| "O Pensador" - Auguste Rodin |
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Originalidade
"A originalidade não reside em dizer o que
ninguém antes afirmou, mas sim em dizer exactamente o que pensamos." -
James Stephen.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Apocalipse Now
3ª Feira: não tão má como a 2ª, mas razoavelmente longe do final da semana para ainda não soar a descanso. Depois de um dia de trabalho, de uma penosa ida ao ginásio, de tirar roupa da máquina, de tirar a roupa do estendal, de encher com roupa a máquina e de colocar no estendal outra roupa, nada como um bom filme para restabelecer os níveis energéticos e fazer o “ESC” dos problemas do trabalho. Deixo a minha metade boa encarregue da selecção da fita cinematográfica, impedindo, desta feita, que a minha opção o faça adormecer ainda antes de aparecer o título do filme. E aguardo com a calma do costume pelas cenas de violência gratuita, de carros e prédios a explodirem, meteoros a bombardear o planeta, cyborgues a quererem controlar o mundo, e outras que tais às quais já adquiri imunidade e que me fazem sempre sucumbir à sonolência. Para me convencer de que não era necessário criticar a sua opção, saiu-se com um “Foste tu que me disseste para pôr a gravar… naquele dia, lembras-te? Naquele dia… à tarde… em que tínhamos a casa cheia de gente e tu… andavas muito ocupada a fazer coisas boas para o lanche, como… bolachas com pimenta. Lembras-te?” Efectivamente lembrava-me dos scones em que, acidentalmente, foi adicionado pimenta em vez de sal. E ele serviu-se do facto de nesse dia a frequência dele ser FM e a minha AM, pelo que a desculpa colou. Como seria de esperar, o filme longe estaria de um lindo romance que acabaria com dois velhinhos debaixo de um alpendre a ver o pôr-do-sol enquanto viravam as páginas de um álbum de fotografias queimado pelo tempo e afagado pelo amor que os uniu durante todos aqueles anos. Também não seria nenhuma comédia cuja hilaridade me permitiria pendurar no bengaleiro as minhas inquietudes, não senhor! Do mesmo modo, não iria ser nenhum drama intenso, com poucos efeitos especiais, mas com uma carga psicológica tão forte que nem me deixaria pousar a cabeça no sofá. O filme era sobre, nada mais, nada menos, do que... o APOCALIPSE!!!
Sim, o apocalipse. No dia em que o nosso “primeiro” fecha com o FMI o PEC 4 ½, a escolha ideal será, indubitavelmente, ter diante da nossa 37’’ (televisão, entenda-se) a antevisão disfemista do nosso fim. Como já referi por várias vezes neste blogue, a crise tem-se vindo a alimentar de mim e a roubar bocadinhos do meu ser, todos os dias. E se isso se reflectisse na balança, menos mal, o pior é que nem isso! É uma espécie de parasita da alma (já para não dizer que o é do bolso de todos os portugueses de classe média), que me consome a esperança em que no dia em que for despedida vou ter subsídio de desemprego, a força para remar contra o aumento da retenção na fonte e a vontade de querer sair do buraco escavado na minha conta bancária pelo aumento do IVA. Assim, só me resta ver a coisa como o barquinho a afundar lentamente, qual Titanic, sem que exista um qualquer grpo de violinistas a embalar docemente o nosso desvanecimento.

Ao cabo de cinco minutos após o início do filme, estava já a ligar o computador. Foi mais ou menos naquela parte em que vi a simbólica senhora de idade de andarilho, com a placa dentária impecavelmente branca a combinar com os seus geométricos caracóis alvos, a trepar paredes, a caminhar no tecto e a morder toda e qualquer forma humana que lhe aparecer à frente, com aquele olhar demoníaco que me fez lembrar os pesadelos que tinha em miúda com o “Homem do Saco”. Credo! E pensei “Humm… Não sei bem porquê, mas acho que não vou gostar deste filme. Vou ver se tenho correio”. Entre diapositivos de correntes de azar e filmes de chineses a jogar à bola com binóculos, lá fui dando umas espreitadelas àquele suplício, na tentativa de lhe dar uma segunda hipótese (e uma terceira, e uma quarta, e uma quinta). Mas tenho que reconhecer que vendedores de gelados com serras no lugar de dentes, feitos homens-elástico para apanharem as pessoas, exércitos de zombies e homens crucificados de cabeça para baixo, com o corpo coberto de bolhas prestes a explodir um ácido ultra corrosivo, não são exactamente aquilo que faria o meu dia um pouco menos enfadonho.

A certa altura pensei que
entre assistir àquele cataclismo fantasmagórico e à abordagem feita pelo
António Costa do Diário Económico às medidas de recuperação impostas pela
Troika, que viesse o diabo e que escolhesse a minha direcção. E veio o Diabo e
escolheu a crise.
Continuo sem perceber qual dos dois me provocou mais pesadelos esta noite.
Para os mais curiosos, fica aqui o link para o trailer do filme. Quanto ao resto, é só ver as notícias, ouvir a rádio, ir ao supermercado, andar de autocarro, encontrar um vizinho no elevador, tomar café no emprego, ...
quinta-feira, 21 de abril de 2011
A força de um "Dragounhe"!
Não sei se é por ser Páscoa e
ser um período de introspecção e paz, se é por gostar muito da minha cara-metade,
mas a verdade é que há já muito tempo que deixei de celebrar os golos do
Fêquêpê contra o Benfica. Com o propósito de conter uma alegria exacerbada,
abri o computador e comecei a escrever.
Faltam 30 minutos para o jogo da meia-final da Taça de Portugal terminar
e o resultado está 0-0. Cumprindo os votos que trocámos no dia em que nos tornámos
Um-Só, achei que não só na alegria como também na tristeza deveria estar ao
lado dele, neste caso concreto, à sua frente, a apoiá-lo. E bem que precisa de um
amparo, já que decidiu assistir ao jogo num restaurante cheio de portistas, que
de 2 em 2 minutos grita “é golo, é golo”, ainda que a bola vá no meio campo do
Porto. Mas o espírito vencedor que se instalou em todos os portistas por estas
alturas não fica por aqui. Mulheres de maquilhagem televisiva roem as suas unhas de gel e não olham a meios para encher a boca toda no momento de ofender a equipa adversária. O mesmo indivíduo que berra “é penalty”, sem que
ninguém tenha marcado falta e com a bola ainda no meio campo, não se cansa de
chamar “assassiiiiiiino” sempre que algum jogador da sua equipa de eleição
sofre uma falta – e garanto que chega a um ponto em que, alguém como eu que
está debruçada num computador minúsculo e vai olhando de soslaio para o grande
ecrã do restaurante, mais parece estar numa batalha campal do que numa pizzaria
onde as famílias costumam ir almoçar ao Domingo. São inacreditáveis as reacções
a que se conseguem assistir quando observamos estas pessoas como se
estivéssemos do outro lado do vidro.
O maridão, coitadito, não se
manifesta. Combate os nervos como pode. Disfarça a desilusão como consegue. E
no meio da selvajaria, que entretanto se instalou neste espaço, acho que já se
deve ter arrependido uma série de vezes de ter resolvido assistir a mais uma
derrota do glorioso no seio de tantos dragões. E os seus olhos, mais do que
tudo o resto, denunciam a sua tristeza.
As blasfémias sucedem-se.
Expressões nunca antes ouvidas ferem os meus ouvidos azuis (imagine-se o mal
que isso deve fazer aos dele). Acho que a frase da noite, para além de todos os
palavrões que se possa imaginar, foi “chupa, cão”, repetida vezes sem conta.
Chupa, cão? Mas o que é isso, Senhor? Todas as faltas dão direito a cartão
vermelho. Todos os remates conduzem à concretização, e valha-nos Deus se o
árbitro pensasse como eles! O mais caricato é que estamos a falar de pessoas de
um nível social, aparentemente, privilegiado que, ainda antes do jogo, falavam
de estratégias financeiras e de benchmarking, e que num instante despiram os
seus fatos de executivos bem sucedidos e assertivos e vestiram a pele de
verdadeiros bichos, quase rasgaram as cordas vocais de tanto gritar e
conseguiram contagiar toda a sala com este espírito grosseiro e rude - sinal
verde para aqueles que, com o seu típico sotaque tripeiro, se estavam a conter
para não libertarem tudo o que era costume dizerem em outros locais menos
selectos e mais… arejados! Foram precisos somente breves segundos para que toda a gente
da sala, excluindo a minha metade boa, uma discreta amiga do grupo animalesco e
eu, desatasse a lançar “piropos” indecorosos ao árbitro, a saltar em cada
momento de tensão do jogo, a trocar cachecóis, a abraçar-se, a partir copos
com os gestos bruscos, a dançar e a celebrar os golos aos pinchos e aos
berros.
Fica para a história da noite a celebração
dos golos do Porto, no modo repeat como é habitual após a conclusão do jogo,
como se fosse a primeira vez que estivessem a ver a jogada, como se o porto não
tivesse ganho e como se disso dependessem as suas vidas. Fica para a memória
também a frase que ouvi agora na mesa do lado, proferida ao empregado de mesa,
chamado pelo cliente: Por favor, desligue a luz porque estamos habituados a
celebrar às escuras.
Fim de jogo. Resultado: 3-1 para
o Fêquêpê. A fera acalmou e voltou o sossego. Regressaram também as conversas
racionais, os vocábulos amadurecidos e os assuntos que nos transportam
imediatamente para a realidade que estávamos a viver ainda antes de ser dado o
apito para o início da partida: “80 mil milhões de euros”, “A catástrofe
instalada no país”, o “FMI” e a “banca nacional”.
Em todo o caso, "vamos lá cambada" tomar as devidas precauções para ver se não ficamos como o belo exemplo que se segue:
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| (clicar para aumentar) |
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Cristo Ressuscitou, Aleluia, Aleluia!
