doces e calorosas recordações das últimas situações em que foram envergadas. O mesmo se aplica ao calçado e, sem estabelecer qualquer relação cromática com o vestuário escolhido, encho meia mala com chinelas e sandálias (porque mais vale sobrar do que faltar) que irão resultar na exposição de um corpo fluorescentemente branco e transparente. Oito biquínis e meia dúzia de frascos depois, com a mala quase cheia e só faltam mesmo os casacos. Casacos? Estarei a entrar em demência? Vai um casaquito preto que dá bem com tudo e com a ajuda do Jesus e do S. Pedro, o calor há-de abundar. Alto! Quase que falhava a coisa mais importante e indispensável de todas: o protector solar “factor 50+ para peles sensíveis” porque, já que não consigo ficar morena sem que isso acarrete noites passadas com toalhas húmidas a hidratar e regularizar a temperatura do corpo, talvez se recomende levar de volta o aspecto quase hepático característico da minha pele e protagonizado pela pobreza de melanina que transporto – gesto altamente criticado pela minha metade boa que, à semelhança de anos anteriores, atribuiu ao coitado do produto a culpa por não ter ficado esturricado (mesmo após ter sido questionado se queria que lhe comprasse um com menor factor de protecção, ao que respondeu negativa e peremptoriamente, e mesmo que apenas o tenha aplicado no primeiro dia).

          Resultado:
          • 50% do calçado não foi utilizado porque foram mais os pares do que os dias de férias;
          • 40% das peças não foram vestidas porque não tiveram combinação possível com as partes de cima ou de baixo;
          • 30% da roupa já não me servia - ou seja, 15% porque emagreci e me ficava grande :) e 15% porque achava que tinha perdido mais peso do que o real, pelo que me ficava pequena :(  ; 
          • Levei um aglomerado imenso de tralha e no final quase que precisava de mandar lavar a roupa no hotel porque a efectivamente útil era insuficiente e com tanto calor era impossível de ser reutilizada; 
          • Apesar de ser usual levar o malote dos medicamentos capazes de curar desde a típica cefaleia até à unha encravada, passando pela inflamação da garganta, pela picadela de insectos e pela alergia aos raios solares, desta vez nem um único espécime de analgésico levei – atitude que se veio a revelar de extremo descuido e irresponsabilidade dada a incidência de situações enfermas, frequentes neste tipo de ocasiões;
          • Inexplicavelmente, a minha mala pesava mais 2kg na viagem de volta do que de ida, ainda que não tenha trazido nada de lá e ainda que tenha gasto champôs, cremes, etc. (estranhos fenómenos acontecem).

          Notas para o futuro: 
          1. Voltar às check lists;
          2. Não esquecer medicamentos para a regulação da flora intestinal;
          3. Levar pelo menos um dos 5 frascos ricos em Aloe Vera que se foram acumulando em casa (porque, afinal de contas, eles são úteis é fora dela);
          4. E, a mais importante de todas, comprar uma mala mais pequena para fugir à tentação de levar tantas coisas desnecessárias!


          sábado, 11 de junho de 2011

          Romaria do Pão com Chouriço

          Os Santos Populares estão aí mesmo, mesmo a esbarrar e, com eles, o cheirinho a sardinha e pimento assados e os primeiros acordes de música popular portuguesa, pano de fundo dos bailaricos típicos destas romarias. Este ano, as hostes foram abertas nas festas do Senhor de Matosinhos.

          Ora bem! Senhor de Matosinhos, no dicionário da minha infância e adolescência, teve como sinónimos “Pão com Chouriço”, “Farturas”, “Carrosséis” e “Bugiganças-que-os-senhores-de-países-africanos-vendem-e-que-ficam-tão-bem-nos-meus-pulsos-e-nas-minhas-orelhas”. Ah! E quase me esquecia desta, de igualável importância e de merecida referência: “Tômbola-para-a-obra-do-Padre-Grilo”. Aqui fui muito feliz, juntamente com os pacotes individuais de bolachas waffer, lenços de papel, garrafas de óleo, miniaturas de miniaturas de carrinhos, canecas, canetas, bacias, e mais pacotes de lenços, e mais bolachas e mais coisas “úteis” – nunca a “inútil” da bicicleta, nem a “inútil” da boneca que gatinhava ou a “inútil” da máquina de escrever electrónica. E eu ficava maravilhada por ser possível, com apenas 50$00, ganhar sempre qualquer coisa, nem que fosse um lápis a dizer “Narciso a Presidente”. Era limpinho! “Aqui sai sempre prémio!” Mas olhando sensatamente para a coisa, considero agora que já que estávamos ali para fazer solidariedade, então talvez não tivesse sido má ideia devolver aquilo tudo à caridade que, como a minha mãe dizia, eram coisas que davam sempre jeito, mas a verdade é que tínhamos que as arrastar a festa toda e, quando chegávamos a casa, todo aquele entusiasmo pelo sucesso do jogo se tinha desvanecido, o coche tinha-se transformado novamente em abóbora e apenas restavam dois sacos cheiinhos de tralha.

