quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Desafios


Apesar de ter dito que não escrevia para ninguém, só para mim, blá, blá , blá, a verdade é que a coisa se desvirtuou um pouco. Nestes últimos 4 meses em que a minha veia da escrita esteve (e continua a estar) canalizada para um outro projecto, tenho recebido alguns pedidos de satisfação de “clientes” assíduos deste blogue, reclamando o regresso de, pelo menos, uma publicação semanal, como outrora fora prática corrente. Pois bem! Uma publicação semanal, não consigo prometer, mas vou esforçar-me ao máximo para escrever o maior número de vezes possível. Mas para isso conto com a vossa ajuda: enviem-me uns grãozinhos de arroz para que possa escrever sobre eles. Já sabem, desde o estado do tempo ao corte do subsídio de Natal, prometo fugir à habitual crítica e salpicar com alguma ironia e humor, as trivialidades do nosso dia-a-dia. Só não escreverei se me pedirem para discutir o jogo para a liga dos campeões que deu ontem, ou sobre as previsões de quem vai ganhar a "Casa dos Degredos". Desafio os meus queridos amigos a desafiarem-me. Combinado?

Aproveito o momento para informar que me rendi aos smartphones e que, perante a grandeza deste equipamento a minha mente assoberbou-se e quase arruinava este blogue. A verdade é que eliminei quase todas as imagens que as minhas publicações continham pelo que continuo com "obras cá em casa". E para além das imagens, também o fundo do blogue se perdeu. :( Assim sendo, quem tiver algo bem bonito que se enquadre, toca a enviar para o e-mail ou deixar no facebook.

Obrigada a todos!!!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Que calor esquisito!

Está um calor esquisito, sim senhor! Não é todos os Verões que temos o privilégio de vestir as últimas tendências de moda de manga comprida e de esconder as proeminências abdominais com blazers, casacos e écharpes. Dizem os tablóides que é o Verão mais frio dos últimos 27 anos, o que tem sido verdadeiramente deprimente para os turistas e catastrófico para os comerciantes e empresários de turismo. Parece que a meteorologia estabeleceu uma qualquer coligação com a crise e tanto frio, tanto vento e tanta roupa a tapar a pele de galinha está a conseguir extorquir aquilo que de melhor o nosso país tem (a seguir às Tripas à moda do Porto, prato que, aliás, se come muitíssimo bem nesta altura fresquinha do ano, pelo menos neste) e as únicas coisas capazes de nos fazer esquecer as dificuldades financeiras que atravessamos - o Sol e o calor. Ora, curiosamente ou não, há precisamente 27 anos estávamos sob o domínio do último reinado de d'El Rei D. FMI em Portugal (antecessor da Raínha D. Troika) e das suas glaciais resoluções. Tenho cá para mim que é possível fazer adivinhação "meteorológico-económica"... Ou quererá isto dizer que já devemos a tanta gente que nos esquecemos de pagar ao São Pedro? 

E aquela velha máxima do grande poeta e filósofo minhoto Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros "Qual é o melhor dia para casar, sem sofrer nenhum desgosto? É o 31 de Julho, porque a seguir entra Agosto". Este ano nem com gosto, nem sem gosto: a Primavera insegura deu lugar a um Outono implacável. Mas engane-se quem pensar que isso desmoraliza todos os portugueses, impedindo-os de ir à praia. Ainda que tenha ligado o "mija-mija-limpa-pinguinhas" no caminho e que vá completamente artilhado de guarda-sol, pára-vento, barraca, cobertor e uns pauzinhos de lenha - não vá o frio apertar a sério - eis que aparece o Zé Tuga às 8h da matina com a sua Maria a "acartar" com esta tralha toda, mais o garrafão e o tacho de arroz de frango. "Vencido, mas não rendido" exalta ele num silêncio comedido pelo bater do dente, fazendo este exercício de mentalização enquanto tira a toalha de praia para aquecer corpo e alma.

