quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

OK - Código - OK

Sou uma daquelas pessoas que ficam fulas da vida quando lhes querem dar a volta para comprar algo de que não precisam. Sempre que me começam a vender a banha da cobra, embrulhada no mais fino chiffon de seda, e me obrigam a decidir, na hora, se quero ou não aderir ao clube dos tansos, começa a passar-me uma luz branca à frente dos olhos. Depois a vista fica turva, seguidamente com picos e finalmente apodera-se de mim uma vontade incontrolável de utilizar a radiação ultravioleta, que entretanto foi gerada pelo nervo óptico, e fulminar o “vigário” que está à minha frente. Por isso, nunca comprei nenhum colchão que trouxesse, como oferta, um trem de cozinha, um equipamento de limpeza a vapor, um serviço de jantar “cozinha velha” de 99 peças, um faqueiro banhado a ouro de 1 quilate e meio, uma máquina de cozer ovos, uma máquina de passar a ferro sentada, uma máquina de aparar os pelos do nariz, e outros que tais que, por vezes, nem se sabe muito bem qual a sua utilização e importância. Por tudo isto, o discurso do “Por se tratar de uma promoção que termina hoje, tem de decidir agora, senão não terá direito às ofertas” não cola e saio sempre muito orgulhosa por não ter sucumbido ao delírio de um consumismo desenfreado, estimulado por técnicas de extorsão já gastas mas, ainda assim, sempre tão eficazes.

O meu problema é outro. Por exemplo, não consigo ir ao cabeleireiro sem trazer de lá qualquer coisa! E mesmo que ainda tenha uma caixa daquelas ampolas que evitam que o couro cabeludo desidrate com o stress do quotidiano,  com o frio e com os secadores, lá levo debaixo do braço um champô-leite hidratante para pelas ultra-sensíveis. E se vou à loja, é a mesma coisa: vou destinada a comprar apenas o champô e saio de lá com a máscara e o serum que têm, obrigatoriamente, de ser utilizados em simultâneo, não vá ficar careca. Já que lá estou, aproveito para trazer um verniz novo - que na verdade só é 1/8 de tom acima do último que tinha levado - e mais uma espuma de cabelo, desta vez para acabar com o demodé efeito molhado, conferindo um aspecto, sem qualquer sombra de dúvida, muito mais natural - tão natural, que nem parece que levou espuma nenhuma. Mas podia ser pior! A uns dá para a roupa, para os jogos de computador ou para o futebol. A mim dá-me para os champôs, para os cremes, para as maquilhagens e tudo o resto que tenha a ver com o bem-estar da pele, do cabelo e do corpo! Para isto e para as compras do supermercado! Mas isso é outra conversa… (Não sei porquê, mas de repente fiquei com a sensação de que, com estas palavras, transmiti uma ideia de futilidade extraordinariamente desenquadrada da actual conjuntura… Não é nada disso! Passo a explicar. Vou raríssimas vezes às compras. O problema é não utilizar as coisas que entretanto vou adquirindo…)

Referindo-me finalmente ao grão de arroz que caiu esta 2ª feira (juntamente com o temporal que assolou o país), passo a concretizar o motivo pelo qual hoje aqui estou. Depois de estudar as várias ofertas de ginásios, de ter resistido ao “para não pagar a jóia tem de se inscrever, impreterivelmente, hoje” e de ter feito uma tabela em EXCEL com as mensalidades, distâncias e vantagens e desvantagens da coisa, lá decidi inscrever-me num ginásio que fica…  “do outro lado da ponte”. Calma! Desta vez tem a sua lógica: posso frequentar um que existe perto do meu palácio, que pertence ao mesmo grupo. E lá fui eu ontem, debaixo da chuva, no meio do trânsito, para a “longínqua cidade em que eu não trabalho nem vivo”, a pensar que ia fazer uma avaliação física, de forma a tornar o meu treino mais eficiente. Surpresa das surpresas, afinal queriam fazer-me uma avaliação de SPA. Avaliação de SPA?? Estão a gozar comigo? A um dia 14 de Fevereiro? Com esta chuva e este trânsito? Aiiiii!!! Lá vem a luzinha branca outra vez... Enquanto aguardava pela terapeuta, consegui controlar a fúria e comecei a ensaiar em silêncio o discurso de alguém que “de modo algum me vão apanhar nesta, nem que vendam creme de baba de caracol”:
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  1. Desculpe, mas vou-me embora”;
  2. É inadmissível que eu tenha ligado para cá à hora do almoço a perguntar se era uma avaliação física e me tenham confirmado essa informação”;
  3. Esta atitude só mostra uma enorme falta de profissionalismo da vossa parte”;
  4. Chamarem uma pessoa cá ao engano para lhe venderem depilações, manicures e massagens…”.
Lá chegou a terapeuta e eu, ceguinha, ceguinha, entre olhos arregalados e tentativas para não me cuspir e espumar toda com a raiva, lá mostrei o meu desagrado (à excepção da parte das depilações e das unhas, claro, porque até nestas ocasiões é preciso manter o nível!).

Conclusão: comprei uma "Massagem de Pedras Quentes" para a minha metade boa… Coitadinho! Só fiz isso porque ele merece e um perfuminho parecia-me tão pouco! Até me fez um jantar romântico com massa filo em forma de corações, com entrada, prato principal e sobremesa! E acendeu, ao contrário dos seus princípios, velas! E das vermelhas! Merecia uma prendinha EXTRA, pela EXTRema dedicação e EXTRAordinário empenho! Ainda por cima a massagem está naquela lista das poucas coisas que compro, como os champôs e os cremes, uma vez que é em prol do bem-estar do corpo e da alma. Até devia dar para por no IRS, em despesas de saúde. Foi só por isso que me permiti  “ter sucumbido ao delírio de um consumismo desenfreado” e me deixei levar pelas “técnicas de extorsão já gastas”… Por isso e por uma massagem terapêutica que as minhas costas receberam como "incentivo" à compra!



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

9 Regras e 1/2 para manter a sanidade mental numa fila de supermercado

Ao longo da minha curta experiência de dona de casa tenho-me apercebido do quão complicado pode ser ir ao supermercado, sobretudo no que diz respeito às filas para pagar. Resolvi, por isso, criar um manual de boas regras e partilhá-lo aqui para que ninguém tome as mesmas más decisões que tomei, nem tenha que passar pelas mesmas extenuantes situações por que passo constantemente. “10 regras” é um clichê, pelo que decidi criar as “9 regras e 1/2 para manter a sanidade mental numa fila de supermercado” – a acrescentar que também não conseguia encontrar a décima…

1.    Evita filas com crianças.
As crianças são a coisa “mai linda” do mundo, mas quando resolvem embirrar com alguma coisa, cuidado! Este primeiro conselho que dou pode muito bem mudar para sempre a tua decisão de quereres, ou não, descendência. