segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cristo Ressuscitou, Aleluia, Aleluia!

Finalmente chegou a Páscoa. Se eu mandasse, esta festa nunca iria surgir tão tardiamente no calendário, porque não faz sentido absolutamente nenhum vir o cabritinho assado e as amêndoas (ai, as amêndoas!) ao mesmo tempo que uma pessoa anda a fazer malabarismos para emagrecer uns quilinhos, dada a proximidade ao período da praia, de casórios, de comunhões, de baptizados e outros que tais, em que se exige um elevado nível de exposição corporal. É completamente impossível a compatibilização de 1,2Kg de maçã cozida, três dias por semana, com o folar e os ovos de chocolate. Muito má ideia a destes senhores, que criaram estes calendários que ninguém é capaz de compreender e de prever, devido à sua fórmula matemática praticamente indecifrável aos olhos do comum mortal. Com todo o respeito, mas… Tss, Tss, Tss (tentativa de simulação de estalidos de desilusão conseguidos por efeitos de sucção da língua no céu da boca).
http://mulhertrinta.blogspot.com/2011/04/feliz-pascoa.html

A minha Páscoa tem vários momentos: quatro, para ser mais precisa, todos eles recheados de instantes “apetitosos”, capazes de despertar o apetite a moribundos e anorécticos.

De há uns anos para cá, sem saber muito bem o motivo, resolvi, juntamente com alguns dos meus amigos, respeitar, com todo o rigor gastronómico que o acontecimento religioso exige, a 6ª Feira Santa. Nada de bifes; nada de carne assada; alheiras, nem vê-as; e carnes de caça, muito menos! Assim, sorrimos orgulhosamente para o empregado enquanto proferimos palavras que anunciam um jejum religioso, uma contenção alimentar e um extremoso respeito pelas tradições da quaresma “é um arrozinho de marisco, por favor, duas sapateiras para a entrada e, já agora, 1,5 kg de amêijoas “à bolhão pato” com aquele pãozinho de alho quentinho que vocês têm”. Muito bem! Aos poucos e poucos vamos assim angariando uma parcela de terreno (in)fértil no Céu.

No Sábado, é dia de Sogros. Franguinhos das Medas ao almoço, a 130 Km de casa, que nos fazem chorar, berrar e espernear por mais, porque são simplesmente os melhores mini-frangos assados que já tive a oportunidade de experimentar em toda a minha vasta vida de provadora de churrasco. Isso e a canjinha de galinha, que inicia o momento divino da degustação. Juntos impedem toda e qualquer tentativa de manter intervalos regulares de três horas entre refeições ligeiras, porque não há estômago que aguente outra refeição em tão curto espaço de tempo. E, após uma visita à capital distrital da região (mais 80 km de passeio de automóvel, para “fazer a digestão”), lá saltamos para a refeição soberana do dia. Antecipando o almoço do dia de Páscoa para o Jantar de Sábado Aleluia, o banquete consuma as elevadas expectativas criadas em relação à qualidade do soberbo repasto, desabotoa o botão das minhas calças e abre o frasco dos sais digestivos. Mais uma dúzia de amêndoas para adoçar a conversa que rompe a madrugada e, ainda com o caprino às voltas com os sucos estomacais, rendemo-nos à moleza provocada pela barriga cheia e vamos dormir.

