quinta-feira, 17 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
Village People no festival da Eurovisão
Quando pensava que o Carnaval tinha finalmente acabado, percebi que afinal estava redondamente enganada. Fui nestes dias
surpreendida por uma notícia que me deixou simplesmente atónita! Não é que a
nova geração dos Village People, vulgo, Homens da Luta, vão representar
Portugal nesse que é o grande ícone da reunião familiar e, simultaneamente, da música
popular, isto é, no Festival Eurovisão da Canção?
Sim, esse programa que até aos
anos 90 fazia parar o país e que só de ouvirmos o hino da Eurovisão,
os pêlos dos braços se eriçavam. A excitação era tanta que no momento em que a
Espanha nos dava, por uma questão de fraternidade geo-política, os tão merecidos
(ou não) 12 pontos (o que acontecia sempre), saíamos projectados do sofá, num
ímpeto de surpresa, felicidade e histerismo. E mais, mesmo sabendo que Portugal
dificilmente ficaria entre os 10 primeiros classificados, ficávamos colados ao
televisor (nessa altura assim designado) até ao último telefonema a anunciar a
votação desse país. Bons tempos! Até jantávamos mais cedo e tudo! A primeira memória
que tenho é da Dora, em 1986, com o “Não sejas mau p’ra mim, Uoóóóóó, Uoóóóóó”.
Mas foram tantas as boas recordações… Os Da Vinci fizeram-me obrigar o meu pai
a comprar a cassete e a pô-la a tocar indefinidamente no rádio do carro. Vieram
as Dinas, as Saras Tavares, as Anabelas, as Nuchas (não necessariamente nesta
ordem), sendo que a apoteose ficou a cargo da Dulce Pontes que me fez sentir
por breves momentos o doce, ainda que muito subtil, sabor da vitória, tendo alcançando
apenas um 8º lugar o que, segundo os letrados na matéria, foi uma excelente
classificação! Pfffff… Mentalidade mesmo portuguesinha!
Engane-se quem pensar que a organização do programa não
podia ter feito alguma coisa para evitar todo o mal-estar gerado por este
resultado. Na esperança de tentar encontrar um vazio no regulamento onde este
grupo se tivesse encaixado confortavelmente, descobri que, afinal, se eles ali
estavam foi precisamente porque alguém reconheceu neles um valor meritório capaz
de justificar plenamente a sua presença na final europeia. Segundo o seu art.º
16º “Depois de recebidas todas as
candidaturas, a RTP nomeará um júri composto por três elementos de reconhecido
mérito na área da música que irá avaliar as propostas e escolher entre 20 e 24 canções
que serão colocadas no site www.rtp.pt para
votação online do dia 20 ao dia 27 de Janeiro (até às 24 horas).”.
Pois bem, caríssimos, o júri de “reconhecido mérito” muito provavelmente seria fã
do “quiriquiriquiriquiriqui” e acharia tanta piada aos rapazes que considerou
que o melhor será mesmo fazer também do nosso país uma grande anedota.
Até consigo conceber que a nossa
representação em Düsseldorf celebre a vitória em Portugal com uma garrafa de
cerveja na mão, ignorando as exuberantes apresentadoras de televisão, com os
seus vestidinhos e penteados de gala, agindo como se se tratasse de mais um “Vai
Tudo Abaixo” e trocando “piropos” com as pessoas que os vaiaram no momento do
anúncio da sua vitória. Mas aquilo que me custa mesmo a digerir, é que estes
elementos não tenham noção absolutamente nenhuma de ritmo, musicalidade e
afinação. É certo que este festival nos tem acostumado a padrões
progressivamente insatisfatórios e, volta e meia, lá vão aparecendo umas “personagens”
bestiais, mas não é preciso bater com tanta força com a cabeça no fundo de um poço
cheio de vermes, água contaminada com coliformes fecais e um cheiro nauseabundo
de podridão (ok, agora entusiasmei-me e deixei-me levar, mas quando aparece a
luzinha branca….)! O que supostamente teria começado como mais uma brincadeira
camuflada de grito subversivo, que jamais seria levada a sério por quem quer
que fosse, atingiu na verdade as proporções permitidas única e exclusivamente
pelas altas patentes da organização do concurso, que atribuiu aos portugueses
50% da responsabilidade no acto da decisão do vencedor. Então, meus amigos? Não
seria logo de esperar que uma situação como esta fosse acontecer? Onde está a
surpresa? A minha foi apenas ao saber que tinham conseguido concorrer, porque o mais
espectável seria, no seguimento da actual conjuntura,
aparvalhar toda esta situação e eleger os ilustres camaradas para representar
esta “geração à rasca, pá”.
