Porque é que sempre que perguntamos "De que é a sopa?" nos respondem "A sopa é de legumes"? E, pior, porque é que, sabendo de antemão a resposta, insistimos em pôr a mesma questão? É que nunca nos vão dizer que é sopa de repolho, de agriões, de nabiças ou de espinafres, por isso é escusado... Não é uma pergunta retórica. É que gostava mesmo de saber. O senhor Andy Warhol, se fosse vivo e vivesse nesta terrinha, também havia de ter muita comichão com esta questão...
domingo, 6 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Crónica de uma lombalgia anunciada - Parte II
Hoje estou aqui a dirigir-me directamente (passe o pleonasmo) aos meus amigos que visitaram este blog nos últimos dias.
Antes de mais, a quem não tenha compreendido, o episódio da última "pseudo-crónica" relatava um acontecimento passado há muuuuuuito tempo e não o presente. Por outro lado, tenho muita fé que seja um episódio único, limitado, sem qualquer sequela (é preciso reforçar). Finalmente, e o mais importante de tudo, tenho que agradecer a todos os que, por SMS, e-mail, telefone ou pessoalmente, me transmitiram uma palavra de carinho e apoio pelos momentos de tortura. Por isso, caríssimos, tenho a dizer-vos MUITO OBRIGADA! E quanto às dores nas costas, não é nada a que não esteja habituada. Uns diazitos azuis e bem quentinhos e estou como nova!
Além disso, prometi não ceder às hipocondríases, pelo que o último post se transformou na verdadeira overdose de objectivos não cumpridos. Assim sendo, vou rematar a história de uma forma mais ou menos eufemista e amenizada, que garanta que mais ninguém sofra horrores com essa angústica passada.
9:45 - Saí de casa com um objectivo traçado, capaz de me dar todo o ânimo necessário para enfrentar as "minúsculas e insignificantes" adversidades que viriam a atravessar o meu caminho (buracos na estrada, indicações mal dadas para o parque de estacionamento, 15 minutos numa fila para um balcão que não o das urgências, mostrar as pernas com a "piquena penuge" a 5 pessoas diferentes, etc.).
11:30 - Saí do hospital com as 3 intramusculares a circular e, cheia de vontade (?!) voltei ao trabalho.
Passados 8 dias, com o rabo transformado no fundo de um passe-vite e todo sarapintado por pisadelas, fruto da vastíssima experiência do enfermeiro estagiário, voltei a ver o céu azul a brilhar! Mais umas semanitas, com o calor no seu nível de máximo conforto e pensei "Dores de costas? Quais dores de costas?"
Mas vamos lá ver a coisa pelo seu lado positivo. Provavelmente (?!) exagerei um pouco no hiper-realismo das minhas palavras, capazes de transmitir fotograficamente o que senti naquele dia. E isto pode significar que, quando se acabarem as obras em Portugal e arredores, terei o meu futuro assegurado como relatadora desportiva, comentadora do trânsito rodoviário ou crítica de noticias cor-de-rosa choque. Quem sabe?
Uma vez mais, obrigada a todos pela dedicação.
terça-feira, 1 de março de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Crónica de uma lombalgia anunciada-Parte I
E
elas voltaram! Ao fim de tantos meses, de tantas teorias e de tantas formas de
tratamento, as minhas dores nas costas voltaram. Creio que a culpa tenha sido
da senhora da avaliação de
spa que despertou o gigante há muito adormecido, quando me convenceu a
comprar uma massagem enquanto provocava danos catastróficos na minha cervical.
Que maneira tão adequada e convincente de vender um produto! Pois muito bem! As contracturas
voltaram e com elas uma necessidade insaciável aplicar pontos de pressão que me alivie um pouco as dores. Desta feita, voltou a ser muito comum encontrarem-me
com as costas encostadas à aresta de uma parede, de um móvel ou de uma porta, em movimentos de fricção agressivos e repetitivos, tal qual um cão
rafeiro com sarna, a coçar-se num muro de pedra. Que visão!!!
Inevitavelmente,
a recordação da crise de coluna da qual padeci há cerca de um ano abateu-se
sobre mim, e com ela a imagem do fatídico dia em que tive de ir de urgência
para o hospital, sozinha, em lágrimas e com a depilação por fazer! E passo a
partilhar neste espaço este que foi, provavelmente, o momento fisicamente mais
doloroso de que tenho memória.
07:25 – O relógio-despertador toca – situação de
agradável conforto porque ainda é cedo para por o pezinho fora da cama e deixo-me
adormecer.
07:30
– O relógio-despertador toca pela 2ª vez. Procuro o comando da televisão para iniciar o
processo da alvorada no meu cérebro, embora não o encontre (ao comando e, por
consequência, ao cérebro também), e volto a cair no “vale dos lençóis”.
07:35
– O relógio-despertador toca pela 3ª vez. Volto a procurar o comando e, em desespero de
causa, o maridão levanta-se para o procurar porque está a ver que, sozinha, não
chego lá.
07:40
– O despertador do telemóvel do maridão toca e eu faço um enorme esforço para
tentar ver o boletim meteorológico. Volto a adormecer, mais ou menos ali na
cidade de Braga.
07:45
– No meu telemóvel surge o 1º alarme e penso “Não preciso de me levantar já se
ficar aqui a planear o processo da selecção da indumentária”. E adormeço logo na
camisola.
07:50
– Pela 2ª vez o meu telemóvel desperta e nem me digno sequer a mandá-lo calar.
O bichinho, ofendido pelo desprezo e pelo abandono, resigna-se ao seu silêncio
e deixa-me entregue à preguicite aguda.
08:10
– Toca o 2º alarme do telemóvel (o que perfaz 4 alarmes diferentes que tocam de manhã no meu quarto) e eu, ao som de uma sinfonia de galos a cantar
à desgarrada, sou avisada por uma mensagem intermitente no seu visor que diz que adormeci e que vou ter que fazer a minha rotina matinal ao estilo “100
metros livres”. Lá me levanto aos tropeções e consigo bater o meu recorde
pessoal de ficar pronta em 10 minutos, ainda que vá trabalhar de “cara lavada”,
que vá vestida como se fosse à feira comprar coisas para fazer uma sopa e que não
tenha tido tempo para, sequer, por uma maçã na mala.
8:20
– Sento-me no sofá para me calçar quando, no preciso momento em que me preparo para
começar a subir o fecho eclair da bota direita, sinto que um qualquer músculo
lombar engoliu um isco de pesca cujo anzol é bruscamente puxado enquanto a minha visão
fica inexplicavelmente inoperacional. Apetece-me gritar de dor, mas a verdade é
que esta invadiu de forma tão violenta todo o meu corpo, que não consigo chamar por auxílio. Seguem-se horas de absoluto pânico!
8:21
– Ok, não foram bem horas, mas a mim pareceram-me, seguramente, séculos! O
maridão, qual D. Quixote de la Mancha, cavalga na direcção do moinho feito dragão
e eis que se aproxima finalmente o momento em que recebo o apoio necessário para me
conseguir recompor. E não é que ele substitui as doces palavras por que tanto
ansiava por um rude “Há tanto tempo que te andas a queixar das costas… Estava-se
mesmo a ver, não achas? Já devias ter ido a um médico a sério há muito tempo!”.
Na verdade, já tinha ido várias vezes ao médico lá do trabalho, mas ele achava
sempre que não havia nada melhor do que uma boa dose de benzodiapezinas
mascaradas de relaxantes musculares para resolver o meu problema de "origem
nervosa", mas nem isso punha fim ao meu tormento. E as dores deste ataquinho
estão a ser de tal forma insuportáveis que não tenho a força necessária para contra-argumentar e acender a discussão e lá chega a luzinha
branca do desespero.
08:24
- Depois vem o golpe fatal do “Vamos ao hospital”, como se essa pergunta activasse uma fobia aos médicos e dissipasse imediatamente todas as dores e a
vontade de ali estar a “ganir” no meio do chão, toda empenada e desejosa de me
lavar em lágrimas. Mas é nesse momento que me encho de orgulho e que lhe digo que
sim, que vou, mas sozinha! E que antes vou trabalhar. Ai mulher do carago!!
08:35
– Ao cabo de um bom pedaço de dor, suor e lágrimas contidas, consigo finalmente
equilibrar-me nas minhas duas pernas e, adoptando a postura do “Corcunda do
Notre-Dame”, alcanço a minha viatura. E, como uma desgraça nunca vem só, as
chaves caiem ao chão e é absolutamente impossível conseguir apanhá-las sem que
o pescador volte a puxar pelo isco… Sozinha e em sofrimento total, rendo-me
às lágrimas que me caiam aos pares a cada milímetro que me dobro.
08:40
– Com as chaves na mão e mais meia dúzia de guinchos para conseguir meter toda a
minha pessoa dentro do veículo, dirijo-me ao meu local de trabalho, que felizmente fica muito perto de casa.
08:50
– Rezando ao Jesus para que ninguém se meta no meu caminho, me ultrapasse, nem
tente meter-se na minha faixa, sem olhar uma única vez para os espelhos (porque
isso era sinónimo de muita dor), consigo chegar ao meu destino. Mas, ao fim de
umas 10 tentativas malogradas de me sentar na minha cadeira, os
meus colegas percebem que eu não estou em condições para ali estar,
oferecendo-se rapidamente para me acompanhar às urgências.
09:00
– Rendida à auto-comiseração decido que, se calhar, talvez não seja assim tão
má ideia ver o que tenho, mas mantendo o orgulho que tão bem me estava a
assentar neste dia, e que até ao momento não me tinha servido de absolutamente
nada, declinei o apoio. É então que, no meio dos suspiros, dos “ais” e dos “uis” lembrei-me
de uma coisa verdadeiramente crucial neste momento: não tinha a depilação
das pernas feitas! E por muito que me tenha custado recusar a ajuda lá voltei a
casa para cumprir com as minhas obrigações de mulher moderna e sempre cuidada.
09:10
– Chego a casa, mais propriamente ao quarto, sento-me para desapertar novamente
as botas e eis que se assola a verdadeira catástrofe. O derradeiro puxão do anzol e fico completamente paralisada,
deitada na cama e toda curvada e percebo finalmente o quão estúpida foi a minha preocupação
com a pequena penugem que poderia ser avistada no hospital, no momento de ser
observada.
E, sem prejuízo de alguém ter uma infecção muscular provocada por más posturas pelo tempo que passou a ler este post, fico por aqui. Prometo contar o resto deste terrível dia, desejando que as pequenas contracturas (que me estão a impedir, neste momento, de perpetuar aqui o meu testemunho) não sejam a anunciação de uma lombalgia, de uma crise de coluna ou de uma qualquer enfermidade que antecipe o fim dos meus vintes.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
As cores do meu Céu
Cheguei à brilhante conclusão que
há dias de todas as cores. Acabei de ver um comentário de uma amiga minha no
Facebook que dizia “Adoro o Porto, mesmo nesses dias brancos”. Não sei se é
uma expressão característica de alguma região, ou não, mas a verdade é que não
podia estar mais correcta.
Graças à minha enorme aptidão para inventariar no meu cérebro uma série de coisas, como as emoções, as músicas, os filmes e as viagens, entrelaçando-as umas nas outras (ver um arroz anterior), também a meteorologia, que tanta ascendência tem sobre a minha forma de estar, teria de ficar perfeitamente enquadrada no meu pensamento. Além disso, tenho um comportamento obsessivo-repetitivo com tendências monocromáticas na maneira como me visto, daí que a cor tenha uma influência tão significativa para mim e que goste tanto de a ver ao meu redor.
Quis fazer aqui um exercício. Vou
começar por escrever as cores que o meu céu tem, a que se seguirá a explicação mais
ou menos lógica da atribuição dessa cor. Em seguida vou indicar qual o meu
estado de espírito nesses dias e finalmente, o significado
que a psicologia dá a cada uma dessas cores. Vamos ver como fica.
BRANCO
Hoje está, efectivamente um dia
branco. Não chove, não se vê o sol, mas as nuvens estão limpinhas e dá para
perceber que há uma luminosidade agradável no ar, especialmente se o branco sucedeu a
uma série de dias em que parece que o céu vai cair na nossa cabeça – dia preto.
A nível emocional é um dia completamente neutro e costuma ser nestas alturas
que arrumo o armário e as gavetas, ordeno por ordem alfabética os meus CD’s e
limpo as juntas dos azulejos.
"O branco associa-se à
ideia de paz, de calma, de pureza. Também está associado ao frio e à limpeza.
Significa inocência e pureza" – confirmado (isto começa bem).
VERDE
"O Verde significa
vigor, juventude, frescor, esperança e calma" – confirma, confirma, confirma,
confirma, já a última é que é mais difícil…
PRETO
Esta cor descreve na perfeição
estes últimos dias por causa da chuva, do granizo, do vento e do mar todo
eriçado. Não é à toa que os brasileiros chamam “pancadas” aos aguaceiros.
Acordo sempre nestes dias com um desejo secreto de estar com uma amigdalite.
"O preto está associado à ideia de morte, luto ou terror, no
entanto também se liga ao mistério e à fantasia, sendo hoje em dia uma cor com
valor de uma certa sofisticação e luxo. Significa também dignidade" –
mais ou menos confirmado no que diz respeito ao terror, sendo que não vejo luxo
nem dignidade nenhuma em querer ficar em casa o dia todo com o pijama vestido.
CINZENTO
Dias e dias intermináveis de chuvinha
miudinha, “molha-tolos”, acompanhada por temperaturas amenas, que nos põe o
cabelo em carapinha porque achamos que não vale a pena abrir o guarda-chuva.
