sábado, 25 de junho de 2011

Check list para férias


Sempre considerei que sou muito mais do tipo que trabalha para viver, do que do tipo que vive para trabalhar. Por isso mesmo, na minha opinião, as férias são uma das melhores invenções que Deus permitiu que o Homem criasse (a seguir à Coca-Cola e às máquinas de lavar a roupa). A verdade é que, independentemente do FMI, das condições meteorológicas, das pandemias e dos conflitos políticos, o ser humano foi meticulosamente desenhado para conseguir estar sempre apto a gozá-las (às férias, claro).

Resolvi aproveitar uma semana de apenas 3 dias úteis para dar uma escapadela e qual a minha surpresa quando me apercebi que, para visitar o destino que desejava, não havia vagas em nenhum voo a partir de Portugal – não por serem poucos, muito pelo contrário, mas antes porque meio país resolveu pensar da mesma maneira que eu. E estas coisas deixam-me verdadeiramente “inchada” de tanto orgulho: pertencer a uma nação que de tudo faz para ultrapassar a crise ou, pelo menos, ultrapassar a depressão e a angústia acesas pela falta de dinheiro! Além disso, esta atitude, note-se, revela também um altruísmo tão tipicamente português porque, ainda que o desenvolvimento da nossa indústria hoteleira seja significativamente inferior ao do dos nuestros hermanos, não nos escusamos de continuar a contribuir para a franca expansão deste sector espanhol! Mas como tristezas não pagam dívidas e, seguramente, estar aqui a lamentar-me não irá, de modo algum, contribuir para o aumento da liquidez do nosso Estado, avancemos porque estou de férias e o tempo é precioso!

Voltando ao mote desta publicação, adoro férias, sejam elas para conhecer cidades novas ou para apanhar banhos de sol, de mar e de areia. Por este motivo, gosto de iniciar com alguma antecedência e preceito o ritual da preparação do acontecimento – além disso, com um modelo de cabecinha de vento como esta que o meu pescoço sustenta, todo o planeamento é indispensável.

O registo é recorrente: check lists atrás de check-lists com versões datadas, revistas e actualizadas de “vestuário”, “acessórios”, “medicamentos”, “produtos de higiene”, “artigos de lazer” e “calçado”. Mas as listas não se limitam ao que se leva na bagagem e seguem-se as “coisas a comprar”, “recados a deixar”, “contas a pagar” e outras que tais, certificando-me, assim, que posso deixar o palácio sem estar de cinco em cinco minutos a pensar se fechei a porta à chave, se pedi a alguém para regar as plantas e se não deixei comida a decompor-se no frigorífico. Ora, como estava tão difícil encontrar um sítio mais ou menos decente para molhar os pezitos, a certeza em sair não era assim tanta pelo que, sob pena de agoirar a ociosidade dos próximos dias, decidi protelar o procedimento preparativo até que tivesse os bilhetes na mão.

travel checklist mind map paul foreman Travel Checklist
Véspera de ir de férias e de meio dia de trabalho. 22h00 e inicia-se o enchimento das maletas sem qualquer um dos auxiliares de memória atrás mencionados. E porque os dias quentes são ainda muito tímidos e escassos, as roupas de verão jazem adormecidas no baú desde o Verão passado. Segue-se o processo crítico de seleccionar a roupa para levar. Sem tempo para averiguar se os respectivos tamanhos se adequam à anatomia actual e se as partes de cima combinam com as de baixo, amontoam-se duas pilhas de peças que trazem à superfície as doces e calorosas recordações das últimas situações em que foram envergadas. O mesmo se aplica ao calçado e, sem estabelecer qualquer relação cromática com o vestuário escolhido, encho meia mala com chinelas e sandálias (porque mais vale sobrar do que faltar) que irão resultar na exposição de um corpo fluorescentemente branco e transparente. Oito biquínis e meia dúzia de frascos depois, com a mala quase cheia e só faltam mesmo os casacos. Casacos? Estarei a entrar em demência? Vai um casaquito preto que dá bem com tudo e com a ajuda do Jesus e do S. Pedro, o calor há-de abundar. Alto! Quase que falhava a coisa mais importante e indispensável de todas: o protector solar “factor 50+ para peles sensíveis” porque, já que não consigo ficar morena sem que isso acarrete noites passadas com toalhas húmidas a hidratar e regularizar a temperatura do corpo, talvez se recomende levar de volta o aspecto quase hepático característico da minha pele e protagonizado pela pobreza de melanina que transporto – gesto altamente criticado pela minha metade boa que, à semelhança de anos anteriores, atribuiu ao coitado do produto a culpa por não ter ficado esturricado (mesmo após ter sido questionado se queria que lhe comprasse um com menor factor de protecção, ao que respondeu negativa e peremptoriamente, e mesmo que apenas o tenha aplicado no primeiro dia).