No dia de beijar a cruz, a alvorada é apressada e, por vezes, dolorosa. Ainda com a boca a parecer papel cavalinho, e a imitar a manhã do dia de Natal, de uma só golada bebemos 1 copo de coca-cola para desobstruir as vias digestivas, abrindo, desta feita, espaço para o novo carregamento que se aproxima. Vestimos uma roupita, com sorte, a estrear, e voamos rumo aos meus avós maternos, numa viagem de 200km. Sem deixar descansar as pupilas gustativas, as glândulas salivares entram novamente em funcionamento, desta vez na sua máxima potência, porque vem aí o anho assado (borrego para os menos acostumados com estes termos mais rurais). Tenho que fazer um esforço gigantesco para me abstrair da ideia de que o petisco que jaz no meu prato, velado pelas batatas, pelo arroz e pelos grelos, andava há poucos dias completamente desorientado pela cozinha à procura da minha avó para receber o biberão de leite, soltando impacientes e ensurdecedores méeeees e pinchos de força descontrolada. Acaba o borrego, mas não acabam os repastos. A tradição manda ir a casa das pessoas afagar Cristo Ressuscitado com um beijo nos seus pés, exaltar “Aleluia, Aleluia” e sorver de uma assentada só, porque se faz tarde e o compasso não espera, mais uma fatia de pão-de-ló de Ovar e um copito de vinho fino. Graças ao Senhor que sou abstémia, ou seria uma fortíssima candidata a perder tantas e tão boas memórias das Páscoas da minha infância. A recordação mais forte que tenho é a regueifa circular – tradicionalmente era com este pão que os padrinhos presenteavam os afilhados e que, se a sua idade e perímetro cefálico permitissem, era enfiada cabeça abaixo. Seguiam-se momentos de verdadeiro terror para a criança, que durariam até que os adultos se enchessem de tirar fotografias com a criança a chorar inconsolavelmente sobre o alimento. Lembro-me também de vestir roupa nova neste dia, colecção Primavera/Verão, e de exibir, quando a Páscoa calhava numa época dita normal (Março), carregada de vaidade, os pêlos eriçados pelo frio e a pele molhada pela chuva, porque o casaco tapava a minha t-shirt nova! Bons tempos!

O quarto momento da minha Páscoa é quando ainda nos restam forças para mais 100 Km de viagem e vamos a casa do afilhado da minha metade boa. E para não baixar a média, mais bolos, mais bebidas, mais pecados gastronómicos que atingem o meu plano alimentar como balas deixando-o fragilizado e mortificado.

Resultado final: 600 e tal kilómetros de viagens automobilísticas, muitos beijos em crucifixos metálicos cheios de "micrómios" (como diz o meu afilhado), algum mal-estar digestivo e uma dieta de 5 semanas que irá recomeçar do zero (ou de um valor ainda mais negativo). O que vale são as barrigadas de riso, os banquetes de conversa e todas as recordações que se criaram e que se acrescentam às dos anos anteriores, que são apenas o que interessa conservar num lugar bem guardado no nosso coração e na nossa memória.

NOTA: O cartoon aqui apresentado é da autoria da ilustradora Cibele Santos, pelo que deixo aqui a recomendação para visualizarem o blog dela, porque está, simplesmente, DEMAIS!!! Não só apenas as mulheres, como também muitos homens, compreenderão cada letra e traço que ela publica.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A… A… A… Atchim! Atchiiiiiiiiiiim!!!

Alegrem-se os Céus e a Terra porque chegou a Primavera! E é bom aproveitar bem isso porque a partir de 2015 ela terá um pouco menos de importância para os portugueses, já que a Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008 prevê que, a partir dessa data, ai de quem se atrever a escrever o nome das estações do ano com letra maiúscula, porque esse gesto será subentendido como sacrilégio para quem legislou esta matéria! Mas isso são outros arrozes…

As últimas semanas têm sido cinzentas, sobretudo os últimos dias. Não é fácil adormecer, acordar e sonhar com a crise política, com a nuvem radioactiva e com a entrada do FMI, e é ainda menos suportável ir trabalhar a ouvir, de meia em meia hora, palavras como “eminência de despedimentos colectivos em todos os sectores”, “decréscimo da facturação” e “ausência de concretização de negócios”, entre uma enorme panóplia de vocábulos que, dedilhados ao som de um sentimento geral de desânimo, nos põem numa posição bem favorável a caminho do desemprego, do desespero, da desmotivação e de todos os outros "des"... Mas nada como um lindo dia de sol e portugueses a ganhar jogos nas competições europeias para sofrermos de uma amnésia temporária e pormos esses problemas para trás das costas. Aliás, problemas? Quais problemas?