E por falar em calor, tenho a recordação, cunhada a altas temperaturas na minha memória, de estar a estudar para os exames, em Julho, de chinelos de praia, calções e camisola de alças, como quem vai para a praia - sem o poder fazer. E a indumentária mantinha-se mesmo que tivesse que ir tirar dúvidas com algum professor - é que o calor não se aguentava e não havia lugar a dress codes adequados! Como queria eu ter um Sábado que fosse para me estender ao comprido a fazer fotossíntese - Deus dá nozes a quem não tem dentes... Ao invés, este ano já fui comprar umas malhas de meia-estação que me mantenha os pulsos bem quentes e assim evitar uma ruptura de ligamentos ao escrever no computador. Só arrumei a roupa de Inverno este fim-de-semana, porque começava a ficar deprimida ao olhar para os camisolões e perceber o quanto os queria vestir sempre que ia à varanda estender roupa lavada... Consegui comer no terraço duas vezes e, numa delas, tive que vestir um polar para me conseguir aguentar. Acho mesmo que a única vez que utilizei o ar-condicionado desde Maio foi hoje, porque alguém deixou a janela aberta no fim-de-semana e estava um frio que não se aguentava, de modo que tive de aquecer a sala! E dou por mim, pesarosa e nostálgica, a pensar no quão bom era à noite ter de sair de casa porque não se suportava o calor, só sendo possível amenizar este sofrimento com um geladinho na Foz...

Notícia de última hora: no primeiro dia de Agosto o trânsito para o Algarve está caótico, apresentando-se algumas estradas de acesso cortadas. Novidade? O motivo são as rajadas de vento fortíssimas e a chuva intensa.

Enfim: está um calor esquisito!


Fica aqui um "miminho" para fazer recordar outros Verões.



E para gostos "menos ecléticos"... ;)




segunda-feira, 11 de julho de 2011

Teclodependência


Sintoma: chegar a casa de alguém, não saber qual a campainha e, em vez de ligar ao anfitrião, premir o maior número de botões do intercomunicador no menor espaço de tempo possíveis. 
Diagnóstico: “teclodependência”, utilização compulsiva de botões e de teclas de equipamentos electrónicos, gerando um processo em que esta dependência se vai apoderando, progressivamente, da vida do utilizador, sem que este se aperceba deste problema, nem que aceite o apoio e os avisos de familiares e amigos, tornando extremamente difícil a sua recuperação; do inglês, buttonjunkie.

Não tenho conhecimento de algum estudo científico que corrobore a minha teoria, mas, se não existe, alguém devia começar a pensar seriamente no caso. A conclusão não foi obtida tendo como modelo apenas a minha metade boa (que nestas situações não é assim tão exemplar), mas sim a grande maioria dos espécimes masculinos que conheço - pelo que estou já a dar uma mãozinha à Ciência, sugerindo que o facto possa, muito provavelmente, estar associado a uma doença genética, assinada pelo cromossoma Y. E a importância da análise desta patologia reveste-se de toda a utilidade dado que estes episódios extemporâneos têm sempre como consequência uma sensação de desconforto, vergonha e constrangimento por parte das acompanhantes femininas destes “doentes”.

As situações são recorrentes, varrem uma grande diversidade de manifestações e, quando menos esperamos que a sintomatologia se expresse, eis que eles descobrem um botãozinho minúsculo numa zona recôndita de um qualquer equipamento. Sem saberem muito bem porquê e para quê, desatam para ali a carregar, a carregar, e a carregar como se não houvesse amanhã, descontinuando este ritual, em muitos dos casos, apenas quando algum sinal sonoro se faz sentir, assinalando a gravidade dos danos instalados, ou quando lhes começa a doer o dedo e a necessidade é dada por extinta.

Esta teoria tem sido consolidada, ao longo dos últimos anos, através da minha presença em muitas destas situações, que atestam a necessidade de partilhar esta preocupação. Tudo começa na pré-adolescência, momento em que, consumidos por um formigueiro na ponta dos dedos que lhes paralisa o cérebro, tocam às campainhas de todas as casas da rua inteira, a que se segue a fuga, os risinhos histéricos e o regozijo. 

E já que pensamos em campainhas e na infância/puberdade temos, obrigatoriamente, de nos lembrar dos semáforos. Qual é o miúdo que pode ser impedido de carregar num botão quando lhe dizem que ele simplesmente não o pode fazer, aguçando a sua curiosidade ao acrescentarem que há a probabilidade de ele apanhar com um choque eléctrico e fazer faísca? Isso seria exactamente o mesmo que lhe estar a dizer “não penses numa bola de futebol”. Funciona? Claro que não e o vírus hospeda-se definitivamente, ao mesmo tempo que se prepara para assumir dimensões gradualmente avassaladoras e irreversíveis.