Resultado:
  • 50% do calçado não foi utilizado porque foram mais os pares do que os dias de férias;
  • 40% das peças não foram vestidas porque não tiveram combinação possível com as partes de cima ou de baixo;
  • 30% da roupa já não me servia - ou seja, 15% porque emagreci e me ficava grande :) e 15% porque achava que tinha perdido mais peso do que o real, pelo que me ficava pequena :(  ; 
  • Levei um aglomerado imenso de tralha e no final quase que precisava de mandar lavar a roupa no hotel porque a efectivamente útil era insuficiente e com tanto calor era impossível de ser reutilizada; 
  • Apesar de ser usual levar o malote dos medicamentos capazes de curar desde a típica cefaleia até à unha encravada, passando pela inflamação da garganta, pela picadela de insectos e pela alergia aos raios solares, desta vez nem um único espécime de analgésico levei – atitude que se veio a revelar de extremo descuido e irresponsabilidade dada a incidência de situações enfermas, frequentes neste tipo de ocasiões;
  • Inexplicavelmente, a minha mala pesava mais 2kg na viagem de volta do que de ida, ainda que não tenha trazido nada de lá e ainda que tenha gasto champôs, cremes, etc. (estranhos fenómenos acontecem).

Notas para o futuro: 
  1. Voltar às check lists;
  2. Não esquecer medicamentos para a regulação da flora intestinal;
  3. Levar pelo menos um dos 5 frascos ricos em Aloe Vera que se foram acumulando em casa (porque, afinal de contas, eles são úteis é fora dela);
  4. E, a mais importante de todas, comprar uma mala mais pequena para fugir à tentação de levar tantas coisas desnecessárias!


sábado, 11 de junho de 2011

Romaria do Pão com Chouriço

Os Santos Populares estão aí mesmo, mesmo a esbarrar e, com eles, o cheirinho a sardinha e pimento assados e os primeiros acordes de música popular portuguesa, pano de fundo dos bailaricos típicos destas romarias. Este ano, as hostes foram abertas nas festas do Senhor de Matosinhos.

Ora bem! Senhor de Matosinhos, no dicionário da minha infância e adolescência, teve como sinónimos “Pão com Chouriço”, “Farturas”, “Carrosséis” e “Bugiganças-que-os-senhores-de-países-africanos-vendem-e-que-ficam-tão-bem-nos-meus-pulsos-e-nas-minhas-orelhas”. Ah! E quase me esquecia desta, de igualável importância e de merecida referência: “Tômbola-para-a-obra-do-Padre-Grilo”. Aqui fui muito feliz, juntamente com os pacotes individuais de bolachas waffer, lenços de papel, garrafas de óleo, miniaturas de miniaturas de carrinhos, canecas, canetas, bacias, e mais pacotes de lenços, e mais bolachas e mais coisas “úteis” – nunca a “inútil” da bicicleta, nem a “inútil” da boneca que gatinhava ou a “inútil” da máquina de escrever electrónica. E eu ficava maravilhada por ser possível, com apenas 50$00, ganhar sempre qualquer coisa, nem que fosse um lápis a dizer “Narciso a Presidente”. Era limpinho! “Aqui sai sempre prémio!” Mas olhando sensatamente para a coisa, considero agora que já que estávamos ali para fazer solidariedade, então talvez não tivesse sido má ideia devolver aquilo tudo à caridade que, como a minha mãe dizia, eram coisas que davam sempre jeito, mas a verdade é que tínhamos que as arrastar a festa toda e, quando chegávamos a casa, todo aquele entusiasmo pelo sucesso do jogo se tinha desvanecido, o coche tinha-se transformado novamente em abóbora e apenas restavam dois sacos cheiinhos de tralha.

Mas voltando aos festejos de ontem, além de ficar a caminho de casa, um desejo sôfrego de ingerir um hiper-mega pão com chouriço (que surgiu desde que vi pela primeira vez este ano o painel de publicidade a esta festa), fez com que conseguisse persuadir a minha metade boa a providenciar um lugar de categoria sobre um passeio da marginal de Leixões. Graças à elevadíssima aptidão do condutor em entalar (ou literalmente enlatar) o nosso pequeno utilitário entre dois todo-o-terreno, e depois de duas coçadelas da panela no lancil do jardim separador central desta via, lá fomos atrás da massa populosa ávida de celebração mais pagã do que religiosa, com o faro alvitrado para o fumo de onde saem todos os petiscos salgados desta festa. Apesar da hora tardia, da manifesta falta de fome e dos objectivos dietéticos desta ocasião “Sai um pãozinho com 'chóriço' a estalar aqui para a boneca”. E já que era dia de festa e não estava sozinha, lá pedimos mais uma bifana, uma coca-cola e uma cervejinha geladas. Só visto! Um regalo para os olhinhos de quem já quase esqueceu o sabor daquela bebida mágica que, dizem as más-línguas, provoca erosão ácida, celulite e é muito útil para desentupir os canos. Só vos digo, é tudo gentinha vazia de espírito, sem paixão pelas coisas boas da vida e que provavelmente vai envelhecer solteira e chata: vale bem a pena um minuto de prazer na boca, uma hora de peso na consciência e um ano de casca de laranja nas coxas, porque os senhores das farmácias também têm que vender aqueles cremes maravilhosos que não funcionam e assim é da maneira que os nossos maridos ficam com ideias profícuas de presentes. Mas como tudo o que é bom termina sempre, rapidamente se assolou sobre o meu estômago uma overdose nutricional que ultrapassou o seu "Estado Limite de Utilização", conferindo-lhe um mal-estar insuportável que, num ápice, pôs termo às festividades gastronómicas - nitidamente, um erro no cálculo das solicitações de um órgão, por sua vez deficientemente dimensionado com o objectivo de permitir ao utilizador vestir um par de calças com 10 anos e respirar ao mesmo tempo.