Finalmente chegou a Páscoa. Se eu
mandasse, esta festa nunca iria surgir tão tardiamente no calendário, porque
não faz sentido absolutamente nenhum vir o cabritinho assado e as amêndoas (ai,
as amêndoas!) ao mesmo tempo que uma pessoa anda a fazer malabarismos para
emagrecer uns quilinhos, dada a proximidade ao período da praia, de casórios, de
comunhões, de baptizados e outros que tais, em que se exige um elevado nível de
exposição corporal. É completamente impossível a compatibilização de 1,2Kg de
maçã cozida, três dias por semana, com o folar e os ovos de chocolate. Muito má
ideia a destes senhores, que criaram estes calendários que ninguém é capaz de
compreender e de prever, devido à sua fórmula matemática praticamente
indecifrável aos olhos do comum mortal. Com todo o respeito, mas… Tss, Tss, Tss
(tentativa de simulação de estalidos de desilusão conseguidos por efeitos de
sucção da língua no céu da boca).
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| http://mulhertrinta.blogspot.com/2011/04/feliz-pascoa.html |
A minha Páscoa tem vários
momentos: quatro, para ser mais precisa, todos eles recheados de instantes
“apetitosos”, capazes de despertar o apetite a moribundos e anorécticos.
De há uns anos para cá, sem saber muito bem o motivo, resolvi, juntamente com alguns dos meus amigos, respeitar, com todo o rigor gastronómico que o acontecimento religioso exige, a 6ª Feira Santa. Nada de bifes; nada de carne assada; alheiras, nem vê-as; e carnes de caça, muito menos! Assim, sorrimos orgulhosamente para o empregado enquanto proferimos palavras que anunciam um jejum religioso, uma contenção alimentar e um extremoso respeito pelas tradições da quaresma “é um arrozinho de marisco, por favor, duas sapateiras para a entrada e, já agora, 1,5 kg de amêijoas “à bolhão pato” com aquele pãozinho de alho quentinho que vocês têm”. Muito bem! Aos poucos e poucos vamos assim angariando uma parcela de terreno (in)fértil no Céu.
No Sábado, é dia de Sogros.
Franguinhos das Medas ao almoço, a 130 Km de casa, que nos fazem chorar, berrar
e espernear por mais, porque são simplesmente os melhores mini-frangos assados
que já tive a oportunidade de experimentar em toda a minha vasta vida de
provadora de churrasco. Isso e a canjinha de galinha, que inicia o momento
divino da degustação. Juntos impedem toda e qualquer tentativa de manter
intervalos regulares de três horas entre refeições ligeiras, porque não há
estômago que aguente outra refeição em tão curto espaço de tempo. E, após uma
visita à capital distrital da região (mais 80 km de passeio de automóvel, para
“fazer a digestão”), lá saltamos para a refeição soberana do dia. Antecipando o
almoço do dia de Páscoa para o Jantar de Sábado Aleluia, o banquete consuma as elevadas
expectativas criadas em relação à qualidade do soberbo repasto, desabotoa o botão
das minhas calças e abre o frasco dos sais digestivos. Mais uma dúzia de
amêndoas para adoçar a conversa que rompe a madrugada e, ainda com o caprino às
voltas com os sucos estomacais, rendemo-nos à moleza provocada pela barriga
cheia e vamos dormir.
No dia de beijar a cruz, a
alvorada é apressada e, por vezes, dolorosa. Ainda com a boca a parecer papel
cavalinho, e a imitar a manhã do dia de Natal, de uma só golada bebemos 1 copo
de coca-cola para desobstruir as vias digestivas, abrindo, desta feita, espaço
para o novo carregamento que se aproxima. Vestimos uma roupita, com sorte, a
estrear, e voamos rumo aos meus avós maternos, numa viagem de 200km. Sem deixar
descansar as pupilas gustativas, as glândulas salivares entram novamente em
funcionamento, desta vez na sua máxima potência, porque vem aí o anho assado
(borrego para os menos acostumados com estes termos mais rurais). Tenho que
fazer um esforço gigantesco para me abstrair da ideia de que o petisco que jaz
no meu prato, velado pelas batatas, pelo arroz e pelos grelos, andava há poucos
dias completamente desorientado pela cozinha à procura da minha avó para
receber o biberão de leite, soltando impacientes e ensurdecedores méeeees e pinchos de força
descontrolada. Acaba o borrego, mas não acabam os repastos. A tradição manda ir
a casa das pessoas afagar Cristo Ressuscitado com um beijo nos seus pés, exaltar
“Aleluia, Aleluia” e sorver de uma assentada só, porque se faz tarde e o
compasso não espera, mais uma fatia de pão-de-ló de Ovar e um copito de vinho
fino. Graças ao Senhor que sou abstémia, ou seria uma fortíssima candidata a perder
tantas e tão boas memórias das Páscoas da minha infância. A recordação mais
forte que tenho é a regueifa circular – tradicionalmente era com este pão que
os padrinhos presenteavam os afilhados e que, se a sua idade e perímetro
cefálico permitissem, era enfiada cabeça abaixo. Seguiam-se momentos de
verdadeiro terror para a criança, que durariam até que os adultos se enchessem
de tirar fotografias com a criança a chorar inconsolavelmente sobre o alimento.