A idade vai avançando, mas, infelizmente, os comportamentos conservam-se. Além disso, os elevadores também não ajudam nada... Esta situação é mais evidente quando mais do que um destes “machos” entra no pequeno compartimento, momento em que passam a repartir um só cérebro. A intensidade do sintoma é reforçada pelo tardar da hora, sendo que atinge o clímax a partir das 2 da manhã, altura em que carregam no alarme de emergência que ecoa por todo o prédio, assim como as suas gargalhadas embriagadas, ao mesmo tempo que param em todos os “apeadeiros” de um edifício de 12 andares mais 3 caves. 

E não podia deixar de fora as consolas de jogos. Seja jantar de família, reencontro anual de amigos da primária ou um simples “passo aí para me emprestares o teu berbequim”, qualquer encontro serve para que os elementos que partilham desta maleita iniciem uma competição virtual. Acto contínuo e esquecem-se de quem está em casa, do que tinham para fazer, de quem tinham de “entreter”, ocupando os seus cérebros única e exclusivamente com o dedilhar coordenado e afincado da coreografia dos botões, actividade que os fará desligar da terra e atingir a vitória dos deuses - assim pensam eles! 

Relacionado com este tema, há também o dos computadores, e ai de quem se aproxime do equipamento quando eles estão no poder. Para evitar danos colaterais, somos obrigadas a desenvolver a capacidade de tirar as dúvidas colocadas por eles sobre uma qualquer situação relativa ao seu funcionamento, oralmente, com gestos ou com sinais de fumo, mas sempre sem recorrer ao manuseio da máquina mágica – ou seja, toca a decorar os nomes todos dos comandos porque Deus nos livre de clicar numa tecla, resolver o seu problema e pôr em causa a marcação do seu território tecnológico.

E para continuar a alimentar este vício desmedido avançam numa campanha de aquisição de toda a espécie de aparelhos eléctricos e electrónicos como máquinas fotográficas, acessórios para aumentar a jogabilidade das consolas e dos computadores, óculos para ver filmes a 3D,  ratos e teclados que parecem naves espaciais, micro projectores portáteis de filmes, e toda uma série de gadjets que não melhoram significativamente o nível de qualidade de vida, mas que, por terem um conjuntinho de botões bem apelativos, são o suficiente para reduzir substancialmente os seus níveis de stress e melhorar a harmonia no seio do ambiente profissional e familiar.

Conselho para quem vive com um portador desta “doença”: no próximo Natal, aniversário ou ataque mais inesperado e descontrolado, oferecer um comando universal para televisão, DVD, cortinas, estores, iluminação, aparelho de som, cão, piriquito e empregada da limpeza – um único objecto dá para tudo e mantém-nos entretidos durante horas!


sábado, 25 de junho de 2011

Check list para férias


Sempre considerei que sou muito mais do tipo que trabalha para viver, do que do tipo que vive para trabalhar. Por isso mesmo, na minha opinião, as férias são uma das melhores invenções que Deus permitiu que o Homem criasse (a seguir à Coca-Cola e às máquinas de lavar a roupa). A verdade é que, independentemente do FMI, das condições meteorológicas, das pandemias e dos conflitos políticos, o ser humano foi meticulosamente desenhado para conseguir estar sempre apto a gozá-las (às férias, claro).

Resolvi aproveitar uma semana de apenas 3 dias úteis para dar uma escapadela e qual a minha surpresa quando me apercebi que, para visitar o destino que desejava, não havia vagas em nenhum voo a partir de Portugal – não por serem poucos, muito pelo contrário, mas antes porque meio país resolveu pensar da mesma maneira que eu. E estas coisas deixam-me verdadeiramente “inchada” de tanto orgulho: pertencer a uma nação que de tudo faz para ultrapassar a crise ou, pelo menos, ultrapassar a depressão e a angústia acesas pela falta de dinheiro! Além disso, esta atitude, note-se, revela também um altruísmo tão tipicamente português porque, ainda que o desenvolvimento da nossa indústria hoteleira seja significativamente inferior ao do dos nuestros hermanos, não nos escusamos de continuar a contribuir para a franca expansão deste sector espanhol! Mas como tristezas não pagam dívidas e, seguramente, estar aqui a lamentar-me não irá, de modo algum, contribuir para o aumento da liquidez do nosso Estado, avancemos porque estou de férias e o tempo é precioso!