Deste modo, as farturas ganharam um bilhete para outra romaria e deram lugar a uma caminhada necessária à absorção do repasto. Entre canecas para beber vinho verde, santinhos populares para guarnecer as cascatas são-joaninas e o mobiliário em verguinha, destacaram-se os brinquedos “made in china” que já foram integrados como peças tradicionais de venda nestas festas e que voavam sobre as nossas cabeças, não nos cegando por milagre do santo padroeiro. Uns metros mais acima, e com o chouriço, lá em baixo, ainda a lutar com a coca-cola,  damos de caras com a comitiva de doces caseirinhos (ou talvez não) que vêm do Marco de Canavezes e cujas especialidades são as fogaças de… Vila da Feira. Por fim, encontrámos a típica roulotte que vende o que de mais português existe na cena musical nacional, ainda que alguns destes registos apresentem já uma idade considerável e o texto na capa esteja quase indecifrável pela passagem do tempo.

Uma hora volvida e a festa estava no fim, para nós, velhos na casa dos 20 e dos 30. Ficou por visitar a igreja barroca (o verdadeiro ícone religioso desta romaria, só venerado e visto por 13% dos visitantes da festa), mas os altares ainda não estavam preparados pelas mulheres dos pescadores, a noite ia avançada e seria de extrema importância não exportar o meu jantar para a sarjeta dos serviços municipalizados do concelho. Faltou também dar o pulinho ao Padre Grilo e colaborar solidariamente com a sua obra. Mas estou certa que não faltarão oportunidades para ir lá buscar mais uns saquinhos com “relíquias”, na esperança da boneca “gatinhante” ainda lá estar, aproveitando o momento para saudar os senhores dos Pan Pipes, as senhoras africanas que vendem djambés e fazem trancinhas e transportam os filhos às costas (tudo ao mesmo tempo), os vendedores de manjericos, de tachos, de chapéus e todos os imigrantes ilegais que negoceiam a elevada qualidade das falsificações rascas das melhores marcas internacionais – tudo em prol da nossa saúde ocular. Também não fui aos “carrosséis”, mas este tipo de actividade, assim como o bailarico que estava ali ao pé, seria totalmente incompatível com o estado gástrico do meu devaneio culinário - isso e uma eventual facadita proporcionada pela falta de segurança local.

E lá voltamos para a nossa viatura de barriga cheia de festas populares, rezando ao São João, ao Santo António, ao São Pedro e, claro, ao Senhor de Matosinhos, para estarmos cá para o ano outra vez a comer outro pãozinho com chouriço e, quem sabe, comer uma fartura ou duas. Isto, claro está, se o FMI não decretar o FIM da nossa conta bancária e se o Passos Coelho não acabar com estes feriados que me dão tempo para comparecer as estes eventos (e para publicar o seu registo).


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Tempo extra procura-se

Desta vez não peço inspiração. Só queria um tempinho livre para escrever, nem que fosse sobre os pepinos avariados, sobre a onda das artes marciais que se abateu sobre os moços e as moças deste país, ou sobre a nova moda da humanização dos candidatos a São Bento - gostei muito de ver o Passos Coelho a ser entrevistado sentado na relvinha, sem dúvida. Alguém tem umas horinhas que me ceda? Prometo pagar com juros...

Relógios Moles - Salvador Dali

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Originalidade

"A originalidade não reside em dizer o que ninguém antes afirmou, mas sim em dizer exactamente o que pensamos." - James Stephen.


"O Pensador" - Auguste Rodin

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Apocalipse Now

3ª Feira: não tão má como a 2ª, mas razoavelmente longe do final da semana para ainda não soar a descanso. Depois de um dia de trabalho, de uma penosa ida ao ginásio, de tirar roupa da máquina, de tirar a roupa do estendal, de encher com roupa a máquina e de colocar no estendal outra roupa, nada como um bom filme para restabelecer os níveis energéticos e fazer o “ESC” dos problemas do trabalho. Deixo a minha metade boa encarregue da selecção da fita cinematográfica, impedindo, desta feita, que a minha opção o faça adormecer ainda antes de aparecer o título do filme. E aguardo com a calma do costume pelas cenas de violência gratuita, de carros e prédios a explodirem, meteoros a bombardear o planeta, cyborgues a quererem controlar o mundo, e outras que tais às quais já adquiri imunidade e que me fazem sempre sucumbir à sonolência. Para me convencer de que não era necessário criticar a sua opção, saiu-se com um “Foste tu que me disseste para pôr a gravar… naquele dia, lembras-te? Naquele dia… à tarde… em que tínhamos a casa cheia de gente e tu… andavas muito ocupada a fazer coisas boas para o lanche, como… bolachas com pimenta. Lembras-te?” Efectivamente lembrava-me dos scones em que, acidentalmente, foi adicionado pimenta em vez de sal. E ele serviu-se do facto de nesse dia a frequência dele ser FM e a minha AM, pelo que a desculpa colou. Como seria de esperar, o filme longe estaria de um lindo romance que acabaria com dois velhinhos debaixo de um alpendre a ver o pôr-do-sol enquanto viravam as páginas de um álbum de fotografias queimado pelo tempo e afagado pelo amor que os uniu durante todos aqueles anos. Também não seria nenhuma comédia cuja hilaridade me permitiria pendurar no bengaleiro as minhas inquietudes, não senhor! Do mesmo modo, não iria ser nenhum drama intenso, com poucos efeitos especiais, mas com uma carga psicológica tão forte que nem me deixaria pousar a cabeça no sofá. O filme era sobre, nada mais, nada menos, do que... o APOCALIPSE!!!