E com isto conseguimos reforçar ainda mais a imagem já consolidada que os outros povos têm dos portugueses: 40 anos atrasados no seu tempo, parolos e que "falam, falam, falam, mas ninguém os vê a fazer nada". Não se indignem, por isso, todos os quantos apenas vêm portugueses nos filmes "estrangeiros" representando personagens de mulheres gordas com bigode, operários da construção civil, analfabetos, contrabandistas, corrruptos e anarquistas - retrato ultra-impressionista legado por esta pandilha (onde aparecem apenas seis exemplares porque o regulamento é muito rígido a esses respeito).
Deixo aqui o registo do anúncio do vencedor, da respectiva reacção quer dos "Homens da Luta", quer da plateia, e da música que tornará o "Festival da Canção 2011", como provavelmente o mais memorável!
E como diz um grande amigo meu, há tanto tempo que andamos a tentar ser expulsos do festival, que pode ser que consigamos, finalmente, ver agora todos os nossos esforços recompensados!
terça-feira, 8 de março de 2011
Matumbina dispois di um dia di sol na praia dos Carcavelo
Hoje estou aqui para eternizar um momento que já não acontecia há quase 10 anos.
Não tenho por hábito (querer) vestir
uma personagem que não a minha, mas tenho que confessar que, secretamente,
todos os anos penso em como seria engraçado e simultaneamente rejuvenescedor, por breves horas que fossem,
despir a minha rotina e fingir ser uma pessoa completamente diferente. Não teria
de vestir a pele de uma rainha, de uma guerreira, nem tão pouco de uma religiosa. Também não
procuraria a fama, nem o reconhecimento, nem mesmo a riqueza. Nada disso.
Gostaria apenas de ser, por um dia, diferente! Por isso mesmo decidi
fantasiar-me este Carnaval.
A escolha da indumentária foi um processo difícil. Sem qualquer ideia
e à bom português, deixei para o último momento a aquisição da personagem. Gostava muito de me mascarar de recibo verde, mas nunca tive muito jeito para os trabalhos manuais, por isso decidimos
optar por um disfarce igual para todos. Porém, encontrar o macacão revelou-se numa
tarefa impossível para mim, pelo que a fantasia de mineiro chileno ficou de
lado. Decidi então ir a uma daquelas megalojas asiáticas que vendem de tudo a preços
baixíssimos (ostentando um nome português para disfarçar a origem e evitar o preconceito). E quando digo “de tudo”, quero mesmo dizer “de tudo”: entre flores
artificiais, candeeiros, champôs, brinquedos, velas perfumadas, batatas fritas
e casacos de pele, encontrei uma secção completamente dedicada à causa
carnavalesca. Só teria de optar entre comprar a fatiota completa ou levar os adereços
combinados por mim. Como seria de esperar, pelo adiantar da hora e pelos preços
praticados, só havia tamanhos XXS disponíveis. Além disso, uma polícia de mini-saia,
uma odalisca coberta com lenços transparentes ou uma freira a exibir uma liga de renda encarnada não
se compadeciam com os meus objectivos de “gaija digna”, nem com as temperaturas
que se esperavam. Então passei à combinação de várias peças.
Pode-se dizer que
estava lá instalada a autêntica “Casa dos Horrores”. Máscaras com cabelo verdadeiramente
assombrosas não faltavam, assim como membros decepados, facas com simulação de
sangue ainda a escorrer, insectos de plástico, dentaduras de vampiro e feridas
falsas. Mas o que mais me impressionou nesta exibição de artigos, que mais
pareciam ser para a noite das Bruxas, foi a homenagem ao defunto Michael
Jackson. Mesmo ao lado do Frankenstein estavam duas filas de máscaras daquele que foi o “Rei da Pop”. Um pouco mais à frente e junto a uns
pés podres estavam perucas iguais aos vários penteados que a estrela usou ao
longo da sua carreira. Mas esta fixação mórbida não ficou por aqui. Óculos de sol,
luvas, chapéus e fatos completos em vários modelos, tamanhos e cores (é
preciso dizer que o mais caro que vi pertencia à vedeta finada). Não sei se este
fenómeno é recorrente de anos anteriores, mas fiquei absolutamente maravilhada
com o fascínio que este senhor desperta nas pessoas numa altura destas! Terá alguma coisa que ver com o videoclip "Thriller"?Mas voltando aos disfarces, como estas máscaras são insuportavelmente quentes e como mal se respira ali dentro, tive de pôr toda a devoção (?!) por este senhor de lado e lá levei só uma carapinha preta (que agora que penso nisso podia bem ser daquele cantor, mas na altura dos Jackson 5) e mais 2 ou 3 acessórios que não deixassem este dia "em branco", por menos de 8€. Que fartote!