Lembro-me também de vestir roupa nova neste dia, colecção Primavera/Verão, e de
exibir, quando a Páscoa calhava numa época dita normal (Março), carregada de
vaidade, os pêlos eriçados pelo frio e a pele molhada pela chuva, porque o
casaco tapava a minha t-shirt nova! Bons tempos!
O quarto momento da minha Páscoa
é quando ainda nos restam forças para mais 100 Km de viagem e vamos a casa do
afilhado da minha metade boa. E para não baixar a média, mais bolos, mais
bebidas, mais pecados gastronómicos que atingem o meu plano alimentar como
balas deixando-o fragilizado e mortificado.
Resultado final: 600 e tal kilómetros de viagens automobilísticas, muitos beijos em crucifixos metálicos cheios de "micrómios" (como diz o meu afilhado), algum mal-estar digestivo e uma dieta de 5 semanas que irá recomeçar do zero (ou de um valor ainda mais negativo). O que vale são as barrigadas de riso, os banquetes de conversa e todas as recordações que se criaram e que se acrescentam às dos anos anteriores, que são apenas o que interessa conservar num lugar bem guardado no nosso coração e na nossa memória.
NOTA: O cartoon aqui apresentado é da autoria da ilustradora Cibele Santos, pelo que deixo aqui a recomendação para visualizarem o blog dela, porque está, simplesmente, DEMAIS!!! Não só apenas as mulheres, como também muitos homens, compreenderão cada letra e traço que ela publica.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
A… A… A… Atchim! Atchiiiiiiiiiiim!!!
Alegrem-se os Céus e a Terra
porque chegou a Primavera! E é bom aproveitar bem isso porque a partir de 2015
ela terá um pouco menos de importância para os portugueses, já que a Resolução
da Assembleia da República n.º 35/2008 prevê que, a partir dessa data, ai de
quem se atrever a escrever o nome das estações do ano com letra maiúscula,
porque esse gesto será subentendido como sacrilégio para quem legislou esta
matéria! Mas isso são outros arrozes…

Viva
a Primavera e os carregamentos maciços de pólenes, poeiras e sementes que
navegam pelo ar, ao sabor das nortadas matinais que anunciam tardes quentes e
soalheiras. A… A… A… (silêncio) Aaaaatchim! Calma... Vêm sempre em par e um é
mais lento! Atchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim! Pois bem! Já não tinha esta macedónia
de sensações está para fazer um ano: os olhos permanentemente lacrimejantes,
que impedem toda e qualquer tentativa de maquilhagem; arranhões e manchas
provocados pelo intenso prurido na pele do rosto o que, sem o apoio da
maquilhagem, me obriga a usar as unhas mais curtas do que um benfiquista em dia
de jogo no Dragão (e que, ainda assim, me deixa a cara mais ou menos como
ficaram as cadeiras da minha sala depois da chegada dos gémeos); a insistente
impressão de que tenho uma formiga a percorrer vezes sem conta as minhas
cavidades nasais; a desesperante comichão na garganta precisamente onde não
consigo coçar sem que provoque o vómito; já para não falar do desejo ininterrupto
de fazer uma imitação daquele anúncio em que a rapariga, no meio do primeiro
encontro, simula a queda de um objecto ao chão para poder por termo àquela
coceira na moleirinha que não a deixa apreciar convenientemente os atributos do jovem que
está à sua frente.
Entretanto, os dias quentes
tornam-se mais amiúdes e começamos a habituar-nos à ideia de que temos mesmo
que guardar as camisolas de lã, as botas de cano alto e a roupa de cama hibernal
(esta última parte é a que me está a custar mais e estou a ver
Junho a entrar pela minha casa dentro e a ser recebido pelos lençóis polares em
que estou tão viciada). Confesso que é de pôr os nervos em franja acordar de
manhã, abrir o roupeiro e não apetecer vestir nada, mas não há melhor sensação
do que ir ao baú e tirar de lá a bela da t-shirt rosa choque que tão bem ficará
com as sandálias da mesma enérgica cor. Só há um pequeno problema: afinal o ano de 2011 não começou em Janeiro, nem em Fevereiro e, por isso, não se
concretizou a sensação de dever cumprido das resoluções de Ano Novo. 2011 só começou
em meados de Março, quando finalmente percebi que não é por respirar fundo e encolher a
barriga que ela vai parecer menos proeminente e que se calhar até não seria
mesmo má ideia passar um bocado de fome e transpirar uns litros de toxinas a
ver se parte dessa camada adiposa, vulgo, odiosa, vai de férias… permanentes! 4 semanas
volvidas, 45 litros de água com sabor a terra, 15 kilos de maça cozida, 400
toneladas de apetites por satisfazer e 4
kilitos a menos e estou exactamente na mesma. A primavera deve-me estar a fazer
mal e só devo ter emagrecido nos neurónios… Era bom que se começasse a ver alguma
coisinha, senão, com o calor, sem nada que me sirva e juntando a crise que para aqui vai, a tendência desta estação, para mim, vai ser qualquer coisa
deste género:
Já disse que adoro a Primavera?