Sim, o apocalipse. No dia em que o nosso “primeiro” fecha com o FMI o PEC 4 ½, a escolha ideal será, indubitavelmente, ter diante da nossa 37’’ (televisão, entenda-se) a antevisão disfemista do nosso fim. Como já referi por várias vezes neste blogue, a crise tem-se vindo a alimentar de mim e a roubar bocadinhos do meu ser, todos os dias. E se isso se reflectisse na balança, menos mal, o pior é que nem isso! É uma espécie de parasita da alma (já para não dizer que o é do bolso de todos os portugueses de classe média), que me consome a esperança em que no dia em que for despedida vou ter subsídio de desemprego, a força para remar contra o aumento da retenção na fonte e a vontade de querer sair do buraco escavado na minha conta bancária pelo aumento do IVA. Assim, só me resta ver a coisa como o barquinho a afundar lentamente, qual Titanic, sem que exista um qualquer grpo de violinistas a embalar docemente o nosso desvanecimento.


Ao cabo de cinco minutos após o início do filme, estava já a ligar o computador. Foi mais ou menos naquela parte em que vi a simbólica senhora de idade de andarilho, com a placa dentária impecavelmente branca a combinar com os seus geométricos caracóis alvos, a trepar paredes, a caminhar no tecto e a morder toda e qualquer forma humana que lhe aparecer à frente, com aquele olhar demoníaco que me fez lembrar os pesadelos que tinha em miúda com o “Homem do Saco”. Credo! E pensei “Humm… Não sei bem porquê, mas acho que não vou gostar deste filme. Vou ver se tenho correio”. Entre diapositivos de correntes de azar e filmes de chineses a jogar à bola com binóculos, lá fui dando umas espreitadelas àquele suplício, na tentativa de lhe dar uma segunda hipótese (e uma terceira, e uma quarta, e uma quinta). Mas tenho que reconhecer que vendedores de gelados com serras no lugar de dentes, feitos homens-elástico para apanharem as pessoas, exércitos de zombies e homens crucificados de cabeça para baixo, com o corpo coberto de bolhas prestes a explodir um ácido ultra corrosivo, não são exactamente aquilo que faria o meu dia um pouco menos enfadonho.  


A certa altura pensei que entre assistir àquele cataclismo fantasmagórico e à abordagem feita pelo António Costa do Diário Económico às medidas de recuperação impostas pela Troika, que viesse o diabo e que escolhesse a minha direcção. E veio o Diabo e escolheu a crise.

Continuo sem perceber qual dos dois me provocou mais pesadelos esta noite.

Para os mais curiosos, fica aqui o link para o trailer do filme. Quanto ao resto, é só ver as notícias, ouvir a rádio, ir ao supermercado, andar de autocarro, encontrar um vizinho no elevador, tomar café no emprego, ...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A força de um "Dragounhe"!

Não sei se é por ser Páscoa e ser um período de introspecção e paz, se é por gostar muito da minha cara-metade, mas a verdade é que há já muito tempo que deixei de celebrar os golos do Fêquêpê contra o Benfica. Com o propósito de conter uma alegria exacerbada, abri o computador e comecei a escrever.

Faltam 30 minutos para o jogo da meia-final da Taça de Portugal  terminar e o resultado está 0-0. Cumprindo os votos que trocámos no dia em que nos tornámos Um-Só, achei que não só na alegria como também na tristeza deveria estar ao lado dele, neste caso concreto, à sua frente, a apoiá-lo. E bem que precisa de um amparo, já que decidiu assistir ao jogo num restaurante cheio de portistas, que de 2 em 2 minutos grita “é golo, é golo”, ainda que a bola vá no meio campo do Porto. Mas o espírito vencedor que se instalou em todos os portistas por estas alturas não fica por aqui. Mulheres de maquilhagem televisiva roem as suas unhas de gel e não olham a meios para encher a boca toda no momento de ofender a equipa adversária. O mesmo indivíduo que berra “é penalty”, sem que ninguém tenha marcado falta e com a bola ainda no meio campo, não se cansa de chamar “assassiiiiiiino” sempre que algum jogador da sua equipa de eleição sofre uma falta – e garanto que chega a um ponto em que, alguém como eu que está debruçada num computador minúsculo e vai olhando de soslaio para o grande ecrã do restaurante, mais parece estar numa batalha campal do que numa pizzaria onde as famílias costumam ir almoçar ao Domingo. São inacreditáveis as reacções a que se conseguem assistir quando observamos estas pessoas como se estivéssemos do outro lado do vidro.