Há umas semanas atrás chegou a Primavera "bela e amarela", ainda que de forma tímida e reservada. Consigo trouxe dois ou três dias de Verão que fizeram as pessoas tirar da naftalina os tops, os calções, as sandálias e os vernizes de cores quentes e fortes! Pareceu-me que algumas também conseguiram tirar do roupeiro alguma falta de bom senso. Mas, alto lá! Com isto não quero dizer que tenho alguma coisa contra as pessoas que, logo no primeiro dia quente do ano, vão à noite para o shopping de chinelito de dedo e calções de banho – gesto de libertação e resultado de 10 horas com os pés assados pelas botas de camurça e corpo ensopado pelas camisola de lã e sobretudos a fazer lembrar exércitos russos! E quem, como eu, tem a vantagem de ir a casa a meio do dia, tem também a hipótese de vestir algo mais leve e estival. E, claro, à medida que o final da jornada se aproxima, também regressam uns pés frios, uns arrepios desconfortáveis e uma vontade secreta de ter uma mantinha a cobrir as pernas porque “está um frio que não se aguenta só com esta camisolinha de algodão que nem os pulsos tapa” e “o que sabia mesmo bem agora era uns pauzitos a arder na minha lareira”. Mas é tão grande a vontade de fazer do Inverno história e tão vergonhosa a ideia de reconhecer que talvez ainda seja um pouco cedo para deixar as meias em casa que nem pensar em admitir isso em voz alta, perante quem quer que seja! Resta-nos cruzar os braços e tentar, pelo menos, que ninguém perceba pelas respostas naturais do nosso organismo, que estamos à beira de uma hipotermia...

Viva a Primavera e os carregamentos maciços de pólenes, poeiras e sementes que navegam pelo ar, ao sabor das nortadas matinais que anunciam tardes quentes e soalheiras. A… A… A… (silêncio) Aaaaatchim! Calma... Vêm sempre em par e um é mais lento! Atchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim! Pois bem! Já não tinha esta macedónia de sensações está para fazer um ano: os olhos permanentemente lacrimejantes, que impedem toda e qualquer tentativa de maquilhagem; arranhões e manchas provocados pelo intenso prurido na pele do rosto o que, sem o apoio da maquilhagem, me obriga a usar as unhas mais curtas do que um benfiquista em dia de jogo no Dragão (e que, ainda assim, me deixa a cara mais ou menos como ficaram as cadeiras da minha sala depois da chegada dos gémeos); a insistente impressão de que tenho uma formiga a percorrer vezes sem conta as minhas cavidades nasais; a desesperante comichão na garganta precisamente onde não consigo coçar sem que provoque o vómito; já para não falar do desejo ininterrupto de fazer uma imitação daquele anúncio em que a rapariga, no meio do primeiro encontro, simula a queda de um objecto ao chão para poder por termo àquela coceira na moleirinha que não a deixa apreciar convenientemente os atributos do jovem que está à sua frente.

Entretanto, os dias quentes tornam-se mais amiúdes e começamos a habituar-nos à ideia de que temos mesmo que guardar as camisolas de lã, as botas de cano alto e a roupa de cama hibernal (esta última parte é a que me está a custar mais e estou a ver Junho a entrar pela minha casa dentro e a ser recebido pelos lençóis polares em que estou tão viciada). Confesso que é de pôr os nervos em franja acordar de manhã, abrir o roupeiro e não apetecer vestir nada, mas não há melhor sensação do que ir ao baú e tirar de lá a bela da t-shirt rosa choque que tão bem ficará com as sandálias da mesma enérgica cor. Só há um pequeno problema: afinal o ano de 2011 não começou em Janeiro, nem em Fevereiro e, por isso, não se concretizou a sensação de dever cumprido das resoluções de Ano Novo. 2011 só começou em meados de Março, quando finalmente percebi que não é por respirar fundo e encolher a barriga que ela vai parecer menos proeminente e que se calhar até não seria mesmo má ideia passar um bocado de fome e transpirar uns litros de toxinas a ver se parte dessa camada adiposa, vulgo, odiosa, vai de férias… permanentes! 4 semanas volvidas, 45 litros de água com sabor a terra, 15 kilos de maça cozida, 400 toneladas de apetites por satisfazer  e 4 kilitos a menos e estou exactamente na mesma. A primavera deve-me estar a fazer mal e só devo ter emagrecido nos neurónios… Era bom que se começasse a ver alguma coisinha, senão, com o calor, sem nada que me sirva e juntando a crise que para aqui vai, a tendência desta estação, para mim, vai ser qualquer coisa deste género:


Já disse que adoro a Primavera?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Lucky Thirteen

Adoro gatos pretos e 13 é o meu número da sorte! Estranho? Não... Tenho um Sansão rabugento que adoro (sem desmerecer a Dalila, claro) e casei com um lindo gatinho neste dia. E ontem o meu amigo Neves juntou-se ao grupo de seguidores deste blogue, completando o magnífico número de que tanto gosto! Obrigada a todos pelo apoio!