          Mas voltando aos festejos de ontem, além de ficar a caminho de casa, um desejo sôfrego de ingerir um hiper-mega pão com chouriço (que surgiu desde que vi pela primeira vez este ano o painel de publicidade a esta festa), fez com que conseguisse persuadir a minha metade boa a providenciar um lugar de categoria sobre um passeio da marginal de Leixões. Graças à elevadíssima aptidão do condutor em entalar (ou literalmente enlatar) o nosso pequeno utilitário entre dois todo-o-terreno, e depois de duas coçadelas da panela no lancil do jardim separador central desta via, lá fomos atrás da massa populosa ávida de celebração mais pagã do que religiosa, com o faro alvitrado para o fumo de onde saem todos os petiscos salgados desta festa. Apesar da hora tardia, da manifesta falta de fome e dos objectivos dietéticos desta ocasião “Sai um pãozinho com 'chóriço' a estalar aqui para a boneca”. E já que era dia de festa e não estava sozinha, lá pedimos mais uma bifana, uma coca-cola e uma cervejinha geladas. Só visto! Um regalo para os olhinhos de quem já quase esqueceu o sabor daquela bebida mágica que, dizem as más-línguas, provoca erosão ácida, celulite e é muito útil para desentupir os canos. Só vos digo, é tudo gentinha vazia de espírito, sem paixão pelas coisas boas da vida e que provavelmente vai envelhecer solteira e chata: vale bem a pena um minuto de prazer na boca, uma hora de peso na consciência e um ano de casca de laranja nas coxas, porque os senhores das farmácias também têm que vender aqueles cremes maravilhosos que não funcionam e assim é da maneira que os nossos maridos ficam com ideias profícuas de presentes. Mas como tudo o que é bom termina sempre, rapidamente se assolou sobre o meu estômago uma overdose nutricional que ultrapassou o seu "Estado Limite de Utilização", conferindo-lhe um mal-estar insuportável que, num ápice, pôs termo às festividades gastronómicas - nitidamente, um erro no cálculo das solicitações de um órgão, por sua vez deficientemente dimensionado com o objectivo de permitir ao utilizador vestir um par de calças com 10 anos e respirar ao mesmo tempo.

          Deste modo, as farturas ganharam um bilhete para outra romaria e deram lugar a uma caminhada necessária à absorção do repasto. Entre canecas para beber vinho verde, santinhos populares para guarnecer as cascatas são-joaninas e o mobiliário em verguinha, destacaram-se os brinquedos “made in china” que já foram integrados como peças tradicionais de venda nestas festas e que voavam sobre as nossas cabeças, não nos cegando por milagre do santo padroeiro. Uns metros mais acima, e com o chouriço, lá em baixo, ainda a lutar com a coca-cola,  damos de caras com a comitiva de doces caseirinhos (ou talvez não) que vêm do Marco de Canavezes e cujas especialidades são as fogaças de… Vila da Feira. Por fim, encontrámos a típica roulotte que vende o que de mais português existe na cena musical nacional, ainda que alguns destes registos apresentem já uma idade considerável e o texto na capa esteja quase indecifrável pela passagem do tempo.

          Uma hora volvida e a festa estava no fim, para nós, velhos na casa dos 20 e dos 30. Ficou por visitar a igreja barroca (o verdadeiro ícone religioso desta romaria, só venerado e visto por 13% dos visitantes da festa), mas os altares ainda não estavam preparados pelas mulheres dos pescadores, a noite ia avançada e seria de extrema importância não exportar o meu jantar para a sarjeta dos serviços municipalizados do concelho. Faltou também dar o pulinho ao Padre Grilo e colaborar solidariamente com a sua obra. Mas estou certa que não faltarão oportunidades para ir lá buscar mais uns saquinhos com “relíquias”, na esperança da boneca “gatinhante” ainda lá estar, aproveitando o momento para saudar os senhores dos Pan Pipes, as senhoras africanas que vendem djambés e fazem trancinhas e transportam os filhos às costas (tudo ao mesmo tempo), os vendedores de manjericos, de tachos, de chapéus e todos os imigrantes ilegais que negoceiam a elevada qualidade das falsificações rascas das melhores marcas internacionais – tudo em prol da nossa saúde ocular. Também não fui aos “carrosséis”, mas este tipo de actividade, assim como o bailarico que estava ali ao pé, seria totalmente incompatível com o estado gástrico do meu devaneio culinário - isso e uma eventual facadita proporcionada pela falta de segurança local.

          E lá voltamos para a nossa viatura de barriga cheia de festas populares, rezando ao São João, ao Santo António, ao São Pedro e, claro, ao Senhor de Matosinhos, para estarmos cá para o ano outra vez a comer outro pãozinho com chouriço e, quem sabe, comer uma fartura ou duas. Isto, claro está, se o FMI não decretar o FIM da nossa conta bancária e se o Passos Coelho não acabar com estes feriados que me dão tempo para comparecer as estes eventos (e para publicar o seu registo).