O maridão, coitadito, não se manifesta. Combate os nervos como pode. Disfarça a desilusão como consegue. E no meio da selvajaria, que entretanto se instalou neste espaço, acho que já se deve ter arrependido uma série de vezes de ter resolvido assistir a mais uma derrota do glorioso no seio de tantos dragões. E os seus olhos, mais do que tudo o resto, denunciam a sua tristeza.

As blasfémias sucedem-se. Expressões nunca antes ouvidas ferem os meus ouvidos azuis (imagine-se o mal que isso deve fazer aos dele). Acho que a frase da noite, para além de todos os palavrões que se possa imaginar, foi “chupa, cão”, repetida vezes sem conta. Chupa, cão? Mas o que é isso, Senhor? Todas as faltas dão direito a cartão vermelho. Todos os remates conduzem à concretização, e valha-nos Deus se o árbitro pensasse como eles! O mais caricato é que estamos a falar de pessoas de um nível social, aparentemente, privilegiado que, ainda antes do jogo, falavam de estratégias financeiras e de benchmarking, e que num instante despiram os seus fatos de executivos bem sucedidos e assertivos e vestiram a pele de verdadeiros bichos, quase rasgaram as cordas vocais de tanto gritar e conseguiram contagiar toda a sala com este espírito grosseiro e rude - sinal verde para aqueles que, com o seu típico sotaque tripeiro, se estavam a conter para não libertarem tudo o que era costume dizerem em outros locais menos selectos e mais… arejados! Foram precisos somente breves segundos para que toda a gente da sala, excluindo a minha metade boa, uma discreta amiga do grupo animalesco e eu, desatasse a lançar “piropos” indecorosos ao árbitro, a saltar em cada momento de tensão do jogo, a trocar cachecóis, a abraçar-se, a partir copos com os gestos bruscos, a dançar e a celebrar os golos aos pinchos e aos berros.

Fica para a história da noite a celebração dos golos do Porto, no modo repeat como é habitual após a conclusão do jogo, como se fosse a primeira vez que estivessem a ver a jogada, como se o porto não tivesse ganho e como se disso dependessem as suas vidas. Fica para a memória também a frase que ouvi agora na mesa do lado, proferida ao empregado de mesa, chamado pelo cliente: Por favor, desligue a luz porque estamos habituados a celebrar às escuras.

Fim de jogo. Resultado: 3-1 para o Fêquêpê. A fera acalmou e voltou o sossego. Regressaram também as conversas racionais, os vocábulos amadurecidos e os assuntos que nos transportam imediatamente para a realidade que estávamos a viver ainda antes de ser dado o apito para o início da partida: “80 mil milhões de euros”, “A catástrofe instalada no país”, o “FMI” e a “banca nacional”.

Em todo o caso, "vamos lá cambada" tomar as devidas precauções para ver se não ficamos como o belo exemplo que se segue:

(clicar para aumentar)



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cristo Ressuscitou, Aleluia, Aleluia!

Finalmente chegou a Páscoa. Se eu mandasse, esta festa nunca iria surgir tão tardiamente no calendário, porque não faz sentido absolutamente nenhum vir o cabritinho assado e as amêndoas (ai, as amêndoas!) ao mesmo tempo que uma pessoa anda a fazer malabarismos para emagrecer uns quilinhos, dada a proximidade ao período da praia, de casórios, de comunhões, de baptizados e outros que tais, em que se exige um elevado nível de exposição corporal. É completamente impossível a compatibilização de 1,2Kg de maçã cozida, três dias por semana, com o folar e os ovos de chocolate. Muito má ideia a destes senhores, que criaram estes calendários que ninguém é capaz de compreender e de prever, devido à sua fórmula matemática praticamente indecifrável aos olhos do comum mortal. Com todo o respeito, mas… Tss, Tss, Tss (tentativa de simulação de estalidos de desilusão conseguidos por efeitos de sucção da língua no céu da boca).
http://mulhertrinta.blogspot.com/2011/04/feliz-pascoa.html

A minha Páscoa tem vários momentos: quatro, para ser mais precisa, todos eles recheados de instantes “apetitosos”, capazes de despertar o apetite a moribundos e anorécticos.

De há uns anos para cá, sem saber muito bem o motivo, resolvi, juntamente com alguns dos meus amigos, respeitar, com todo o rigor gastronómico que o acontecimento religioso exige, a 6ª Feira Santa. Nada de bifes; nada de carne assada; alheiras, nem vê-as; e carnes de caça, muito menos! Assim, sorrimos orgulhosamente para o empregado enquanto proferimos palavras que anunciam um jejum religioso, uma contenção alimentar e um extremoso respeito pelas tradições da quaresma “é um arrozinho de marisco, por favor, duas sapateiras para a entrada e, já agora, 1,5 kg de amêijoas “à bolhão pato” com aquele pãozinho de alho quentinho que vocês têm”. Muito bem! Aos poucos e poucos vamos assim angariando uma parcela de terreno (in)fértil no Céu.