Já agora, sabem que dia é hoje? :-)

quinta-feira, 31 de março de 2011

A ausência é mais adversa do que a passagem do tempo

Há um dia em que acordamos de manhã e, mesmo sem entrarmos no chuveiro, levamos com um balde de água fria que nos abre os olhos e nos faz revisar todas as nossas prioridades. Este balde pode bem ser uma metáfora para uma enorme variedade de coisas, sendo que, num destes dias, em vez de me chover uns grãozinhos doces e alegres de arroz do meu Céu, abateu-se sobre o meu coração uma tonelada inteira que me feriu, me enfraqueceu e me fez reflectir sobre uma série de coisas.

A sensação de perda é um sentimento sempre inóspito e avassalador, independentemente do bem, da pessoa ou do valor espiritual do qual nos afastamos e da quantidade de vezes que passamos por essa provação. É simplesmente mau. Sendo uma distraída sem exemplo, desde tenra idade que perco de tudo um pouco: guarda-chuvas, casacos, chapéus, canetas, cachecóis, documentos, brincos, óculos de sol e tudo o que, pela sua portabilidade, seja facilmente esquecido num veículo de transporte público, numa casa de banho de um centro comercial ou num banco de uma sala de espera. Por este motivo, nunca fui uma “agarrada” aos bens materiais e fui aprendendo a lidar muitíssimo bem com o seu desaparecimento. Em contrapartida, a perda humana, seja ao nível que for, sempre foi encarada por mim como o duro disfemismo que relaciona essa ausência com praticamente tudo o que gira à minha volta. E no lugar da pessoa ou do sentimento perdido, consigo imediatamente projectar outras pessoas, outras situações e outros valores.

Por tudo isto, tenho andado ausente destas jornadas e a faltar ao meu compromisso particular de tornar a escrita numa agradável rotina. E, apesar das palavras de motivação e apoio que fui recebendo, a verdade é que esta foi uma semana de reflexão intensa.

E o que me traz cá hoje é o “brilho” interno que todos nós temos e que é, simultaneamente, inato e inconstante. Comparo este brilho à passagem da corrente eléctrica naquelas aldeias esquecidas pela urbe, onde os fios ainda dançam ao sabor do vento e da chuva. E a verdade é que, à imagem daquelas lâmpadas amareladas e queimadas pela passagem do tempo, também nós perdemos parte dessa luminosidade quando o clima se ameaça feroz.

Quando falo em "perda de luz" não estou a fazer qualquer associação às gentis marcas da passagem dos anos, das experiências e dos conhecimentos - não estou a falar das rugas, nem dos cabelos brancos e muito menos das manchas imprimidas na pele. Refiro-me sim, literalmente, ao brilho que o nosso rosto irradia! Evidentemente que existem pessoas que reservam para si próprias as emoções, mais facilmente do que outras, mas há sempre qualquer coisa que trespassa, que se percebe e que se sente, sobretudo aos olhos de quem tão bem nos conhece. Aí, eu sou completamente transparente! Não há sensação que não se consiga conhecer através da chama dos meus olhos, da tenacidade da minha voz e da expressão das minhas posturas. Mas momentos há em que esse esplendor perde força e esmorece. Há realidades que vêm ao nosso encontro que embaciam os nossos olhos, enfraquecem a nossa voz e amolecem o nosso corpo. Com esses factos sentimo-nos esmagados e apagados, mas com essas vivências (não projectadas, não prevenidas e, seguramente, não desejadas) crescemos sempre um pouco. Crescemos e morremos! Dois passos para a frente e um para trás. Faz parte... 

Mas isso pertence a uma rotina viciada e natural que temos de aceitar e com a qual temos de nos conformar, sob o risco de perdermos mais tempo a negar a confrontação e a realidade do que, propriamente, a sorver os doces momentos que a vida nos serve.  

E, para além dos acontecimentos, também as pessoas que nos rodeiam controlam a actividade da nossa boa disposição! É dessas pessoas, que sabiamente manuseiam o botão do volume do nosso brilho interno, que gosto de me fazer rodear sempre que passo por um momento mais escuro e mais frio, e são elas que funcionam como o meu antídoto pessoal, o meu termostato de estimação, e me aquecem e abrilhantam a alma!