Mas gostei muito desta noite, sim
senhora! Entre os disfarces que passaram por mim e que mais me chamaram a
atenção, destaco aqui as personagens da “Alice no País das Maravilhas”, com
maquilhagens dignas dos filmes do Tim Burton. Assim é que eu gostava de passar o
Carnaval e tenho a certeza que não ia haver vergonha nenhuma que se apossasse
de mim nessa noite. Também gostei muito de um Shrek que vi logo no início da
noite, com uma produção fantástica, de um exército de romanos que mais parecia
terem ido roubar o guarda-roupa a um museu e, claro, do meu quarteto fantástico matumbinó-tiburciano e dos meus amigos mineiros
chilenos (que passaram um mau bocado quando uma transeunte chilena se cruzou nos
seus caminhos e reconheceu a bandeira que traziam às costas, qual capa de um
super-heroi, sobre o macacão, o arnês, o filtro e o capacete, sem esquecer a
lanterna). Para trás ficaram os conjuntos de cartas e de dominós, as chinesas e
as indianas, as loiras burras e os burros loiros, os travestis assumidos e os “machos” que aguardaram ansiosamente por este dia para trazerem à tona a mulher que têm dentro
de si. E o auge da festarola surgiu quando a rua foi invadida por uma corrente de
tambores, megafones, tubas e trombones e por uma enchente de gente infectada
por uma alegria contagiante a dançar, a cantar, a pular e a arrastar consigo
mais povo, e mais alegria e mais Carnaval.
É pena a idade não dar para mais e para ter visto mais coisas e para contar aqui tudo isso porque, como a minha
metade boa disse, havia muito tempo que não me via assim tão entusiasmada!
domingo, 6 de março de 2011
Dúvida existencial da semana - A sopa
Porque é que sempre que perguntamos "De que é a sopa?" nos respondem "A sopa é de legumes"? E, pior, porque é que, sabendo de antemão a resposta, insistimos em pôr a mesma questão? É que nunca nos vão dizer que é sopa de repolho, de agriões, de nabiças ou de espinafres, por isso é escusado... Não é uma pergunta retórica. É que gostava mesmo de saber. O senhor Andy Warhol, se fosse vivo e vivesse nesta terrinha, também havia de ter muita comichão com esta questão...
quarta-feira, 2 de março de 2011
Crónica de uma lombalgia anunciada - Parte II
Hoje estou aqui a dirigir-me directamente (passe o pleonasmo) aos meus amigos que visitaram este blog nos últimos dias.
Antes de mais, a quem não tenha compreendido, o episódio da última "pseudo-crónica" relatava um acontecimento passado há muuuuuuito tempo e não o presente. Por outro lado, tenho muita fé que seja um episódio único, limitado, sem qualquer sequela (é preciso reforçar). Finalmente, e o mais importante de tudo, tenho que agradecer a todos os que, por SMS, e-mail, telefone ou pessoalmente, me transmitiram uma palavra de carinho e apoio pelos momentos de tortura. Por isso, caríssimos, tenho a dizer-vos MUITO OBRIGADA! E quanto às dores nas costas, não é nada a que não esteja habituada. Uns diazitos azuis e bem quentinhos e estou como nova!
Além disso, prometi não ceder às hipocondríases, pelo que o último post se transformou na verdadeira overdose de objectivos não cumpridos. Assim sendo, vou rematar a história de uma forma mais ou menos eufemista e amenizada, que garanta que mais ninguém sofra horrores com essa angústica passada.
9:45 - Saí de casa com um objectivo traçado, capaz de me dar todo o ânimo necessário para enfrentar as "minúsculas e insignificantes" adversidades que viriam a atravessar o meu caminho (buracos na estrada, indicações mal dadas para o parque de estacionamento, 15 minutos numa fila para um balcão que não o das urgências, mostrar as pernas com a "piquena penuge" a 5 pessoas diferentes, etc.).
11:30 - Saí do hospital com as 3 intramusculares a circular e, cheia de vontade (?!) voltei ao trabalho.
Passados 8 dias, com o rabo transformado no fundo de um passe-vite e todo sarapintado por pisadelas, fruto da vastíssima experiência do enfermeiro estagiário, voltei a ver o céu azul a brilhar! Mais umas semanitas, com o calor no seu nível de máximo conforto e pensei "Dores de costas? Quais dores de costas?"