No Sábado, é dia de Sogros. Franguinhos das Medas ao almoço, a 130 Km de casa, que nos fazem chorar, berrar e espernear por mais, porque são simplesmente os melhores mini-frangos assados que já tive a oportunidade de experimentar em toda a minha vasta vida de provadora de churrasco. Isso e a canjinha de galinha, que inicia o momento divino da degustação. Juntos impedem toda e qualquer tentativa de manter intervalos regulares de três horas entre refeições ligeiras, porque não há estômago que aguente outra refeição em tão curto espaço de tempo. E, após uma visita à capital distrital da região (mais 80 km de passeio de automóvel, para “fazer a digestão”), lá saltamos para a refeição soberana do dia. Antecipando o almoço do dia de Páscoa para o Jantar de Sábado Aleluia, o banquete consuma as elevadas expectativas criadas em relação à qualidade do soberbo repasto, desabotoa o botão das minhas calças e abre o frasco dos sais digestivos. Mais uma dúzia de amêndoas para adoçar a conversa que rompe a madrugada e, ainda com o caprino às voltas com os sucos estomacais, rendemo-nos à moleza provocada pela barriga cheia e vamos dormir.

No dia de beijar a cruz, a alvorada é apressada e, por vezes, dolorosa. Ainda com a boca a parecer papel cavalinho, e a imitar a manhã do dia de Natal, de uma só golada bebemos 1 copo de coca-cola para desobstruir as vias digestivas, abrindo, desta feita, espaço para o novo carregamento que se aproxima. Vestimos uma roupita, com sorte, a estrear, e voamos rumo aos meus avós maternos, numa viagem de 200km. Sem deixar descansar as pupilas gustativas, as glândulas salivares entram novamente em funcionamento, desta vez na sua máxima potência, porque vem aí o anho assado (borrego para os menos acostumados com estes termos mais rurais). Tenho que fazer um esforço gigantesco para me abstrair da ideia de que o petisco que jaz no meu prato, velado pelas batatas, pelo arroz e pelos grelos, andava há poucos dias completamente desorientado pela cozinha à procura da minha avó para receber o biberão de leite, soltando impacientes e ensurdecedores méeeees e pinchos de força descontrolada. Acaba o borrego, mas não acabam os repastos. A tradição manda ir a casa das pessoas afagar Cristo Ressuscitado com um beijo nos seus pés, exaltar “Aleluia, Aleluia” e sorver de uma assentada só, porque se faz tarde e o compasso não espera, mais uma fatia de pão-de-ló de Ovar e um copito de vinho fino. Graças ao Senhor que sou abstémia, ou seria uma fortíssima candidata a perder tantas e tão boas memórias das Páscoas da minha infância. A recordação mais forte que tenho é a regueifa circular – tradicionalmente era com este pão que os padrinhos presenteavam os afilhados e que, se a sua idade e perímetro cefálico permitissem, era enfiada cabeça abaixo. Seguiam-se momentos de verdadeiro terror para a criança, que durariam até que os adultos se enchessem de tirar fotografias com a criança a chorar inconsolavelmente sobre o alimento. Lembro-me também de vestir roupa nova neste dia, colecção Primavera/Verão, e de exibir, quando a Páscoa calhava numa época dita normal (Março), carregada de vaidade, os pêlos eriçados pelo frio e a pele molhada pela chuva, porque o casaco tapava a minha t-shirt nova! Bons tempos!

O quarto momento da minha Páscoa é quando ainda nos restam forças para mais 100 Km de viagem e vamos a casa do afilhado da minha metade boa. E para não baixar a média, mais bolos, mais bebidas, mais pecados gastronómicos que atingem o meu plano alimentar como balas deixando-o fragilizado e mortificado.

Resultado final: 600 e tal kilómetros de viagens automobilísticas, muitos beijos em crucifixos metálicos cheios de "micrómios" (como diz o meu afilhado), algum mal-estar digestivo e uma dieta de 5 semanas que irá recomeçar do zero (ou de um valor ainda mais negativo). O que vale são as barrigadas de riso, os banquetes de conversa e todas as recordações que se criaram e que se acrescentam às dos anos anteriores, que são apenas o que interessa conservar num lugar bem guardado no nosso coração e na nossa memória.

NOTA: O cartoon aqui apresentado é da autoria da ilustradora Cibele Santos, pelo que deixo aqui a recomendação para visualizarem o blog dela, porque está, simplesmente, DEMAIS!!! Não só apenas as mulheres, como também muitos homens, compreenderão cada letra e traço que ela publica.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A… A… A… Atchim! Atchiiiiiiiiiiim!!!

Alegrem-se os Céus e a Terra porque chegou a Primavera! E é bom aproveitar bem isso porque a partir de 2015 ela terá um pouco menos de importância para os portugueses, já que a Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008 prevê que, a partir dessa data, ai de quem se atrever a escrever o nome das estações do ano com letra maiúscula, porque esse gesto será subentendido como sacrilégio para quem legislou esta matéria! Mas isso são outros arrozes…

As últimas semanas têm sido cinzentas, sobretudo os últimos dias. Não é fácil adormecer, acordar e sonhar com a crise política, com a nuvem radioactiva e com a entrada do FMI, e é ainda menos suportável ir trabalhar a ouvir, de meia em meia hora, palavras como “eminência de despedimentos colectivos em todos os sectores”, “decréscimo da facturação” e “ausência de concretização de negócios”, entre uma enorme panóplia de vocábulos que, dedilhados ao som de um sentimento geral de desânimo, nos põem numa posição bem favorável a caminho do desemprego, do desespero, da desmotivação e de todos os outros "des"... Mas nada como um lindo dia de sol e portugueses a ganhar jogos nas competições europeias para sofrermos de uma amnésia temporária e pormos esses problemas para trás das costas. Aliás, problemas? Quais problemas?