Essas são as pessoas que me acompanham nos bons e nos maus momentos, as que me apoiam quando estou quase a escorregar e as que me dão a mão quando caio. Essas são as pessoas que me ligam quando não têm absolutamente nada para me dizer, que me convidam para comer, mesmo quando só têm pão seco e vinho azedo e que me elogiam mesmo quando não há motivo para tal gesto. Essas são as pessoas que não se congratulam pelos meus infortúnios, nem que ficam tristes quando ultrapasso um obstáculo. Essas são aquelas que não têm medo de pedir desculpa, nem vergonha de dizer obrigado. Essas pessoas são os meus amigos e são as que merecem receber no dobro aquilo que me dão, ainda que não esperem essa recompensa. 

Porque a amizade é uma conquista permanente que deve ser cultivada, ainda que por vezes o seja feito à distância, a todos os meus amigos, obrigada por existirem e por permitirem que brilhe um pouco mais sempre que estou convosco!

"A ausência é mais adversa do que a passagem do tempo" - Fernando Pessoa

quinta-feira, 17 de março de 2011

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domingo, 13 de março de 2011

Village People no festival da Eurovisão

Quando pensava que o Carnaval tinha finalmente acabado, percebi que afinal estava redondamente enganada. Fui nestes dias surpreendida por uma notícia que me deixou simplesmente atónita! Não é que a nova geração dos Village People, vulgo, Homens da Luta, vão representar Portugal nesse que é o grande ícone da reunião familiar e, simultaneamente, da música popular, isto é, no Festival Eurovisão da Canção?

Sim, esse programa que até aos anos 90 fazia parar o país e que só de ouvirmos o hino da Eurovisão, os pêlos dos braços se eriçavam. A excitação era tanta que no momento em que a Espanha nos dava, por uma questão de fraternidade geo-política, os tão merecidos (ou não) 12 pontos (o que acontecia sempre), saíamos projectados do sofá, num ímpeto de surpresa, felicidade e histerismo. E mais, mesmo sabendo que Portugal dificilmente ficaria entre os 10 primeiros classificados, ficávamos colados ao televisor (nessa altura assim designado) até ao último telefonema a anunciar a votação desse país. Bons tempos! Até jantávamos mais cedo e tudo! A primeira memória que tenho é da Dora, em 1986, com o “Não sejas mau p’ra mim, Uoóóóóó, Uoóóóóó”. Mas foram tantas as boas recordações… Os Da Vinci fizeram-me obrigar o meu pai a comprar a cassete e a pô-la a tocar indefinidamente no rádio do carro. Vieram as Dinas, as Saras Tavares, as Anabelas, as Nuchas (não necessariamente nesta ordem), sendo que a apoteose ficou a cargo da Dulce Pontes que me fez sentir por breves momentos o doce, ainda que muito subtil, sabor da vitória, tendo alcançando apenas um 8º lugar o que, segundo os letrados na matéria, foi uma excelente classificação! Pfffff… Mentalidade mesmo portuguesinha!

Mas voltando aos “Homens da Luta”, foi assim, com muita estranheza, que soube que eles participaram neste programa. Para quem conhece a dupla de humoristas Neto/Falâncio, sabe que de uma forma quase heróica se servem da sátira para criticar tudo e todos, nos locais mais inusitados e nos momentos menos oportunos. Utilizando o megafone, guarda-roupa dos anos 80, música à “Zeca-Afonso”, mensagens de intervenção e muito, mesmo muito, descaramento, foram entrando sorrateiramente nas nossas casas, conquistando uma desmesurada popularidade, fundamental para que tenham ganho o referido concurso nacional. É que os tipos têm a sua piada e é importante reconhecer o seu valor… enquanto entertainers e apenas isso! Não é fácil terminar os programas na esquadra mais próxima do local do protesto e mesmo assim sair de lá depois de dar uma série de autógrafos aos polícias de serviço, que afinal de contas também eram seus fãs incondicionais. E tenho de o dizer publicamente: SOU FÃ! Agora, no que concerne ao seu potencial festivaleiro… Só mesmo no “AVANTE!”.

Engane-se quem pensar que a organização do programa não podia ter feito alguma coisa para evitar todo o mal-estar gerado por este resultado. Na esperança de tentar encontrar um vazio no regulamento onde este grupo se tivesse encaixado confortavelmente, descobri que, afinal, se eles ali estavam foi precisamente porque alguém reconheceu neles um valor meritório capaz de justificar plenamente a sua presença na final europeia. Segundo o seu art.º 16º “Depois de recebidas todas as candidaturas, a RTP nomeará um júri composto por três elementos de reconhecido mérito na área da música que irá avaliar as propostas e escolher entre 20 e 24 canções que serão colocadas no site www.rtp.pt para votação online do dia 20 ao dia 27 de Janeiro (até às 24 horas).”. Pois bem, caríssimos, o júri de “reconhecido mérito” muito provavelmente seria fã do “quiriquiriquiriquiriqui” e acharia tanta piada aos rapazes que considerou que o melhor será mesmo fazer também do nosso país uma grande anedota.