Voltando ao mote desta publicação, adoro férias, sejam elas para conhecer cidades novas ou para apanhar banhos de sol, de mar e de areia. Por este motivo, gosto de iniciar com alguma antecedência e preceito o ritual da preparação do acontecimento – além disso, com um modelo de cabecinha de vento como esta que o meu pescoço sustenta, todo o planeamento é indispensável.

O registo é recorrente: check lists atrás de check-lists com versões datadas, revistas e actualizadas de “vestuário”, “acessórios”, “medicamentos”, “produtos de higiene”, “artigos de lazer” e “calçado”. Mas as listas não se limitam ao que se leva na bagagem e seguem-se as “coisas a comprar”, “recados a deixar”, “contas a pagar” e outras que tais, certificando-me, assim, que posso deixar o palácio sem estar de cinco em cinco minutos a pensar se fechei a porta à chave, se pedi a alguém para regar as plantas e se não deixei comida a decompor-se no frigorífico. Ora, como estava tão difícil encontrar um sítio mais ou menos decente para molhar os pezitos, a certeza em sair não era assim tanta pelo que, sob pena de agoirar a ociosidade dos próximos dias, decidi protelar o procedimento preparativo até que tivesse os bilhetes na mão.

travel checklist mind map paul foreman Travel Checklist
Véspera de ir de férias e de meio dia de trabalho. 22h00 e inicia-se o enchimento das maletas sem qualquer um dos auxiliares de memória atrás mencionados. E porque os dias quentes são ainda muito tímidos e escassos, as roupas de verão jazem adormecidas no baú desde o Verão passado. Segue-se o processo crítico de seleccionar a roupa para levar. Sem tempo para averiguar se os respectivos tamanhos se adequam à anatomia actual e se as partes de cima combinam com as de baixo, amontoam-se duas pilhas de peças que trazem à superfície as doces e calorosas recordações das últimas situações em que foram envergadas. O mesmo se aplica ao calçado e, sem estabelecer qualquer relação cromática com o vestuário escolhido, encho meia mala com chinelas e sandálias (porque mais vale sobrar do que faltar) que irão resultar na exposição de um corpo fluorescentemente branco e transparente. Oito biquínis e meia dúzia de frascos depois, com a mala quase cheia e só faltam mesmo os casacos. Casacos? Estarei a entrar em demência? Vai um casaquito preto que dá bem com tudo e com a ajuda do Jesus e do S. Pedro, o calor há-de abundar. Alto! Quase que falhava a coisa mais importante e indispensável de todas: o protector solar “factor 50+ para peles sensíveis” porque, já que não consigo ficar morena sem que isso acarrete noites passadas com toalhas húmidas a hidratar e regularizar a temperatura do corpo, talvez se recomende levar de volta o aspecto quase hepático característico da minha pele e protagonizado pela pobreza de melanina que transporto – gesto altamente criticado pela minha metade boa que, à semelhança de anos anteriores, atribuiu ao coitado do produto a culpa por não ter ficado esturricado (mesmo após ter sido questionado se queria que lhe comprasse um com menor factor de protecção, ao que respondeu negativa e peremptoriamente, e mesmo que apenas o tenha aplicado no primeiro dia).

Resultado:
  • 50% do calçado não foi utilizado porque foram mais os pares do que os dias de férias;
  • 40% das peças não foram vestidas porque não tiveram combinação possível com as partes de cima ou de baixo;
  • 30% da roupa já não me servia - ou seja, 15% porque emagreci e me ficava grande :) e 15% porque achava que tinha perdido mais peso do que o real, pelo que me ficava pequena :(  ; 
  • Levei um aglomerado imenso de tralha e no final quase que precisava de mandar lavar a roupa no hotel porque a efectivamente útil era insuficiente e com tanto calor era impossível de ser reutilizada; 
  • Apesar de ser usual levar o malote dos medicamentos capazes de curar desde a típica cefaleia até à unha encravada, passando pela inflamação da garganta, pela picadela de insectos e pela alergia aos raios solares, desta vez nem um único espécime de analgésico levei – atitude que se veio a revelar de extremo descuido e irresponsabilidade dada a incidência de situações enfermas, frequentes neste tipo de ocasiões;
  • Inexplicavelmente, a minha mala pesava mais 2kg na viagem de volta do que de ida, ainda que não tenha trazido nada de lá e ainda que tenha gasto champôs, cremes, etc. (estranhos fenómenos acontecem).