As últimas semanas têm sido
cinzentas, sobretudo os últimos dias. Não é fácil adormecer, acordar e sonhar
com a crise política, com a nuvem radioactiva e com a entrada do FMI, e é ainda
menos suportável ir trabalhar a ouvir, de meia em meia hora, palavras como
“eminência de despedimentos colectivos em todos os sectores”, “decréscimo da
facturação” e “ausência de concretização de negócios”, entre uma enorme panóplia
de vocábulos que, dedilhados ao som de um sentimento geral de desânimo, nos
põem numa posição bem favorável a caminho do desemprego, do desespero, da desmotivação e de todos os outros "des"... Mas nada como um
lindo dia de sol e portugueses a ganhar jogos nas competições europeias para sofrermos de uma amnésia temporária e pormos esses problemas
para trás das costas. Aliás, problemas? Quais problemas?
Há umas semanas atrás chegou a Primavera "bela e
amarela", ainda que de forma tímida e reservada. Consigo trouxe dois ou três
dias de Verão que fizeram as pessoas tirar da naftalina os tops, os calções, as
sandálias e os vernizes de cores quentes e fortes! Pareceu-me que algumas também
conseguiram tirar do roupeiro alguma falta de bom senso. Mas, alto lá! Com isto
não quero dizer que tenho alguma coisa contra as pessoas que, logo no primeiro
dia quente do ano, vão à noite para o shopping de chinelito de dedo e calções
de banho – gesto de libertação e resultado de 10 horas com os pés assados pelas
botas de camurça e corpo ensopado pelas camisola de lã e sobretudos a fazer lembrar
exércitos russos! E quem, como eu, tem a vantagem de ir a casa a meio do dia,
tem também a hipótese de vestir algo mais leve e estival. E, claro, à medida
que o final da jornada se aproxima, também regressam uns pés frios, uns arrepios
desconfortáveis e uma vontade secreta de ter uma mantinha a cobrir as pernas
porque “está um frio que não se aguenta só com esta camisolinha de algodão que
nem os pulsos tapa” e “o que sabia mesmo bem agora era uns pauzitos a arder na
minha lareira”. Mas é tão grande a vontade de fazer do Inverno história e tão
vergonhosa a ideia de reconhecer que talvez ainda seja um pouco cedo para
deixar as meias em casa que nem pensar em admitir isso em voz alta, perante
quem quer que seja! Resta-nos cruzar os braços e tentar, pelo menos, que ninguém
perceba pelas respostas naturais do nosso organismo, que estamos à beira de uma
hipotermia...
Viva
a Primavera e os carregamentos maciços de pólenes, poeiras e sementes que
navegam pelo ar, ao sabor das nortadas matinais que anunciam tardes quentes e
soalheiras. A… A… A… (silêncio) Aaaaatchim! Calma... Vêm sempre em par e um é
mais lento! Atchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim! Pois bem! Já não tinha esta macedónia
de sensações está para fazer um ano: os olhos permanentemente lacrimejantes,
que impedem toda e qualquer tentativa de maquilhagem; arranhões e manchas
provocados pelo intenso prurido na pele do rosto o que, sem o apoio da
maquilhagem, me obriga a usar as unhas mais curtas do que um benfiquista em dia
de jogo no Dragão (e que, ainda assim, me deixa a cara mais ou menos como
ficaram as cadeiras da minha sala depois da chegada dos gémeos); a insistente
impressão de que tenho uma formiga a percorrer vezes sem conta as minhas
cavidades nasais; a desesperante comichão na garganta precisamente onde não
consigo coçar sem que provoque o vómito; já para não falar do desejo ininterrupto
de fazer uma imitação daquele anúncio em que a rapariga, no meio do primeiro
encontro, simula a queda de um objecto ao chão para poder por termo àquela
coceira na moleirinha que não a deixa apreciar convenientemente os atributos do jovem que
está à sua frente.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Lucky Thirteen
Já agora, sabem que dia é hoje? :-)
quinta-feira, 31 de março de 2011
A ausência é mais adversa do que a passagem do tempo
Há um dia em que acordamos de
manhã e, mesmo sem entrarmos no chuveiro, levamos com um balde de água fria que
nos abre os olhos e nos faz revisar todas as nossas prioridades. Este balde
pode bem ser uma metáfora para uma enorme variedade de coisas, sendo que, num
destes dias, em vez de me chover uns grãozinhos doces e alegres de arroz do meu
Céu, abateu-se sobre o meu coração uma tonelada inteira que me feriu, me
enfraqueceu e me fez reflectir sobre uma série de coisas.