Mas vamos lá ver a coisa pelo seu lado positivo. Provavelmente (?!) exagerei um pouco no hiper-realismo das minhas palavras, capazes de transmitir fotograficamente o que senti naquele dia. E isto pode significar que, quando se acabarem as obras em Portugal e arredores, terei o meu futuro assegurado como relatadora desportiva, comentadora do trânsito rodoviário ou crítica de noticias cor-de-rosa choque. Quem sabe?
Uma vez mais, obrigada a todos pela dedicação.
terça-feira, 1 de março de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Crónica de uma lombalgia anunciada-Parte I
E
elas voltaram! Ao fim de tantos meses, de tantas teorias e de tantas formas de
tratamento, as minhas dores nas costas voltaram. Creio que a culpa tenha sido
da senhora da avaliação de
spa que despertou o gigante há muito adormecido, quando me convenceu a
comprar uma massagem enquanto provocava danos catastróficos na minha cervical.
Que maneira tão adequada e convincente de vender um produto! Pois muito bem! As contracturas
voltaram e com elas uma necessidade insaciável aplicar pontos de pressão que me alivie um pouco as dores. Desta feita, voltou a ser muito comum encontrarem-me
com as costas encostadas à aresta de uma parede, de um móvel ou de uma porta, em movimentos de fricção agressivos e repetitivos, tal qual um cão
rafeiro com sarna, a coçar-se num muro de pedra. Que visão!!!
Inevitavelmente,
a recordação da crise de coluna da qual padeci há cerca de um ano abateu-se
sobre mim, e com ela a imagem do fatídico dia em que tive de ir de urgência
para o hospital, sozinha, em lágrimas e com a depilação por fazer! E passo a
partilhar neste espaço este que foi, provavelmente, o momento fisicamente mais
doloroso de que tenho memória.
07:25 – O relógio-despertador toca – situação de
agradável conforto porque ainda é cedo para por o pezinho fora da cama e deixo-me
adormecer.
07:30
– O relógio-despertador toca pela 2ª vez. Procuro o comando da televisão para iniciar o
processo da alvorada no meu cérebro, embora não o encontre (ao comando e, por
consequência, ao cérebro também), e volto a cair no “vale dos lençóis”.
07:35
– O relógio-despertador toca pela 3ª vez. Volto a procurar o comando e, em desespero de
causa, o maridão levanta-se para o procurar porque está a ver que, sozinha, não
chego lá.
07:40
– O despertador do telemóvel do maridão toca e eu faço um enorme esforço para
tentar ver o boletim meteorológico. Volto a adormecer, mais ou menos ali na
cidade de Braga.
07:45
– No meu telemóvel surge o 1º alarme e penso “Não preciso de me levantar já se
ficar aqui a planear o processo da selecção da indumentária”. E adormeço logo na
camisola.
07:50
– Pela 2ª vez o meu telemóvel desperta e nem me digno sequer a mandá-lo calar.
O bichinho, ofendido pelo desprezo e pelo abandono, resigna-se ao seu silêncio
e deixa-me entregue à preguicite aguda.
08:10
– Toca o 2º alarme do telemóvel (o que perfaz 4 alarmes diferentes que tocam de manhã no meu quarto) e eu, ao som de uma sinfonia de galos a cantar
à desgarrada, sou avisada por uma mensagem intermitente no seu visor que diz que adormeci e que vou ter que fazer a minha rotina matinal ao estilo “100
metros livres”. Lá me levanto aos tropeções e consigo bater o meu recorde
pessoal de ficar pronta em 10 minutos, ainda que vá trabalhar de “cara lavada”,
que vá vestida como se fosse à feira comprar coisas para fazer uma sopa e que não
tenha tido tempo para, sequer, por uma maçã na mala.
8:20
– Sento-me no sofá para me calçar quando, no preciso momento em que me preparo para
começar a subir o fecho eclair da bota direita, sinto que um qualquer músculo
lombar engoliu um isco de pesca cujo anzol é bruscamente puxado enquanto a minha visão
fica inexplicavelmente inoperacional. Apetece-me gritar de dor, mas a verdade é
que esta invadiu de forma tão violenta todo o meu corpo, que não consigo chamar por auxílio. Seguem-se horas de absoluto pânico!
8:21
– Ok, não foram bem horas, mas a mim pareceram-me, seguramente, séculos! O
maridão, qual D. Quixote de la Mancha, cavalga na direcção do moinho feito dragão
e eis que se aproxima finalmente o momento em que recebo o apoio necessário para me
conseguir recompor. E não é que ele substitui as doces palavras por que tanto
ansiava por um rude “Há tanto tempo que te andas a queixar das costas… Estava-se
mesmo a ver, não achas? Já devias ter ido a um médico a sério há muito tempo!”.