Há umas semanas atrás chegou a Primavera "bela e amarela", ainda que de forma tímida e reservada. Consigo trouxe dois ou três dias de Verão que fizeram as pessoas tirar da naftalina os tops, os calções, as sandálias e os vernizes de cores quentes e fortes! Pareceu-me que algumas também conseguiram tirar do roupeiro alguma falta de bom senso. Mas, alto lá! Com isto não quero dizer que tenho alguma coisa contra as pessoas que, logo no primeiro dia quente do ano, vão à noite para o shopping de chinelito de dedo e calções de banho – gesto de libertação e resultado de 10 horas com os pés assados pelas botas de camurça e corpo ensopado pelas camisola de lã e sobretudos a fazer lembrar exércitos russos! E quem, como eu, tem a vantagem de ir a casa a meio do dia, tem também a hipótese de vestir algo mais leve e estival. E, claro, à medida que o final da jornada se aproxima, também regressam uns pés frios, uns arrepios desconfortáveis e uma vontade secreta de ter uma mantinha a cobrir as pernas porque “está um frio que não se aguenta só com esta camisolinha de algodão que nem os pulsos tapa” e “o que sabia mesmo bem agora era uns pauzitos a arder na minha lareira”. Mas é tão grande a vontade de fazer do Inverno história e tão vergonhosa a ideia de reconhecer que talvez ainda seja um pouco cedo para deixar as meias em casa que nem pensar em admitir isso em voz alta, perante quem quer que seja! Resta-nos cruzar os braços e tentar, pelo menos, que ninguém perceba pelas respostas naturais do nosso organismo, que estamos à beira de uma hipotermia...

Viva a Primavera e os carregamentos maciços de pólenes, poeiras e sementes que navegam pelo ar, ao sabor das nortadas matinais que anunciam tardes quentes e soalheiras. A… A… A… (silêncio) Aaaaatchim! Calma... Vêm sempre em par e um é mais lento! Atchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim! Pois bem! Já não tinha esta macedónia de sensações está para fazer um ano: os olhos permanentemente lacrimejantes, que impedem toda e qualquer tentativa de maquilhagem; arranhões e manchas provocados pelo intenso prurido na pele do rosto o que, sem o apoio da maquilhagem, me obriga a usar as unhas mais curtas do que um benfiquista em dia de jogo no Dragão (e que, ainda assim, me deixa a cara mais ou menos como ficaram as cadeiras da minha sala depois da chegada dos gémeos); a insistente impressão de que tenho uma formiga a percorrer vezes sem conta as minhas cavidades nasais; a desesperante comichão na garganta precisamente onde não consigo coçar sem que provoque o vómito; já para não falar do desejo ininterrupto de fazer uma imitação daquele anúncio em que a rapariga, no meio do primeiro encontro, simula a queda de um objecto ao chão para poder por termo àquela coceira na moleirinha que não a deixa apreciar convenientemente os atributos do jovem que está à sua frente.

Entretanto, os dias quentes tornam-se mais amiúdes e começamos a habituar-nos à ideia de que temos mesmo que guardar as camisolas de lã, as botas de cano alto e a roupa de cama hibernal (esta última parte é a que me está a custar mais e estou a ver Junho a entrar pela minha casa dentro e a ser recebido pelos lençóis polares em que estou tão viciada). Confesso que é de pôr os nervos em franja acordar de manhã, abrir o roupeiro e não apetecer vestir nada, mas não há melhor sensação do que ir ao baú e tirar de lá a bela da t-shirt rosa choque que tão bem ficará com as sandálias da mesma enérgica cor. Só há um pequeno problema: afinal o ano de 2011 não começou em Janeiro, nem em Fevereiro e, por isso, não se concretizou a sensação de dever cumprido das resoluções de Ano Novo. 2011 só começou em meados de Março, quando finalmente percebi que não é por respirar fundo e encolher a barriga que ela vai parecer menos proeminente e que se calhar até não seria mesmo má ideia passar um bocado de fome e transpirar uns litros de toxinas a ver se parte dessa camada adiposa, vulgo, odiosa, vai de férias… permanentes! 4 semanas volvidas, 45 litros de água com sabor a terra, 15 kilos de maça cozida, 400 toneladas de apetites por satisfazer  e 4 kilitos a menos e estou exactamente na mesma. A primavera deve-me estar a fazer mal e só devo ter emagrecido nos neurónios… Era bom que se começasse a ver alguma coisinha, senão, com o calor, sem nada que me sirva e juntando a crise que para aqui vai, a tendência desta estação, para mim, vai ser qualquer coisa deste género:


Já disse que adoro a Primavera?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Lucky Thirteen

Adoro gatos pretos e 13 é o meu número da sorte! Estranho? Não... Tenho um Sansão rabugento que adoro (sem desmerecer a Dalila, claro) e casei com um lindo gatinho neste dia. E ontem o meu amigo Neves juntou-se ao grupo de seguidores deste blogue, completando o magnífico número de que tanto gosto! Obrigada a todos pelo apoio!