Até consigo conceber que a nossa representação em Düsseldorf celebre a vitória em Portugal com uma garrafa de cerveja na mão, ignorando as exuberantes apresentadoras de televisão, com os seus vestidinhos e penteados de gala, agindo como se se tratasse de mais um “Vai Tudo Abaixo” e trocando “piropos” com as pessoas que os vaiaram no momento do anúncio da sua vitória. Mas aquilo que me custa mesmo a digerir, é que estes elementos não tenham noção absolutamente nenhuma de ritmo, musicalidade e afinação. É certo que este festival nos tem acostumado a padrões progressivamente insatisfatórios e, volta e meia, lá vão aparecendo umas “personagens” bestiais, mas não é preciso bater com tanta força com a cabeça no fundo de um poço cheio de vermes, água contaminada com coliformes fecais e um cheiro nauseabundo de podridão (ok, agora entusiasmei-me e deixei-me levar, mas quando aparece a luzinha branca….)! O que supostamente teria começado como mais uma brincadeira camuflada de grito subversivo, que jamais seria levada a sério por quem quer que fosse, atingiu na verdade as proporções permitidas única e exclusivamente pelas altas patentes da organização do concurso, que atribuiu aos portugueses 50% da responsabilidade no acto da decisão do vencedor. Então, meus amigos? Não seria logo de esperar que uma situação como esta fosse acontecer? Onde está a surpresa? A minha foi apenas ao saber que tinham conseguido concorrer, porque o mais espectável seria, no seguimento da actual conjuntura, aparvalhar toda esta situação e eleger os ilustres camaradas para representar esta “geração à rasca, pá”.

E com isto conseguimos reforçar ainda mais a imagem  já consolidada que os outros povos têm dos portugueses: 40 anos atrasados no seu tempo, parolos e que "falam, falam, falam, mas ninguém os vê a fazer nada". Não se indignem, por isso, todos os quantos apenas vêm portugueses nos filmes "estrangeiros" representando personagens de mulheres gordas com bigode, operários da construção civil, analfabetos, contrabandistas, corrruptos e anarquistas - retrato ultra-impressionista legado por esta pandilha (onde aparecem apenas seis exemplares porque o regulamento é muito rígido a esses respeito).

Deixo aqui o registo do anúncio do vencedor, da respectiva reacção quer dos "Homens da Luta", quer da plateia, e da música que tornará o "Festival da Canção 2011", como provavelmente o mais memorável! 




E como diz um grande amigo meu, há tanto tempo que andamos a tentar ser expulsos do festival, que pode ser que consigamos, finalmente, ver agora todos os nossos esforços recompensados!

terça-feira, 8 de março de 2011

Matumbina dispois di um dia di sol na praia dos Carcavelo

Hoje estou aqui para eternizar um momento que já não acontecia há quase 10 anos. 

Não tenho por hábito (querer) vestir uma personagem que não a minha, mas tenho que confessar que, secretamente, todos os anos penso em como seria engraçado e simultaneamente rejuvenescedor, por breves horas que fossem, despir a minha rotina e fingir ser uma pessoa completamente diferente. Não teria de vestir a pele de uma rainha, de uma guerreira, nem tão pouco de uma religiosa. Também não procuraria a fama, nem o reconhecimento, nem mesmo a riqueza. Nada disso. Gostaria apenas de ser, por um dia, diferente! Por isso mesmo decidi fantasiar-me este Carnaval.