A sensação de perda é um
sentimento sempre inóspito e avassalador, independentemente do bem, da pessoa
ou do valor espiritual do qual nos afastamos e da quantidade de vezes que
passamos por essa provação. É simplesmente mau. Sendo uma distraída sem
exemplo, desde tenra idade que perco de tudo um pouco: guarda-chuvas, casacos,
chapéus, canetas, cachecóis, documentos, brincos, óculos de sol e tudo o que,
pela sua portabilidade, seja facilmente esquecido num veículo de transporte
público, numa casa de banho de um centro comercial ou num banco de uma sala de
espera. Por este motivo, nunca fui uma “agarrada” aos bens materiais e fui
aprendendo a lidar muitíssimo bem com o seu desaparecimento. Em contrapartida,
a perda humana, seja ao nível que for, sempre foi encarada por mim como o duro
disfemismo que relaciona essa ausência com praticamente tudo o que gira à minha
volta. E no lugar da pessoa ou do sentimento perdido, consigo imediatamente
projectar outras pessoas, outras situações e outros valores.
Por tudo isto, tenho andado
ausente destas jornadas e a faltar ao meu compromisso particular de tornar a
escrita numa agradável rotina. E, apesar das palavras de motivação e apoio que
fui recebendo, a verdade é que esta foi uma semana de reflexão intensa.
E o que me traz cá hoje é o
“brilho” interno que todos nós temos e que é, simultaneamente, inato e
inconstante. Comparo este brilho à passagem da corrente eléctrica naquelas
aldeias esquecidas pela urbe, onde os fios ainda dançam ao sabor do vento e da
chuva. E a verdade é que, à imagem daquelas lâmpadas amareladas e queimadas
pela passagem do tempo, também nós perdemos parte dessa luminosidade quando o
clima se ameaça feroz.
Quando falo em "perda de
luz" não estou a fazer qualquer associação às gentis marcas da passagem
dos anos, das experiências e dos conhecimentos - não estou a falar das rugas,
nem dos cabelos brancos e muito menos das manchas imprimidas na pele. Refiro-me
sim, literalmente, ao brilho que o nosso rosto irradia! Evidentemente que existem
pessoas que reservam para si próprias as emoções, mais facilmente do que
outras, mas há sempre qualquer coisa que trespassa, que se percebe e que se
sente, sobretudo aos olhos de quem tão bem nos conhece. Aí, eu sou
completamente transparente! Não há sensação que não se consiga conhecer através da chama dos
meus olhos, da tenacidade da minha voz e da expressão das minhas
posturas. Mas momentos há em que esse esplendor perde força e esmorece. Há realidades que vêm ao nosso encontro que embaciam os nossos
olhos, enfraquecem a nossa voz e amolecem o nosso corpo. Com esses factos
sentimo-nos esmagados e apagados, mas com essas vivências (não projectadas, não
prevenidas e, seguramente, não desejadas) crescemos sempre um pouco. Crescemos
e morremos! Dois passos para a frente e um para trás. Faz parte...
Mas isso pertence a uma rotina
viciada e natural que temos de aceitar e com a qual temos de nos conformar, sob
o risco de perdermos mais tempo a negar a confrontação e a realidade do que,
propriamente, a sorver os doces momentos que a vida nos serve.
E, para além dos
acontecimentos, também as pessoas que nos rodeiam controlam a actividade da
nossa boa disposição! É dessas pessoas, que sabiamente manuseiam o botão do
volume do nosso brilho interno, que gosto de me fazer rodear sempre que passo
por um momento mais escuro e mais frio, e são elas que funcionam como o meu antídoto
pessoal, o meu termostato de estimação, e me aquecem e abrilhantam a alma!
Essas são as pessoas que me
acompanham nos bons e nos maus momentos, as que me apoiam quando estou quase a
escorregar e as que me dão a mão quando caio. Essas são as pessoas que me ligam
quando não têm absolutamente nada para me dizer, que me convidam para comer,
mesmo quando só têm pão seco e vinho azedo e que me elogiam mesmo quando não há
motivo para tal gesto. Essas são as pessoas que não se congratulam pelos meus
infortúnios, nem que ficam tristes quando ultrapasso um obstáculo. Essas são
aquelas que não têm medo de pedir desculpa, nem vergonha de dizer obrigado. Essas
pessoas são os meus amigos e são as que merecem receber no dobro aquilo que me
dão, ainda que não esperem essa recompensa.
Porque a amizade é uma
conquista permanente que deve ser cultivada, ainda que por vezes o seja feito
à distância, a todos os meus amigos, obrigada por existirem e por permitirem
que brilhe um pouco mais sempre que estou convosco!
"A ausência é mais adversa
do que a passagem do tempo" - Fernando Pessoa
quinta-feira, 17 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
Village People no festival da Eurovisão
Quando pensava que o Carnaval tinha finalmente acabado, percebi que afinal estava redondamente enganada. Fui nestes dias
surpreendida por uma notícia que me deixou simplesmente atónita! Não é que a
nova geração dos Village People, vulgo, Homens da Luta, vão representar
Portugal nesse que é o grande ícone da reunião familiar e, simultaneamente, da música
popular, isto é, no Festival Eurovisão da Canção?