Na verdade, já tinha ido várias vezes ao médico lá do trabalho, mas ele achava
sempre que não havia nada melhor do que uma boa dose de benzodiapezinas
mascaradas de relaxantes musculares para resolver o meu problema de "origem
nervosa", mas nem isso punha fim ao meu tormento. E as dores deste ataquinho
estão a ser de tal forma insuportáveis que não tenho a força necessária para contra-argumentar e acender a discussão e lá chega a luzinha
branca do desespero.
08:24
- Depois vem o golpe fatal do “Vamos ao hospital”, como se essa pergunta activasse uma fobia aos médicos e dissipasse imediatamente todas as dores e a
vontade de ali estar a “ganir” no meio do chão, toda empenada e desejosa de me
lavar em lágrimas. Mas é nesse momento que me encho de orgulho e que lhe digo que
sim, que vou, mas sozinha! E que antes vou trabalhar. Ai mulher do carago!!
08:35
– Ao cabo de um bom pedaço de dor, suor e lágrimas contidas, consigo finalmente
equilibrar-me nas minhas duas pernas e, adoptando a postura do “Corcunda do
Notre-Dame”, alcanço a minha viatura. E, como uma desgraça nunca vem só, as
chaves caiem ao chão e é absolutamente impossível conseguir apanhá-las sem que
o pescador volte a puxar pelo isco… Sozinha e em sofrimento total, rendo-me
às lágrimas que me caiam aos pares a cada milímetro que me dobro.
08:40
– Com as chaves na mão e mais meia dúzia de guinchos para conseguir meter toda a
minha pessoa dentro do veículo, dirijo-me ao meu local de trabalho, que felizmente fica muito perto de casa.
08:50
– Rezando ao Jesus para que ninguém se meta no meu caminho, me ultrapasse, nem
tente meter-se na minha faixa, sem olhar uma única vez para os espelhos (porque
isso era sinónimo de muita dor), consigo chegar ao meu destino. Mas, ao fim de
umas 10 tentativas malogradas de me sentar na minha cadeira, os
meus colegas percebem que eu não estou em condições para ali estar,
oferecendo-se rapidamente para me acompanhar às urgências.
09:00
– Rendida à auto-comiseração decido que, se calhar, talvez não seja assim tão
má ideia ver o que tenho, mas mantendo o orgulho que tão bem me estava a
assentar neste dia, e que até ao momento não me tinha servido de absolutamente
nada, declinei o apoio. É então que, no meio dos suspiros, dos “ais” e dos “uis” lembrei-me
de uma coisa verdadeiramente crucial neste momento: não tinha a depilação
das pernas feitas! E por muito que me tenha custado recusar a ajuda lá voltei a
casa para cumprir com as minhas obrigações de mulher moderna e sempre cuidada.
09:10
– Chego a casa, mais propriamente ao quarto, sento-me para desapertar novamente
as botas e eis que se assola a verdadeira catástrofe. O derradeiro puxão do anzol e fico completamente paralisada,
deitada na cama e toda curvada e percebo finalmente o quão estúpida foi a minha preocupação
com a pequena penugem que poderia ser avistada no hospital, no momento de ser
observada.
E, sem prejuízo de alguém ter uma infecção muscular provocada por más posturas pelo tempo que passou a ler este post, fico por aqui. Prometo contar o resto deste terrível dia, desejando que as pequenas contracturas (que me estão a impedir, neste momento, de perpetuar aqui o meu testemunho) não sejam a anunciação de uma lombalgia, de uma crise de coluna ou de uma qualquer enfermidade que antecipe o fim dos meus vintes.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
As cores do meu Céu
Cheguei à brilhante conclusão que
há dias de todas as cores. Acabei de ver um comentário de uma amiga minha no
Facebook que dizia “Adoro o Porto, mesmo nesses dias brancos”. Não sei se é
uma expressão característica de alguma região, ou não, mas a verdade é que não
podia estar mais correcta.
Graças à minha enorme aptidão para inventariar no meu cérebro uma série de coisas, como as emoções, as músicas, os filmes e as viagens, entrelaçando-as umas nas outras (ver um arroz anterior), também a meteorologia, que tanta ascendência tem sobre a minha forma de estar, teria de ficar perfeitamente enquadrada no meu pensamento. Além disso, tenho um comportamento obsessivo-repetitivo com tendências monocromáticas na maneira como me visto, daí que a cor tenha uma influência tão significativa para mim e que goste tanto de a ver ao meu redor.
Quis fazer aqui um exercício. Vou
começar por escrever as cores que o meu céu tem, a que se seguirá a explicação mais
ou menos lógica da atribuição dessa cor. Em seguida vou indicar qual o meu
estado de espírito nesses dias e finalmente, o significado
que a psicologia dá a cada uma dessas cores. Vamos ver como fica.