A escolha da indumentária foi um processo difícil. Sem qualquer ideia e à bom português, deixei para o último momento a aquisição da personagem. Gostava muito de me mascarar de recibo verde, mas nunca tive muito jeito para os trabalhos manuais, por isso decidimos optar por um disfarce igual para todos. Porém, encontrar o macacão revelou-se numa tarefa impossível para mim, pelo que a fantasia de mineiro chileno ficou de lado. Decidi então ir a uma daquelas megalojas asiáticas que vendem de tudo a preços baixíssimos (ostentando um nome português para disfarçar a origem e evitar o preconceito). E quando digo “de tudo”, quero mesmo dizer “de tudo”: entre flores artificiais, candeeiros, champôs, brinquedos, velas perfumadas, batatas fritas e casacos de pele, encontrei uma secção completamente dedicada à causa carnavalesca. Só teria de optar entre comprar a fatiota completa ou levar os adereços combinados por mim. Como seria de esperar, pelo adiantar da hora e pelos preços praticados, só havia tamanhos XXS disponíveis. Além disso, uma polícia de mini-saia, uma odalisca coberta com lenços transparentes ou uma freira a exibir uma liga de renda encarnada não se compadeciam com os meus objectivos de “gaija digna”, nem com as temperaturas que se esperavam. Então passei à combinação de várias peças.

Pode-se dizer que estava lá instalada a autêntica “Casa dos Horrores”. Máscaras com cabelo verdadeiramente assombrosas não faltavam, assim como membros decepados, facas com simulação de sangue ainda a escorrer, insectos de plástico, dentaduras de vampiro e feridas falsas. Mas o que mais me impressionou nesta exibição de artigos, que mais pareciam ser para a noite das Bruxas, foi a homenagem ao defunto Michael Jackson. Mesmo ao lado do Frankenstein estavam duas filas de máscaras daquele que foi o “Rei da Pop”. Um pouco mais à frente e junto a uns pés podres estavam perucas iguais aos vários penteados que a estrela usou ao longo da sua carreira. Mas esta fixação mórbida não ficou por aqui. Óculos de sol, luvas, chapéus e fatos completos em vários modelos, tamanhos e cores (é preciso dizer que o mais caro que vi pertencia à vedeta finada). Não sei se este fenómeno é recorrente de anos anteriores, mas fiquei absolutamente maravilhada com o fascínio que este senhor desperta nas pessoas numa altura destas! Terá alguma coisa que ver com o videoclip "Thriller"?

Mas voltando aos disfarces, como estas máscaras são insuportavelmente quentes e como mal se respira ali dentro, tive de pôr toda a devoção (?!) por este senhor de lado e lá levei só uma carapinha preta (que agora que penso nisso podia bem ser daquele cantor, mas na altura dos Jackson 5) e mais 2 ou 3 acessórios que não deixassem este dia "em branco", por menos de 8€. Que fartote!

De volta a casa e na busca de uma inspiração divina, fui ver os meus e-mails. E é então que as minhas vistinhas dão de caras com esta aparição, esta dádiva da natureza. Sem mais demora, depois de umas pecitas de roupa adequadas à figura que pretendia imitar e de meio quilo de maquilhagem para afugentar este meu tom de pele mais adequado a uma personagem da Família Adams, lá fomos todos para a festa. Mas é importante realçar que esta produção só esteve em exibição total algumas vezes porque na loja não vendiam “coragem” nem “atrevimento”. De maneira que “No Carnaval ninguém leva a mal” mas a minha máscara não estava assim tão irreconhecível ao ponto de poder ser uma “Matumbina-dispois-di-um-dia-di-sol-na-praia-dos-Carcavelo” durante uma noite inteira e à vista de qualquer um. Só foi pena ter posto tanto creme auto-bronzeador no corpo e de não ter chegado para a cara e para as mãos, porque de resto, a Matumbina até nem estava nada mal! E o pormenor da sobrancelha à Frida Kahlo, hein? Para mim foi o toque de charme final, não acham?

Quer dizer… Não podem achar nada porque não estiveram lá, não é? Esta fotografia? Qual fotografia? :S Ora… Esta fotografia… Obviamente que não é minha… Hummm… Foi uma rapariga que passou por mim e… como achei engraçada, captei em momento Kodak. Então havia lá de ser eu nesta foto… Que disparate! Ia mesmo expor-me desta maneira, não? :S