Nestes dias a roupa não seca antes de começar a cheirar a mofo e os
desumidificadores fazem horas extraordinárias. Estado de espírito potencialmente
irritativo.
"O cinzento pode simbolizar o medo ou a depressão, mas é também
uma cor que transmite estabilidade, sucesso e qualidade" – não tem nada
a ver… mas isto é como nos horóscopos onde, com algum esforço, conseguimos
sempre identificar-nos com alguma coisa que lá venha escrita.
VERMELHO
"O Vermelho é a cor da
paixão e do sentimento. Simboliza o amor, o desejo, mas também simboliza o
orgulho, a violência, a agressividade ou o poder" – idem, idem, aspas,
aspas.
AMARELO
Estes dias costumam aparecer lá
para Maio, que desde pequena conheço como o mês das trovoadas. Nessa altura, se
pudesse escolher um mês para hibernar, seria precisamente esse, tal era a minha
aversão a estes fenómenos. E esta repulsa não se prendia apenas com aos trovões e os relâmpagos,
mas também com esta cor amarelada, como se o próprio céu estivesse
hepático e tivesse a necessidade de vomitar cá para baixo tantos raios e
coriscos, libertando-se daquela aflição. Este é um péssimo dia para me dizerem
que estou gorda, que tenho a camisola descosida, que o IVA vai aumentar ou que tenho
de me despachar para fazer o que quer que seja.
"O Amarelo transmite
calor, luz e descontracção. Simbolicamente está associado à prosperidade. É
também uma cor energética, activa que transmite optimismo. Está associada ao
Verão" – e este exercício de comparação começa a revelar-se uma péssima ideia…
AZUL
O Azul é a cor do céu,
do espírito e do pensamento. Simboliza a lealdade, a fidelidade, a
personalidade e subtileza. Simboliza também o ideal e o sonho. É a mais fria
das cores frias – pois… a parte do céu… mas se fizer um esforço muito
grande… as decisões… o sonho… Não, não vale a pena!
BRILHANTE
Estes dias são raríssimos para
mim porque onde vivo nunca neva. Não consigo sair à rua sem os óculos de sol, o
cachecol, as luvas térmicas, a “termotebe”, as meias calças, o fato da neve,
os protectores de orelhas, o batom de cieiro, os lenços de papel e mais
qualquer coisita que se arranja sempre. Mas gosto mesmo destes dias, ainda que
fique com os olhinhos fritos pela luminosidade. Esta é também uma cor de
férias, neste caso, férias de Inverno. Como normalmente são acompanhadas por
alguma actividade física intensa na neve, seguida de um banho relaxante e uma
soneca revitalizante, significa para mim descontracção e reabastecimento de
energias.
Como é óbvio, não encontrei nenhum significado por não se tratar de
uma cor real.
Perante esta panóplia de estados
de espírito penso que o diagnóstico só possa ser este: transtorno bipolar. Mas
adiante, porque tristezas não pagam dívidas.
Descobri outra coisa curiosa. Segundo
o que pude averiguar, a palavra horóscopo deriva do grego e significa “observação
do tempo”, por isso, qualquer semelhança entre esta minha análise e a futurologia
prevista pela "bola dji cristau" do maridão (lamento, mas esta é só para alguns)
não são puras coincidências. Com este propósito, andei mais um pouco à cata e consegui encontrar
uma relação
entre o dia no nosso nascimento e a cor da nossa personalidade. E, como
sempre, a coerência esteve do meu lado: VERDE. Duvido que esta atribuição seja
de carácter científico, racional, mas isso não interessa quando estou aqui a
estabelecer uma relação directa entre a cor do MEU céu e a minha vontade de ordenar
as minhas meias por cor, tipo e estado de conservação.
Já agora, e para rematar, mais um
grãozinho de arroz que caiu do meu céu: existe uma coisa chamada cromoterapia.
Não, não se trata de uma forma de tratamento de indivíduos socialmente
excluídos, com níveis de aprendizagem elevados e uma enorme capacidade para elaborarem
piadas sobre reacções químicas e sobre o funcionamento intestinal no meio do
primeiro encontro. Trata-se sim de melhorar a nossa qualidade de vida através
da emissão de luzes coloridas, adequadas à maleita a que pretendemos pôr termo.
Ou seja, utiliza luz e cor, os mesmos ingredientes que utilizei para confeccionar
a minha teoria das cores dos dias, ainda que com efeitos diferentes. Talvez um dia ainda receba um Nobel por esta magnífica descoberta...