BRANCO
Hoje está, efectivamente um dia
branco. Não chove, não se vê o sol, mas as nuvens estão limpinhas e dá para
perceber que há uma luminosidade agradável no ar, especialmente se o branco sucedeu a
uma série de dias em que parece que o céu vai cair na nossa cabeça – dia preto.
A nível emocional é um dia completamente neutro e costuma ser nestas alturas
que arrumo o armário e as gavetas, ordeno por ordem alfabética os meus CD’s e
limpo as juntas dos azulejos.
"O branco associa-se à
ideia de paz, de calma, de pureza. Também está associado ao frio e à limpeza.
Significa inocência e pureza" – confirmado (isto começa bem).
VERDE
"O Verde significa
vigor, juventude, frescor, esperança e calma" – confirma, confirma, confirma,
confirma, já a última é que é mais difícil…
PRETO
Esta cor descreve na perfeição
estes últimos dias por causa da chuva, do granizo, do vento e do mar todo
eriçado. Não é à toa que os brasileiros chamam “pancadas” aos aguaceiros.
Acordo sempre nestes dias com um desejo secreto de estar com uma amigdalite.
"O preto está associado à ideia de morte, luto ou terror, no
entanto também se liga ao mistério e à fantasia, sendo hoje em dia uma cor com
valor de uma certa sofisticação e luxo. Significa também dignidade" –
mais ou menos confirmado no que diz respeito ao terror, sendo que não vejo luxo
nem dignidade nenhuma em querer ficar em casa o dia todo com o pijama vestido.
CINZENTO
Dias e dias intermináveis de chuvinha
miudinha, “molha-tolos”, acompanhada por temperaturas amenas, que nos põe o
cabelo em carapinha porque achamos que não vale a pena abrir o guarda-chuva.
Nestes dias a roupa não seca antes de começar a cheirar a mofo e os
desumidificadores fazem horas extraordinárias. Estado de espírito potencialmente
irritativo.
"O cinzento pode simbolizar o medo ou a depressão, mas é também
uma cor que transmite estabilidade, sucesso e qualidade" – não tem nada
a ver… mas isto é como nos horóscopos onde, com algum esforço, conseguimos
sempre identificar-nos com alguma coisa que lá venha escrita.
VERMELHO
"O Vermelho é a cor da
paixão e do sentimento. Simboliza o amor, o desejo, mas também simboliza o
orgulho, a violência, a agressividade ou o poder" – idem, idem, aspas,
aspas.
AMARELO
Estes dias costumam aparecer lá
para Maio, que desde pequena conheço como o mês das trovoadas. Nessa altura, se
pudesse escolher um mês para hibernar, seria precisamente esse, tal era a minha
aversão a estes fenómenos. E esta repulsa não se prendia apenas com aos trovões e os relâmpagos,
mas também com esta cor amarelada, como se o próprio céu estivesse
hepático e tivesse a necessidade de vomitar cá para baixo tantos raios e
coriscos, libertando-se daquela aflição. Este é um péssimo dia para me dizerem
que estou gorda, que tenho a camisola descosida, que o IVA vai aumentar ou que tenho
de me despachar para fazer o que quer que seja.
"O Amarelo transmite
calor, luz e descontracção. Simbolicamente está associado à prosperidade. É
também uma cor energética, activa que transmite optimismo. Está associada ao
Verão" – e este exercício de comparação começa a revelar-se uma péssima ideia…
AZUL
O Azul é a cor do céu,
do espírito e do pensamento. Simboliza a lealdade, a fidelidade, a
personalidade e subtileza. Simboliza também o ideal e o sonho. É a mais fria
das cores frias – pois… a parte do céu… mas se fizer um esforço muito
grande… as decisões… o sonho… Não, não vale a pena!
BRILHANTE
Estes dias são raríssimos para
mim porque onde vivo nunca neva. Não consigo sair à rua sem os óculos de sol, o
cachecol, as luvas térmicas, a “termotebe”, as meias calças, o fato da neve,
os protectores de orelhas, o batom de cieiro, os lenços de papel e mais
qualquer coisita que se arranja sempre. Mas gosto mesmo destes dias, ainda que
fique com os olhinhos fritos pela luminosidade. Esta é também uma cor de
férias, neste caso, férias de Inverno. Como normalmente são acompanhadas por
alguma actividade física intensa na neve, seguida de um banho relaxante e uma
soneca revitalizante, significa para mim descontracção e reabastecimento de
energias.
Como é óbvio, não encontrei nenhum significado por não se tratar de
uma cor real.