Mas gostei muito desta noite, sim senhora! Entre os disfarces que passaram por mim e que mais me chamaram a atenção, destaco aqui as personagens da “Alice no País das Maravilhas”, com maquilhagens dignas dos filmes do Tim Burton. Assim é que eu gostava de passar o Carnaval e tenho a certeza que não ia haver vergonha nenhuma que se apossasse de mim nessa noite. Também gostei muito de um Shrek que vi logo no início da noite, com uma produção fantástica, de um exército de romanos que mais parecia terem ido roubar o guarda-roupa a um museu e, claro, do meu quarteto fantástico matumbinó-tiburciano e dos meus amigos mineiros chilenos (que passaram um mau bocado quando uma transeunte chilena se cruzou nos seus caminhos e reconheceu a bandeira que traziam às costas, qual capa de um super-heroi, sobre o macacão, o arnês, o filtro e o capacete, sem esquecer a lanterna). Para trás ficaram os conjuntos de cartas e de dominós, as chinesas e as indianas, as loiras burras e os burros loiros, os travestis assumidos e os “machos” que aguardaram ansiosamente por este dia para trazerem à tona a mulher que têm dentro de si. E o auge da festarola surgiu quando a rua foi invadida por uma corrente de tambores, megafones, tubas e trombones e por uma enchente de gente infectada por uma alegria contagiante a dançar, a cantar, a pular e a arrastar consigo mais povo, e mais alegria e mais Carnaval. 

É pena a idade não dar para mais e para ter visto mais coisas e para contar aqui tudo isso porque, como a minha metade boa disse, havia muito tempo que não me via assim tão entusiasmada! 


domingo, 6 de março de 2011

Dúvida existencial da semana - A sopa

Porque é que sempre que perguntamos "De que é a sopa?" nos respondem "A sopa é de legumes"? E, pior, porque é que, sabendo de antemão a resposta, insistimos em pôr a mesma questão? É que nunca nos vão dizer que é sopa de repolho, de agriões, de nabiças ou de espinafres, por isso é escusado... Não é uma pergunta retórica. É que gostava mesmo de saber. O senhor Andy Warhol, se fosse vivo e vivesse nesta terrinha, também havia de ter muita comichão com esta questão...


quarta-feira, 2 de março de 2011

Crónica de uma lombalgia anunciada - Parte II

Hoje estou aqui a dirigir-me directamente (passe o pleonasmo) aos meus amigos que visitaram este blog nos últimos dias. 

Antes de mais, a quem não tenha compreendido, o episódio da última "pseudo-crónica" relatava um acontecimento passado há muuuuuuito tempo e não o presente. Por outro lado, tenho muita fé que seja um episódio único, limitado, sem qualquer sequela (é preciso reforçar). Finalmente, e o mais importante de tudo, tenho que agradecer a todos os que, por SMS, e-mail, telefone ou pessoalmente, me transmitiram uma palavra de carinho e apoio pelos momentos de tortura. Por isso, caríssimos, tenho a dizer-vos MUITO OBRIGADA! E quanto às dores nas costas, não é nada a que não esteja habituada. Uns diazitos azuis e bem quentinhos e estou como nova!

Além disso, prometi não ceder às hipocondríases, pelo que o último post se transformou na verdadeira overdose de objectivos não cumpridos. Assim sendo, vou rematar a história de uma forma mais ou menos eufemista e amenizada, que garanta que mais ninguém sofra horrores com essa angústica passada.

9:45 - Saí de casa com um objectivo traçado, capaz de me dar todo o ânimo necessário para enfrentar as "minúsculas e insignificantes" adversidades que viriam a atravessar o meu caminho (buracos na estrada, indicações mal dadas para o parque de estacionamento, 15 minutos numa fila para um balcão que não o das urgências, mostrar as pernas com a "piquena penuge" a 5 pessoas diferentes, etc.).

11:30 - Saí do hospital com as 3 intramusculares a circular e, cheia de vontade (?!) voltei ao trabalho.

Passados 8 dias, com o rabo transformado no fundo de um passe-vite e todo sarapintado por pisadelas, fruto da vastíssima experiência do enfermeiro estagiário, voltei a ver o céu azul a brilhar! Mais umas semanitas, com o calor no seu nível de máximo conforto e pensei "Dores de costas? Quais dores de costas?"

Mas vamos lá ver a coisa pelo seu lado positivo. Provavelmente (?!) exagerei um pouco no hiper-realismo das minhas palavras, capazes de transmitir fotograficamente o que senti naquele dia. E isto pode significar que, quando se acabarem as obras em Portugal e arredores, terei o meu futuro assegurado como relatadora desportiva, comentadora do trânsito rodoviário ou crítica de noticias cor-de-rosa choque. Quem sabe?

Uma vez mais, obrigada a todos pela dedicação.