Notas para o futuro: 
  1. Voltar às check lists;
  2. Não esquecer medicamentos para a regulação da flora intestinal;
  3. Levar pelo menos um dos 5 frascos ricos em Aloe Vera que se foram acumulando em casa (porque, afinal de contas, eles são úteis é fora dela);
  4. E, a mais importante de todas, comprar uma mala mais pequena para fugir à tentação de levar tantas coisas desnecessárias!


sábado, 11 de junho de 2011

Romaria do Pão com Chouriço

Os Santos Populares estão aí mesmo, mesmo a esbarrar e, com eles, o cheirinho a sardinha e pimento assados e os primeiros acordes de música popular portuguesa, pano de fundo dos bailaricos típicos destas romarias. Este ano, as hostes foram abertas nas festas do Senhor de Matosinhos.

Ora bem! Senhor de Matosinhos, no dicionário da minha infância e adolescência, teve como sinónimos “Pão com Chouriço”, “Farturas”, “Carrosséis” e “Bugiganças-que-os-senhores-de-países-africanos-vendem-e-que-ficam-tão-bem-nos-meus-pulsos-e-nas-minhas-orelhas”. Ah! E quase me esquecia desta, de igualável importância e de merecida referência: “Tômbola-para-a-obra-do-Padre-Grilo”. Aqui fui muito feliz, juntamente com os pacotes individuais de bolachas waffer, lenços de papel, garrafas de óleo, miniaturas de miniaturas de carrinhos, canecas, canetas, bacias, e mais pacotes de lenços, e mais bolachas e mais coisas “úteis” – nunca a “inútil” da bicicleta, nem a “inútil” da boneca que gatinhava ou a “inútil” da máquina de escrever electrónica. E eu ficava maravilhada por ser possível, com apenas 50$00, ganhar sempre qualquer coisa, nem que fosse um lápis a dizer “Narciso a Presidente”. Era limpinho! “Aqui sai sempre prémio!” Mas olhando sensatamente para a coisa, considero agora que já que estávamos ali para fazer solidariedade, então talvez não tivesse sido má ideia devolver aquilo tudo à caridade que, como a minha mãe dizia, eram coisas que davam sempre jeito, mas a verdade é que tínhamos que as arrastar a festa toda e, quando chegávamos a casa, todo aquele entusiasmo pelo sucesso do jogo se tinha desvanecido, o coche tinha-se transformado novamente em abóbora e apenas restavam dois sacos cheiinhos de tralha.

Mas voltando aos festejos de ontem, além de ficar a caminho de casa, um desejo sôfrego de ingerir um hiper-mega pão com chouriço (que surgiu desde que vi pela primeira vez este ano o painel de publicidade a esta festa), fez com que conseguisse persuadir a minha metade boa a providenciar um lugar de categoria sobre um passeio da marginal de Leixões. Graças à elevadíssima aptidão do condutor em entalar (ou literalmente enlatar) o nosso pequeno utilitário entre dois todo-o-terreno, e depois de duas coçadelas da panela no lancil do jardim separador central desta via, lá fomos atrás da massa populosa ávida de celebração mais pagã do que religiosa, com o faro alvitrado para o fumo de onde saem todos os petiscos salgados desta festa. Apesar da hora tardia, da manifesta falta de fome e dos objectivos dietéticos desta ocasião “Sai um pãozinho com 'chóriço' a estalar aqui para a boneca”. E já que era dia de festa e não estava sozinha, lá pedimos mais uma bifana, uma coca-cola e uma cervejinha geladas. Só visto! Um regalo para os olhinhos de quem já quase esqueceu o sabor daquela bebida mágica que, dizem as más-línguas, provoca erosão ácida, celulite e é muito útil para desentupir os canos. Só vos digo, é tudo gentinha vazia de espírito, sem paixão pelas coisas boas da vida e que provavelmente vai envelhecer solteira e chata: vale bem a pena um minuto de prazer na boca, uma hora de peso na consciência e um ano de casca de laranja nas coxas, porque os senhores das farmácias também têm que vender aqueles cremes maravilhosos que não funcionam e assim é da maneira que os nossos maridos ficam com ideias profícuas de presentes. Mas como tudo o que é bom termina sempre, rapidamente se assolou sobre o meu estômago uma overdose nutricional que ultrapassou o seu "Estado Limite de Utilização", conferindo-lhe um mal-estar insuportável que, num ápice, pôs termo às festividades gastronómicas - nitidamente, um erro no cálculo das solicitações de um órgão, por sua vez deficientemente dimensionado com o objectivo de permitir ao utilizador vestir um par de calças com 10 anos e respirar ao mesmo tempo.