Perante esta panóplia de estados
de espírito penso que o diagnóstico só possa ser este: transtorno bipolar. Mas
adiante, porque tristezas não pagam dívidas.
Descobri outra coisa curiosa. Segundo
o que pude averiguar, a palavra horóscopo deriva do grego e significa “observação
do tempo”, por isso, qualquer semelhança entre esta minha análise e a futurologia
prevista pela "bola dji cristau" do maridão (lamento, mas esta é só para alguns)
não são puras coincidências. Com este propósito, andei mais um pouco à cata e consegui encontrar
uma relação
entre o dia no nosso nascimento e a cor da nossa personalidade. E, como
sempre, a coerência esteve do meu lado: VERDE. Duvido que esta atribuição seja
de carácter científico, racional, mas isso não interessa quando estou aqui a
estabelecer uma relação directa entre a cor do MEU céu e a minha vontade de ordenar
as minhas meias por cor, tipo e estado de conservação.
Já agora, e para rematar, mais um
grãozinho de arroz que caiu do meu céu: existe uma coisa chamada cromoterapia.
Não, não se trata de uma forma de tratamento de indivíduos socialmente
excluídos, com níveis de aprendizagem elevados e uma enorme capacidade para elaborarem
piadas sobre reacções químicas e sobre o funcionamento intestinal no meio do
primeiro encontro. Trata-se sim de melhorar a nossa qualidade de vida através
da emissão de luzes coloridas, adequadas à maleita a que pretendemos pôr termo.
Ou seja, utiliza luz e cor, os mesmos ingredientes que utilizei para confeccionar
a minha teoria das cores dos dias, ainda que com efeitos diferentes. Talvez um dia ainda receba um Nobel por esta magnífica descoberta...
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O caminho para a inspiração
Será que às vezes parece que me falta inspiração e tempo para escrever? Calúnias! São só as artroses... no cérebro!!! O que vale é que logo vai haver futebol e vou ter um tempinho de qualidade só para mim. O combinado é um post "digno", pelo menos, por semana. Por isso estou aqui a pedir às estrelinhas do meu céu alguma iluminação para conseguir cumprir com este meu propósito. O tema já está na forja. Vamos lá ver se sai alguma coisa (de jeito)...
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
OK - Código - OK
Sou uma daquelas pessoas que ficam fulas da vida quando lhes
querem dar a volta para comprar algo de que não precisam. Sempre que me começam
a vender a banha da cobra, embrulhada no mais fino chiffon de seda, e me
obrigam a decidir, na hora, se quero ou não aderir ao clube dos tansos, começa
a passar-me uma luz branca à frente dos olhos. Depois a vista fica turva,
seguidamente com picos e finalmente apodera-se de mim uma vontade incontrolável
de utilizar a radiação ultravioleta, que entretanto foi gerada pelo nervo óptico, e fulminar o “vigário” que está à minha frente. Por isso, nunca comprei nenhum
colchão que trouxesse, como oferta, um trem de cozinha, um equipamento de
limpeza a vapor, um serviço de jantar “cozinha velha” de 99 peças, um
faqueiro banhado a ouro de 1 quilate e meio, uma máquina de cozer ovos, uma
máquina de passar a ferro sentada, uma máquina de aparar os pelos do nariz, e
outros que tais que, por vezes, nem se sabe muito bem qual a sua utilização e
importância. Por tudo isto, o discurso do “Por
se tratar de uma promoção que termina hoje, tem de decidir agora, senão não
terá direito às ofertas” não cola e saio sempre muito orgulhosa por não ter sucumbido ao delírio de um
consumismo desenfreado, estimulado por técnicas de extorsão já gastas mas, ainda assim, sempre
tão eficazes.