Sim, esse programa que até aos
anos 90 fazia parar o país e que só de ouvirmos o hino da Eurovisão,
os pêlos dos braços se eriçavam. A excitação era tanta que no momento em que a
Espanha nos dava, por uma questão de fraternidade geo-política, os tão merecidos
(ou não) 12 pontos (o que acontecia sempre), saíamos projectados do sofá, num
ímpeto de surpresa, felicidade e histerismo. E mais, mesmo sabendo que Portugal
dificilmente ficaria entre os 10 primeiros classificados, ficávamos colados ao
televisor (nessa altura assim designado) até ao último telefonema a anunciar a
votação desse país. Bons tempos! Até jantávamos mais cedo e tudo! A primeira memória
que tenho é da Dora, em 1986, com o “Não sejas mau p’ra mim, Uoóóóóó, Uoóóóóó”.
Mas foram tantas as boas recordações… Os Da Vinci fizeram-me obrigar o meu pai
a comprar a cassete e a pô-la a tocar indefinidamente no rádio do carro. Vieram
as Dinas, as Saras Tavares, as Anabelas, as Nuchas (não necessariamente nesta
ordem), sendo que a apoteose ficou a cargo da Dulce Pontes que me fez sentir
por breves momentos o doce, ainda que muito subtil, sabor da vitória, tendo alcançando
apenas um 8º lugar o que, segundo os letrados na matéria, foi uma excelente
classificação! Pfffff… Mentalidade mesmo portuguesinha!
Engane-se quem pensar que a organização do programa não
podia ter feito alguma coisa para evitar todo o mal-estar gerado por este
resultado. Na esperança de tentar encontrar um vazio no regulamento onde este
grupo se tivesse encaixado confortavelmente, descobri que, afinal, se eles ali
estavam foi precisamente porque alguém reconheceu neles um valor meritório capaz
de justificar plenamente a sua presença na final europeia. Segundo o seu art.º
16º “Depois de recebidas todas as
candidaturas, a RTP nomeará um júri composto por três elementos de reconhecido
mérito na área da música que irá avaliar as propostas e escolher entre 20 e 24 canções
que serão colocadas no site www.rtp.pt para
votação online do dia 20 ao dia 27 de Janeiro (até às 24 horas).”.
Pois bem, caríssimos, o júri de “reconhecido mérito” muito provavelmente seria fã
do “quiriquiriquiriquiriqui” e acharia tanta piada aos rapazes que considerou
que o melhor será mesmo fazer também do nosso país uma grande anedota.
Até consigo conceber que a nossa
representação em Düsseldorf celebre a vitória em Portugal com uma garrafa de
cerveja na mão, ignorando as exuberantes apresentadoras de televisão, com os
seus vestidinhos e penteados de gala, agindo como se se tratasse de mais um “Vai
Tudo Abaixo” e trocando “piropos” com as pessoas que os vaiaram no momento do
anúncio da sua vitória. Mas aquilo que me custa mesmo a digerir, é que estes
elementos não tenham noção absolutamente nenhuma de ritmo, musicalidade e
afinação. É certo que este festival nos tem acostumado a padrões
progressivamente insatisfatórios e, volta e meia, lá vão aparecendo umas “personagens”
bestiais, mas não é preciso bater com tanta força com a cabeça no fundo de um poço
cheio de vermes, água contaminada com coliformes fecais e um cheiro nauseabundo
de podridão (ok, agora entusiasmei-me e deixei-me levar, mas quando aparece a
luzinha branca….)! O que supostamente teria começado como mais uma brincadeira
camuflada de grito subversivo, que jamais seria levada a sério por quem quer
que fosse, atingiu na verdade as proporções permitidas única e exclusivamente
pelas altas patentes da organização do concurso, que atribuiu aos portugueses
50% da responsabilidade no acto da decisão do vencedor. Então, meus amigos? Não
seria logo de esperar que uma situação como esta fosse acontecer? Onde está a
surpresa? A minha foi apenas ao saber que tinham conseguido concorrer, porque o mais
espectável seria, no seguimento da actual conjuntura,
aparvalhar toda esta situação e eleger os ilustres camaradas para representar
esta “geração à rasca, pá”.
E com isto conseguimos reforçar ainda mais a imagem já consolidada que os outros povos têm dos portugueses: 40 anos atrasados no seu tempo, parolos e que "falam, falam, falam, mas ninguém os vê a fazer nada". Não se indignem, por isso, todos os quantos apenas vêm portugueses nos filmes "estrangeiros" representando personagens de mulheres gordas com bigode, operários da construção civil, analfabetos, contrabandistas, corrruptos e anarquistas - retrato ultra-impressionista legado por esta pandilha (onde aparecem apenas seis exemplares porque o regulamento é muito rígido a esses respeito).
Deixo aqui o registo do anúncio do vencedor, da respectiva reacção quer dos "Homens da Luta", quer da plateia, e da música que tornará o "Festival da Canção 2011", como provavelmente o mais memorável!
E como diz um grande amigo meu, há tanto tempo que andamos a tentar ser expulsos do festival, que pode ser que consigamos, finalmente, ver agora todos os nossos esforços recompensados!
terça-feira, 8 de março de 2011
Matumbina dispois di um dia di sol na praia dos Carcavelo
Hoje estou aqui para eternizar um momento que já não acontecia há quase 10 anos.