Deste modo, as farturas ganharam um bilhete para outra romaria e deram lugar a uma caminhada necessária à absorção do repasto. Entre canecas para beber vinho verde, santinhos populares para guarnecer as cascatas são-joaninas e o mobiliário em verguinha, destacaram-se os brinquedos “made in china” que já foram integrados como peças tradicionais de venda nestas festas e que voavam sobre as nossas cabeças, não nos cegando por milagre do santo padroeiro. Uns metros mais acima, e com o chouriço, lá em baixo, ainda a lutar com a coca-cola,  damos de caras com a comitiva de doces caseirinhos (ou talvez não) que vêm do Marco de Canavezes e cujas especialidades são as fogaças de… Vila da Feira. Por fim, encontrámos a típica roulotte que vende o que de mais português existe na cena musical nacional, ainda que alguns destes registos apresentem já uma idade considerável e o texto na capa esteja quase indecifrável pela passagem do tempo.

Uma hora volvida e a festa estava no fim, para nós, velhos na casa dos 20 e dos 30. Ficou por visitar a igreja barroca (o verdadeiro ícone religioso desta romaria, só venerado e visto por 13% dos visitantes da festa), mas os altares ainda não estavam preparados pelas mulheres dos pescadores, a noite ia avançada e seria de extrema importância não exportar o meu jantar para a sarjeta dos serviços municipalizados do concelho. Faltou também dar o pulinho ao Padre Grilo e colaborar solidariamente com a sua obra. Mas estou certa que não faltarão oportunidades para ir lá buscar mais uns saquinhos com “relíquias”, na esperança da boneca “gatinhante” ainda lá estar, aproveitando o momento para saudar os senhores dos Pan Pipes, as senhoras africanas que vendem djambés e fazem trancinhas e transportam os filhos às costas (tudo ao mesmo tempo), os vendedores de manjericos, de tachos, de chapéus e todos os imigrantes ilegais que negoceiam a elevada qualidade das falsificações rascas das melhores marcas internacionais – tudo em prol da nossa saúde ocular. Também não fui aos “carrosséis”, mas este tipo de actividade, assim como o bailarico que estava ali ao pé, seria totalmente incompatível com o estado gástrico do meu devaneio culinário - isso e uma eventual facadita proporcionada pela falta de segurança local.

E lá voltamos para a nossa viatura de barriga cheia de festas populares, rezando ao São João, ao Santo António, ao São Pedro e, claro, ao Senhor de Matosinhos, para estarmos cá para o ano outra vez a comer outro pãozinho com chouriço e, quem sabe, comer uma fartura ou duas. Isto, claro está, se o FMI não decretar o FIM da nossa conta bancária e se o Passos Coelho não acabar com estes feriados que me dão tempo para comparecer as estes eventos (e para publicar o seu registo).


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Tempo extra procura-se

Desta vez não peço inspiração. Só queria um tempinho livre para escrever, nem que fosse sobre os pepinos avariados, sobre a onda das artes marciais que se abateu sobre os moços e as moças deste país, ou sobre a nova moda da humanização dos candidatos a São Bento - gostei muito de ver o Passos Coelho a ser entrevistado sentado na relvinha, sem dúvida. Alguém tem umas horinhas que me ceda? Prometo pagar com juros...

Relógios Moles - Salvador Dali

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Originalidade

"A originalidade não reside em dizer o que ninguém antes afirmou, mas sim em dizer exactamente o que pensamos." - James Stephen.