O meu problema é outro. Por exemplo, não consigo ir ao cabeleireiro sem
trazer de lá qualquer coisa! E mesmo que ainda tenha uma caixa daquelas ampolas
que evitam que o couro cabeludo desidrate com o stress do quotidiano, com o frio e com os secadores, lá levo
debaixo do braço um champô-leite hidratante para pelas ultra-sensíveis. E se
vou à loja, é a mesma coisa: vou destinada a comprar apenas o champô e saio de
lá com a máscara e o serum que têm, obrigatoriamente, de ser utilizados em
simultâneo, não vá ficar careca. Já que lá estou, aproveito para trazer um
verniz novo - que na verdade só é 1/8 de tom acima do último que tinha levado -
e mais uma espuma de cabelo, desta vez para acabar com o demodé efeito molhado,
conferindo um aspecto, sem qualquer sombra de dúvida, muito mais natural - tão
natural, que nem parece que levou espuma nenhuma. Mas podia ser pior! A uns dá
para a roupa, para os jogos de computador ou para o futebol. A mim dá-me para os champôs,
para os cremes, para as maquilhagens e tudo o resto que tenha a ver com o
bem-estar da pele, do cabelo e do corpo! Para isto e para as compras do
supermercado! Mas isso é outra conversa… (Não sei porquê, mas de repente fiquei com a sensação de que, com estas palavras, transmiti uma ideia de
futilidade extraordinariamente desenquadrada da actual conjuntura… Não é nada
disso! Passo a explicar. Vou raríssimas vezes às compras. O problema é não
utilizar as coisas que entretanto vou adquirindo…)
Referindo-me finalmente ao grão de arroz que caiu esta 2ª
feira (juntamente com o temporal que assolou o país), passo a concretizar o
motivo pelo qual hoje aqui estou. Depois de estudar as várias ofertas de ginásios,
de ter resistido ao “para não pagar a jóia tem de se inscrever, impreterivelmente, hoje” e de ter
feito uma tabela em EXCEL com as mensalidades, distâncias e vantagens e
desvantagens da coisa, lá decidi inscrever-me num ginásio que fica… “do outro lado da ponte”. Calma! Desta vez
tem a sua lógica: posso frequentar um que existe perto do meu palácio, que pertence
ao mesmo grupo. E lá fui eu ontem, debaixo da chuva, no meio do trânsito, para
a “longínqua cidade em que eu não trabalho nem vivo”, a pensar que ia fazer uma
avaliação física, de forma a tornar o meu treino mais eficiente. Surpresa das
surpresas, afinal queriam fazer-me uma avaliação de SPA. Avaliação de SPA??
Estão a gozar comigo? A um dia 14 de Fevereiro? Com esta chuva e este trânsito?
Aiiiii!!! Lá vem a luzinha branca outra vez...
Enquanto aguardava pela terapeuta,
consegui controlar a fúria e comecei a ensaiar em silêncio o discurso de alguém
que “de modo algum me vão apanhar nesta,
nem que vendam creme de baba de caracol”:
- “Desculpe, mas vou-me embora”;
- “É inadmissível que eu tenha ligado para cá à hora do almoço a perguntar se era uma avaliação física e me tenham confirmado essa informação”;
- “Esta atitude só mostra uma enorme falta de profissionalismo da vossa parte”;
- “Chamarem uma pessoa cá ao engano para lhe venderem depilações, manicures e massagens…”.
Lá chegou a terapeuta e eu, ceguinha, ceguinha, entre olhos
arregalados e tentativas para não me cuspir e espumar toda com a raiva, lá
mostrei o meu desagrado (à excepção da parte das depilações e das unhas, claro, porque até nestas ocasiões é preciso manter o nível!).
Conclusão: comprei uma "Massagem de Pedras Quentes" para a minha metade boa…
Coitadinho! Só fiz isso porque ele merece e um perfuminho parecia-me tão pouco! Até me
fez um jantar romântico com massa filo em forma de corações, com entrada, prato
principal e sobremesa! E acendeu, ao contrário dos seus princípios, velas! E
das vermelhas! Merecia uma prendinha EXTRA, pela EXTRema dedicação e EXTRAordinário
empenho! Ainda por cima a massagem está naquela lista das poucas coisas que
compro, como os champôs e os cremes, uma vez que é em prol do bem-estar do corpo e da alma. Até devia dar para por no IRS, em despesas de saúde. Foi só por isso
que me permiti “ter sucumbido ao delírio de um consumismo
desenfreado” e me deixei levar pelas “técnicas de extorsão já gastas”… Por isso e por uma massagem terapêutica que as minhas costas receberam como "incentivo" à compra!
Conclusão: comprei uma "Massagem de Pedras Quentes" para a minha metade boa…
Coitadinho! Só fiz isso porque ele merece e um perfuminho parecia-me tão pouco! Até me
fez um jantar romântico com massa filo em forma de corações, com entrada, prato
principal e sobremesa! E acendeu, ao contrário dos seus princípios, velas! E
das vermelhas! Merecia uma prendinha EXTRA, pela EXTRema dedicação e EXTRAordinário
empenho! Ainda por cima a massagem está naquela lista das poucas coisas que
compro, como os champôs e os cremes, uma vez que é em prol do bem-estar do corpo e da alma. Até devia dar para por no IRS, em despesas de saúde. Foi só por isso
que me permiti “ter sucumbido ao delírio de um consumismo
desenfreado” e me deixei levar pelas “técnicas de extorsão já gastas”… Por isso e por uma massagem terapêutica que as minhas costas receberam como "incentivo" à compra!
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