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O caminho para a inspiração
Será que às vezes parece que me falta inspiração e tempo para escrever? Calúnias! São só as artroses... no cérebro!!! O que vale é que logo vai haver futebol e vou ter um tempinho de qualidade só para mim. O combinado é um post "digno", pelo menos, por semana. Por isso estou aqui a pedir às estrelinhas do meu céu alguma iluminação para conseguir cumprir com este meu propósito. O tema já está na forja. Vamos lá ver se sai alguma coisa (de jeito)...
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
OK - Código - OK
Sou uma daquelas pessoas que ficam fulas da vida quando lhes
querem dar a volta para comprar algo de que não precisam. Sempre que me começam
a vender a banha da cobra, embrulhada no mais fino chiffon de seda, e me
obrigam a decidir, na hora, se quero ou não aderir ao clube dos tansos, começa
a passar-me uma luz branca à frente dos olhos. Depois a vista fica turva,
seguidamente com picos e finalmente apodera-se de mim uma vontade incontrolável
de utilizar a radiação ultravioleta, que entretanto foi gerada pelo nervo óptico, e fulminar o “vigário” que está à minha frente. Por isso, nunca comprei nenhum
colchão que trouxesse, como oferta, um trem de cozinha, um equipamento de
limpeza a vapor, um serviço de jantar “cozinha velha” de 99 peças, um
faqueiro banhado a ouro de 1 quilate e meio, uma máquina de cozer ovos, uma
máquina de passar a ferro sentada, uma máquina de aparar os pelos do nariz, e
outros que tais que, por vezes, nem se sabe muito bem qual a sua utilização e
importância. Por tudo isto, o discurso do “Por
se tratar de uma promoção que termina hoje, tem de decidir agora, senão não
terá direito às ofertas” não cola e saio sempre muito orgulhosa por não ter sucumbido ao delírio de um
consumismo desenfreado, estimulado por técnicas de extorsão já gastas mas, ainda assim, sempre
tão eficazes.
O meu problema é outro. Por exemplo, não consigo ir ao cabeleireiro sem
trazer de lá qualquer coisa! E mesmo que ainda tenha uma caixa daquelas ampolas
que evitam que o couro cabeludo desidrate com o stress do quotidiano, com o frio e com os secadores, lá levo
debaixo do braço um champô-leite hidratante para pelas ultra-sensíveis. E se
vou à loja, é a mesma coisa: vou destinada a comprar apenas o champô e saio de
lá com a máscara e o serum que têm, obrigatoriamente, de ser utilizados em
simultâneo, não vá ficar careca. Já que lá estou, aproveito para trazer um
verniz novo - que na verdade só é 1/8 de tom acima do último que tinha levado -
e mais uma espuma de cabelo, desta vez para acabar com o demodé efeito molhado,
conferindo um aspecto, sem qualquer sombra de dúvida, muito mais natural - tão
natural, que nem parece que levou espuma nenhuma. Mas podia ser pior! A uns dá
para a roupa, para os jogos de computador ou para o futebol. A mim dá-me para os champôs,
para os cremes, para as maquilhagens e tudo o resto que tenha a ver com o
bem-estar da pele, do cabelo e do corpo! Para isto e para as compras do
supermercado! Mas isso é outra conversa… (Não sei porquê, mas de repente fiquei com a sensação de que, com estas palavras, transmiti uma ideia de
futilidade extraordinariamente desenquadrada da actual conjuntura… Não é nada
disso! Passo a explicar. Vou raríssimas vezes às compras. O problema é não
utilizar as coisas que entretanto vou adquirindo…)
Referindo-me finalmente ao grão de arroz que caiu esta 2ª
feira (juntamente com o temporal que assolou o país), passo a concretizar o
motivo pelo qual hoje aqui estou. Depois de estudar as várias ofertas de ginásios,
de ter resistido ao “para não pagar a jóia tem de se inscrever, impreterivelmente, hoje” e de ter
feito uma tabela em EXCEL com as mensalidades, distâncias e vantagens e
desvantagens da coisa, lá decidi inscrever-me num ginásio que fica… “do outro lado da ponte”. Calma! Desta vez
tem a sua lógica: posso frequentar um que existe perto do meu palácio, que pertence
ao mesmo grupo. E lá fui eu ontem, debaixo da chuva, no meio do trânsito, para
a “longínqua cidade em que eu não trabalho nem vivo”, a pensar que ia fazer uma
avaliação física, de forma a tornar o meu treino mais eficiente. Surpresa das
surpresas, afinal queriam fazer-me uma avaliação de SPA. Avaliação de SPA??
Estão a gozar comigo? A um dia 14 de Fevereiro? Com esta chuva e este trânsito?