Já agora, sabem que dia é hoje? :-)

quinta-feira, 31 de março de 2011

A ausência é mais adversa do que a passagem do tempo

Há um dia em que acordamos de manhã e, mesmo sem entrarmos no chuveiro, levamos com um balde de água fria que nos abre os olhos e nos faz revisar todas as nossas prioridades. Este balde pode bem ser uma metáfora para uma enorme variedade de coisas, sendo que, num destes dias, em vez de me chover uns grãozinhos doces e alegres de arroz do meu Céu, abateu-se sobre o meu coração uma tonelada inteira que me feriu, me enfraqueceu e me fez reflectir sobre uma série de coisas.

A sensação de perda é um sentimento sempre inóspito e avassalador, independentemente do bem, da pessoa ou do valor espiritual do qual nos afastamos e da quantidade de vezes que passamos por essa provação. É simplesmente mau. Sendo uma distraída sem exemplo, desde tenra idade que perco de tudo um pouco: guarda-chuvas, casacos, chapéus, canetas, cachecóis, documentos, brincos, óculos de sol e tudo o que, pela sua portabilidade, seja facilmente esquecido num veículo de transporte público, numa casa de banho de um centro comercial ou num banco de uma sala de espera. Por este motivo, nunca fui uma “agarrada” aos bens materiais e fui aprendendo a lidar muitíssimo bem com o seu desaparecimento. Em contrapartida, a perda humana, seja ao nível que for, sempre foi encarada por mim como o duro disfemismo que relaciona essa ausência com praticamente tudo o que gira à minha volta. E no lugar da pessoa ou do sentimento perdido, consigo imediatamente projectar outras pessoas, outras situações e outros valores.

Por tudo isto, tenho andado ausente destas jornadas e a faltar ao meu compromisso particular de tornar a escrita numa agradável rotina. E, apesar das palavras de motivação e apoio que fui recebendo, a verdade é que esta foi uma semana de reflexão intensa.

E o que me traz cá hoje é o “brilho” interno que todos nós temos e que é, simultaneamente, inato e inconstante. Comparo este brilho à passagem da corrente eléctrica naquelas aldeias esquecidas pela urbe, onde os fios ainda dançam ao sabor do vento e da chuva. E a verdade é que, à imagem daquelas lâmpadas amareladas e queimadas pela passagem do tempo, também nós perdemos parte dessa luminosidade quando o clima se ameaça feroz.

Quando falo em "perda de luz" não estou a fazer qualquer associação às gentis marcas da passagem dos anos, das experiências e dos conhecimentos - não estou a falar das rugas, nem dos cabelos brancos e muito menos das manchas imprimidas na pele. Refiro-me sim, literalmente, ao brilho que o nosso rosto irradia! Evidentemente que existem pessoas que reservam para si próprias as emoções, mais facilmente do que outras, mas há sempre qualquer coisa que trespassa, que se percebe e que se sente, sobretudo aos olhos de quem tão bem nos conhece. Aí, eu sou completamente transparente! Não há sensação que não se consiga conhecer através da chama dos meus olhos, da tenacidade da minha voz e da expressão das minhas posturas. Mas momentos há em que esse esplendor perde força e esmorece. Há realidades que vêm ao nosso encontro que embaciam os nossos olhos, enfraquecem a nossa voz e amolecem o nosso corpo. Com esses factos sentimo-nos esmagados e apagados, mas com essas vivências (não projectadas, não prevenidas e, seguramente, não desejadas) crescemos sempre um pouco. Crescemos e morremos! Dois passos para a frente e um para trás. Faz parte... 

Mas isso pertence a uma rotina viciada e natural que temos de aceitar e com a qual temos de nos conformar, sob o risco de perdermos mais tempo a negar a confrontação e a realidade do que, propriamente, a sorver os doces momentos que a vida nos serve.  

E, para além dos acontecimentos, também as pessoas que nos rodeiam controlam a actividade da nossa boa disposição! É dessas pessoas, que sabiamente manuseiam o botão do volume do nosso brilho interno, que gosto de me fazer rodear sempre que passo por um momento mais escuro e mais frio, e são elas que funcionam como o meu antídoto pessoal, o meu termostato de estimação, e me aquecem e abrilhantam a alma!


Essas são as pessoas que me acompanham nos bons e nos maus momentos, as que me apoiam quando estou quase a escorregar e as que me dão a mão quando caio. Essas são as pessoas que me ligam quando não têm absolutamente nada para me dizer, que me convidam para comer, mesmo quando só têm pão seco e vinho azedo e que me elogiam mesmo quando não há motivo para tal gesto. Essas são as pessoas que não se congratulam pelos meus infortúnios, nem que ficam tristes quando ultrapasso um obstáculo. Essas são aquelas que não têm medo de pedir desculpa, nem vergonha de dizer obrigado. Essas pessoas são os meus amigos e são as que merecem receber no dobro aquilo que me dão, ainda que não esperem essa recompensa. 

Porque a amizade é uma conquista permanente que deve ser cultivada, ainda que por vezes o seja feito à distância, a todos os meus amigos, obrigada por existirem e por permitirem que brilhe um pouco mais sempre que estou convosco!

"A ausência é mais adversa do que a passagem do tempo" - Fernando Pessoa