"O Pensador" - Auguste Rodin

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Apocalipse Now

3ª Feira: não tão má como a 2ª, mas razoavelmente longe do final da semana para ainda não soar a descanso. Depois de um dia de trabalho, de uma penosa ida ao ginásio, de tirar roupa da máquina, de tirar a roupa do estendal, de encher com roupa a máquina e de colocar no estendal outra roupa, nada como um bom filme para restabelecer os níveis energéticos e fazer o “ESC” dos problemas do trabalho. Deixo a minha metade boa encarregue da selecção da fita cinematográfica, impedindo, desta feita, que a minha opção o faça adormecer ainda antes de aparecer o título do filme. E aguardo com a calma do costume pelas cenas de violência gratuita, de carros e prédios a explodirem, meteoros a bombardear o planeta, cyborgues a quererem controlar o mundo, e outras que tais às quais já adquiri imunidade e que me fazem sempre sucumbir à sonolência. Para me convencer de que não era necessário criticar a sua opção, saiu-se com um “Foste tu que me disseste para pôr a gravar… naquele dia, lembras-te? Naquele dia… à tarde… em que tínhamos a casa cheia de gente e tu… andavas muito ocupada a fazer coisas boas para o lanche, como… bolachas com pimenta. Lembras-te?” Efectivamente lembrava-me dos scones em que, acidentalmente, foi adicionado pimenta em vez de sal. E ele serviu-se do facto de nesse dia a frequência dele ser FM e a minha AM, pelo que a desculpa colou. Como seria de esperar, o filme longe estaria de um lindo romance que acabaria com dois velhinhos debaixo de um alpendre a ver o pôr-do-sol enquanto viravam as páginas de um álbum de fotografias queimado pelo tempo e afagado pelo amor que os uniu durante todos aqueles anos. Também não seria nenhuma comédia cuja hilaridade me permitiria pendurar no bengaleiro as minhas inquietudes, não senhor! Do mesmo modo, não iria ser nenhum drama intenso, com poucos efeitos especiais, mas com uma carga psicológica tão forte que nem me deixaria pousar a cabeça no sofá. O filme era sobre, nada mais, nada menos, do que... o APOCALIPSE!!!

Sim, o apocalipse. No dia em que o nosso “primeiro” fecha com o FMI o PEC 4 ½, a escolha ideal será, indubitavelmente, ter diante da nossa 37’’ (televisão, entenda-se) a antevisão disfemista do nosso fim. Como já referi por várias vezes neste blogue, a crise tem-se vindo a alimentar de mim e a roubar bocadinhos do meu ser, todos os dias. E se isso se reflectisse na balança, menos mal, o pior é que nem isso! É uma espécie de parasita da alma (já para não dizer que o é do bolso de todos os portugueses de classe média), que me consome a esperança em que no dia em que for despedida vou ter subsídio de desemprego, a força para remar contra o aumento da retenção na fonte e a vontade de querer sair do buraco escavado na minha conta bancária pelo aumento do IVA. Assim, só me resta ver a coisa como o barquinho a afundar lentamente, qual Titanic, sem que exista um qualquer grpo de violinistas a embalar docemente o nosso desvanecimento.


Ao cabo de cinco minutos após o início do filme, estava já a ligar o computador. Foi mais ou menos naquela parte em que vi a simbólica senhora de idade de andarilho, com a placa dentária impecavelmente branca a combinar com os seus geométricos caracóis alvos, a trepar paredes, a caminhar no tecto e a morder toda e qualquer forma humana que lhe aparecer à frente, com aquele olhar demoníaco que me fez lembrar os pesadelos que tinha em miúda com o “Homem do Saco”. Credo! E pensei “Humm… Não sei bem porquê, mas acho que não vou gostar deste filme. Vou ver se tenho correio”. Entre diapositivos de correntes de azar e filmes de chineses a jogar à bola com binóculos, lá fui dando umas espreitadelas àquele suplício, na tentativa de lhe dar uma segunda hipótese (e uma terceira, e uma quarta, e uma quinta). Mas tenho que reconhecer que vendedores de gelados com serras no lugar de dentes, feitos homens-elástico para apanharem as pessoas, exércitos de zombies e homens crucificados de cabeça para baixo, com o corpo coberto de bolhas prestes a explodir um ácido ultra corrosivo, não são exactamente aquilo que faria o meu dia um pouco menos enfadonho.  


A certa altura pensei que entre assistir àquele cataclismo fantasmagórico e à abordagem feita pelo António Costa do Diário Económico às medidas de recuperação impostas pela Troika, que viesse o diabo e que escolhesse a minha direcção. E veio o Diabo e escolheu a crise.

Continuo sem perceber qual dos dois me provocou mais pesadelos esta noite.

Para os mais curiosos, fica aqui o link para o trailer do filme. Quanto ao resto, é só ver as notícias, ouvir a rádio, ir ao supermercado, andar de autocarro, encontrar um vizinho no elevador, tomar café no emprego, ...