Aiiiii!!! Lá vem a luzinha branca outra vez...
Enquanto aguardava pela terapeuta,
consegui controlar a fúria e comecei a ensaiar em silêncio o discurso de alguém
que “de modo algum me vão apanhar nesta,
nem que vendam creme de baba de caracol”:
- “Desculpe, mas vou-me embora”;
- “É inadmissível que eu tenha ligado para cá à hora do almoço a perguntar se era uma avaliação física e me tenham confirmado essa informação”;
- “Esta atitude só mostra uma enorme falta de profissionalismo da vossa parte”;
- “Chamarem uma pessoa cá ao engano para lhe venderem depilações, manicures e massagens…”.
Lá chegou a terapeuta e eu, ceguinha, ceguinha, entre olhos
arregalados e tentativas para não me cuspir e espumar toda com a raiva, lá
mostrei o meu desagrado (à excepção da parte das depilações e das unhas, claro, porque até nestas ocasiões é preciso manter o nível!).
Conclusão: comprei uma "Massagem de Pedras Quentes" para a minha metade boa…
Coitadinho! Só fiz isso porque ele merece e um perfuminho parecia-me tão pouco! Até me
fez um jantar romântico com massa filo em forma de corações, com entrada, prato
principal e sobremesa! E acendeu, ao contrário dos seus princípios, velas! E
das vermelhas! Merecia uma prendinha EXTRA, pela EXTRema dedicação e EXTRAordinário
empenho! Ainda por cima a massagem está naquela lista das poucas coisas que
compro, como os champôs e os cremes, uma vez que é em prol do bem-estar do corpo e da alma. Até devia dar para por no IRS, em despesas de saúde. Foi só por isso
que me permiti “ter sucumbido ao delírio de um consumismo
desenfreado” e me deixei levar pelas “técnicas de extorsão já gastas”… Por isso e por uma massagem terapêutica que as minhas costas receberam como "incentivo" à compra!
Conclusão: comprei uma "Massagem de Pedras Quentes" para a minha metade boa…
Coitadinho! Só fiz isso porque ele merece e um perfuminho parecia-me tão pouco! Até me
fez um jantar romântico com massa filo em forma de corações, com entrada, prato
principal e sobremesa! E acendeu, ao contrário dos seus princípios, velas! E
das vermelhas! Merecia uma prendinha EXTRA, pela EXTRema dedicação e EXTRAordinário
empenho! Ainda por cima a massagem está naquela lista das poucas coisas que
compro, como os champôs e os cremes, uma vez que é em prol do bem-estar do corpo e da alma. Até devia dar para por no IRS, em despesas de saúde. Foi só por isso
que me permiti “ter sucumbido ao delírio de um consumismo
desenfreado” e me deixei levar pelas “técnicas de extorsão já gastas”… Por isso e por uma massagem terapêutica que as minhas costas receberam como "incentivo" à compra!sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
9 Regras e 1/2 para manter a sanidade mental numa fila de supermercado
Ao longo da minha curta
experiência de dona de casa tenho-me apercebido do quão complicado pode ser ir
ao supermercado, sobretudo no que diz respeito às filas para pagar. Resolvi, por isso, criar um manual de boas regras e partilhá-lo aqui para que ninguém tome as
mesmas más decisões que tomei, nem tenha que passar pelas mesmas
extenuantes situações por que passo constantemente. “10 regras” é um clichê,
pelo que decidi criar as “9 regras e 1/2 para manter a sanidade mental numa fila de
supermercado” – a acrescentar que também não conseguia encontrar a décima…
1. Evita filas com crianças.
As crianças são a coisa “mai linda” do mundo, mas quando
resolvem embirrar com alguma coisa, cuidado! Este primeiro conselho que dou
pode muito bem mudar para sempre a tua decisão de quereres, ou não, descendência. Procura
filas com uma faixa etária mais adequada à tua. Senão, imagina este cenário:
sábado à tarde, início do mês, 9º lugar na fila da caixa. Imediatamente à tua
frente, está uma família também à espera de pagar a conta do supermercado. Até que seja a
tua vez, terás que ouvir aqueles diabinhos cobertos com pele de anjo dizer 89
vezes que querem as pastilhas elásticas, os cromos e a garrafa de refrigerante
que estão no expositor ao lado da caixa registadora. E é preciso ter alguma
paciência com estas criancinhas (todas lambuzadas pelos chocolates que foram
rapinando) que, durante seguramente 3 horas, estiveram expostas a uma enorme
quantidade de atractivos, tendo-lhes apenas sido dado 8 ou 9 ítens. E, acima de
tudo, é preciso preservar um enorme respeito pelos seus pais que, depois de tudo
isto, ainda lhes conseguem dizer com a serenidade característica que a
experiência lhes legou: “Se não te calas levas um estalo que até vês
estrelinhas. Põe-te fino, pá, que eu até já nem te posso ouvir! Eu desfaço-te,
‘ouvistes’?”