Não tenho por hábito (querer) vestir
uma personagem que não a minha, mas tenho que confessar que, secretamente,
todos os anos penso em como seria engraçado e simultaneamente rejuvenescedor, por breves horas que fossem,
despir a minha rotina e fingir ser uma pessoa completamente diferente. Não teria
de vestir a pele de uma rainha, de uma guerreira, nem tão pouco de uma religiosa. Também não
procuraria a fama, nem o reconhecimento, nem mesmo a riqueza. Nada disso.
Gostaria apenas de ser, por um dia, diferente! Por isso mesmo decidi
fantasiar-me este Carnaval.
A escolha da indumentária foi um processo difícil. Sem qualquer ideia
e à bom português, deixei para o último momento a aquisição da personagem. Gostava muito de me mascarar de recibo verde, mas nunca tive muito jeito para os trabalhos manuais, por isso decidimos
optar por um disfarce igual para todos. Porém, encontrar o macacão revelou-se numa
tarefa impossível para mim, pelo que a fantasia de mineiro chileno ficou de
lado. Decidi então ir a uma daquelas megalojas asiáticas que vendem de tudo a preços
baixíssimos (ostentando um nome português para disfarçar a origem e evitar o preconceito). E quando digo “de tudo”, quero mesmo dizer “de tudo”: entre flores
artificiais, candeeiros, champôs, brinquedos, velas perfumadas, batatas fritas
e casacos de pele, encontrei uma secção completamente dedicada à causa
carnavalesca. Só teria de optar entre comprar a fatiota completa ou levar os adereços
combinados por mim. Como seria de esperar, pelo adiantar da hora e pelos preços
praticados, só havia tamanhos XXS disponíveis. Além disso, uma polícia de mini-saia,
uma odalisca coberta com lenços transparentes ou uma freira a exibir uma liga de renda encarnada não
se compadeciam com os meus objectivos de “gaija digna”, nem com as temperaturas
que se esperavam. Então passei à combinação de várias peças.
Pode-se dizer que
estava lá instalada a autêntica “Casa dos Horrores”. Máscaras com cabelo verdadeiramente
assombrosas não faltavam, assim como membros decepados, facas com simulação de
sangue ainda a escorrer, insectos de plástico, dentaduras de vampiro e feridas
falsas. Mas o que mais me impressionou nesta exibição de artigos, que mais
pareciam ser para a noite das Bruxas, foi a homenagem ao defunto Michael
Jackson. Mesmo ao lado do Frankenstein estavam duas filas de máscaras daquele que foi o “Rei da Pop”. Um pouco mais à frente e junto a uns
pés podres estavam perucas iguais aos vários penteados que a estrela usou ao
longo da sua carreira. Mas esta fixação mórbida não ficou por aqui. Óculos de sol,
luvas, chapéus e fatos completos em vários modelos, tamanhos e cores (é
preciso dizer que o mais caro que vi pertencia à vedeta finada). Não sei se este
fenómeno é recorrente de anos anteriores, mas fiquei absolutamente maravilhada
com o fascínio que este senhor desperta nas pessoas numa altura destas! Terá alguma coisa que ver com o videoclip "Thriller"?Mas voltando aos disfarces, como estas máscaras são insuportavelmente quentes e como mal se respira ali dentro, tive de pôr toda a devoção (?!) por este senhor de lado e lá levei só uma carapinha preta (que agora que penso nisso podia bem ser daquele cantor, mas na altura dos Jackson 5) e mais 2 ou 3 acessórios que não deixassem este dia "em branco", por menos de 8€. Que fartote!
Mas gostei muito desta noite, sim
senhora! Entre os disfarces que passaram por mim e que mais me chamaram a
atenção, destaco aqui as personagens da “Alice no País das Maravilhas”, com
maquilhagens dignas dos filmes do Tim Burton. Assim é que eu gostava de passar o
Carnaval e tenho a certeza que não ia haver vergonha nenhuma que se apossasse
de mim nessa noite. Também gostei muito de um Shrek que vi logo no início da
noite, com uma produção fantástica, de um exército de romanos que mais parecia
terem ido roubar o guarda-roupa a um museu e, claro, do meu quarteto fantástico matumbinó-tiburciano e dos meus amigos mineiros
chilenos (que passaram um mau bocado quando uma transeunte chilena se cruzou nos
seus caminhos e reconheceu a bandeira que traziam às costas, qual capa de um
super-heroi, sobre o macacão, o arnês, o filtro e o capacete, sem esquecer a
lanterna). Para trás ficaram os conjuntos de cartas e de dominós, as chinesas e
as indianas, as loiras burras e os burros loiros, os travestis assumidos e os “machos” que aguardaram ansiosamente por este dia para trazerem à tona a mulher que têm dentro
de si. E o auge da festarola surgiu quando a rua foi invadida por uma corrente de
tambores, megafones, tubas e trombones e por uma enchente de gente infectada
por uma alegria contagiante a dançar, a cantar, a pular e a arrastar consigo
mais povo, e mais alegria e mais Carnaval.
É pena a idade não dar para mais e para ter visto mais coisas e para contar aqui tudo isso porque, como a minha
metade boa disse, havia muito tempo que não me via assim tão entusiasmada!
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