2. Nunca deixes passar ninguém à tua frente.
Quando estás com pressa, aparece sempre alguém ainda com mais urgência do que tu (pensa essa pessoa) e usa o argumento do “Importa-se que
passe à sua frente? É só este pãozinho…”. Na tua boa vontade, cedes e o mais
certo será essa pessoa não parar de ir buscar outros produtos enquanto está na
fila. Já se sabe que para além do pão, conseguiu abastecer o cesto para fazer um mega jantar de família, excedendo o número máximo de artigos para utilizar aquela caixa expresso
– ver ponto 4.
3. Verifica sempre que os produtos têm o
código de barras bem legível.

5. Evita as caixas exclusivas para pagamento
multibanco.
Tal como nas caixas expresso, também aqui existirão sempre clientes com
graves deficiências visuais pelo que no momento do pagamento irão começar a despejar todas as moedinhas pretas da carteira, ao que a funcionária lhes dirá que
deverão pagar com o meio definido na placa escrita com letras garrafais. Se
optares por esta caixa, seguir-se-á um belo momento lúdico em que terás a oportunidade
de assistir a uma grande discussão sobre a relatividade do tamanho das letras,
a lógica da existência desta restrição e a problemática da perseguição do
Estado a todos os nossos movimentos, através do nosso cartão. O belíssimo
espectáculo terminará com o abandono do cliente que deixou as compras todas na
caixa e, consequentemente, uma grande confusão que demorará imenso tempo a
arrumar até que o próximo cliente (tu) possa pagar a garrafa de água que lá
foi comprar – da próxima vez vai à casa de banho e toma o comprimido com a água
da torneira que te fará menos mal aos nervos, ainda que te possa provocar uma
colite.
6. Nunca fiques atrás de um carrinho com fruta
ou legumes, numa grande superfície comercial.
Nos supermercados pequenos os produtos frescos são pesados
nas caixas, pelo que muito boa gente se esquece que nas grandes superfícies
essa operação deve ser feita antes. À bom português que se esquece de fazer
isso, quando chegar à caixa, a mulher não se vai preocupar minimamente por ter
mais 16 clientes à espera para pagar e vai pedir ao marido para lá ir pesar os
18 sacos de fruta e legumes. E apetece-te partir aquilo tudo!
7. Analisa os utilizadores das caixas
automáticas de pagamento antes de optar por esperar por utilizar uma delas.
Tem especial atenção quando decidires pagar as tuas
pequenas compras numa destas caixas. Como tiveste a oportunidade de concluir até
agora, nem tudo o que parece rápido, efectivamente o é. Muitas pessoas não
fazem a mínima ideia de como a utilizar e está cientificamente provado que para
pagar um pacote de guardanapos, podemos esperar até 5 minutos, momento em que o
cliente percebe que existe um botão em que pode pedir ajuda a um funcionário.
Este fará toda a operação por ele, mas demorando o dobro do tempo do que se
estivesse a fazê-lo numa caixa normal, porque ainda lhe está a dar uma formação individual – “Como aprender a utilizar a caixa automática em 19 simples passos”.
8. Evita as caixas reservadas a grávidas
Raramente se vê grávidas nesta
caixa, daí que seja utilizada indiscriminadamente por todos. Até aqui, tudo
bem. O único problema é quando aparece uma senhora… forte. Forte o suficiente
para ficares em dúvida se ela estará realmente grávida, ou não. Ficas sem saber o
que fazer. Resolves deixá-la passar, como pessoa educada que és, mas… E se ela
não se encontra efectivamente grávida? Já viste a vergonha pela qual passarás?
Então finges não a ter visto e aguardas por uma intervenção da sua parte, até que
a senhora se cansa de esperar por uma atitude minimamente cívica da tua parte e
resolve, sem sequer falar contigo antes, fazer um enorme alarido por não
respeitarem as grávidas, o que faz com que toda a gente à tua volta olhe para ti com um ar reprovador, enquanto abanam a cabeça e fazem estalidos com a
língua. E apetece-te desaparecer!
9. Nunca mudes de fila, mesmo que estejas em 9º
lugar e abra uma fila nova.
O
mais provável é esta caixa ter aberto porque houve uma enchente de clientes
para pagar e, para resolver o problema, resolveram chamar a funcionária dos
frescos. Se optares por esta mudança vais-te aperceber rapidamente que fizeste uma
péssima escolha. Ela vai estar constantemente a perguntar à empregada com a
vastíssima experiência de 5 dias que também está a atender, mesmo ao lado dela: “Ó colega? Como faço para anular o código da
banana da Madeira que pus em vez da maçã Reineta?”; “Desculpe, colega, mas não estava a ouvir o 'bip' e passei este ‘chicolate’
8 vezes. Como é que apago isto?”; “Enter,
colega? O que é isso, colega? É o código de barras, colega?”. Enfim! Em vez
dos 4 minutos previstos na outra fila, vamos
ter que esperar, pelo menos, 20 minutos para que o cliente que está à nossa frente
pague os 4,37€ de compras que ali veio fazer.
Por tudo isto, vai ao supermercado
APENAS se realmente necessitares, porque estudos de mercado podem ser feitos na
comodidade do teu sofá, através da internet. Estuda com atenção todas as
hipóteses e segue estas regras com cuidado. Preferencialmente, faz
as compras online: evitas todas estas chatices e ganhas anos de vida!
E o 1/2 conselho final: quando a fila para pagar estiver um pouco confusa, nunca perguntes "É a bicha?", porque o mote para este post foi precisamente ter feito essa pergunta a um indivíduo de identidade sexual um pouco confusa...
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
999
999 Visitas a este blog. Gosto muito deste número! Obrigada por terem vindo visitar o "Arroz do meu Céu"!
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
A insustentável leveza do iPad
Hoje li um artigo que me despertou a atenção pelo título que envergava: “Escola norte-americana substitui livros por iPad”. Bonito! A tecnologia é, realmente, uma coisa absolutamente fantástica! Segundo o autor, as entidades que tomaram esta decisão consideram que os alunos carregam um peso excessivo, daí a necessidade de optarem por uma alternativa ergonomicamente mais adequada.
Mas como “não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe” lá chegou o dia em que tive a colecção completa de livros e, a partir daí, acabavam desculpas. E lá ia eu, nas minhas viagens diárias de 30 minutos a pé, sob o sol e sob a chuva, com calor e com frio, com vento ou com granizo, a carregar com uma mochila com 5 manuais, mais os livros de fichas, mais os cadernos, mais o equipamento de educação física, mais a toalha e as coisas para tomar banho, mais o material para as aulas de desenho, mais o lanche, mais o guarda-chuva, mais um par de meias extra “não vás ficar com os pés molhados com a chuva, filha”…
Depois mudei de casa e a coisa ficou mais facilitada porque havia o autocarro. Mas não para muito melhor, principalmente quando era hora de ponta e as senhoras da 3ª idade me acompanhavam, ainda que o seu passe não lhes permitisse viajar nesse horário e ainda que pudessem ter escolhido qualquer outra hora para regressar a casa. Insistiam em acordar-me, com um (nada) subtil empurrão, depois de me ter levantado ainda de noite, depois de ter tido um dia totalmente preenchido com actividades curriculares e depois de me ter rendido ao cansaço num banco não reservado do autocarro. E eis que começava a lenga-lenga do costume, proferida com aquele sotaque típico de quem trabalhou muitos anos nas “vendas”: “Estes jovens de hoje, não fazem naaaaada! Passam o dia sem fazer nada na escoooola. Eles têm bom corpo para irem aqui de pé, porque são nooooovos. E eu, coitadiiiiinha, que fui beber um cimbalino à praaaaça, tenho de ir aqui de pé às cambalhoooootas. E ainda por cima andam com estes empecilhos montados nas coooostas que só atrapalham a geeeente, que nem conseguimos vir aqui descansaaaaaados, não vá levarmos com isto na caaaaaara. Deviam ir a pé para caaaaasa porque são nooooovos e assim nós já podíamos vir aqui descansadiiiiiinhos sem que o lanche nos saltasse do paaaaaapo. Da idade deles já vendia muito "xixarro" e não havia “otocarro”. Agora não aguentam nada!”. Bem… Chegava a um ponto que lá lhes dava o lugar só para não as ouvir. Mas isso não bastava porque mesmo depois de sentadas, continuavam insatisfeitas e retomavam a cantoria: “Não fez mais do que a obrigação deeeeela. Onde já se viiiiiiiu… Foi preciso falaaar. Esta canalha de hoje em dia…”. E o remédio era mesmo pegar na mochila, que mais parecia ser de um militar à 6ª feira, e entre encontrões e tropeções, mergulhar o mais possível nas profundezas do autocarro onde aquele discurso se ia desvanecendo com as conversas que se iam sobrepondo.
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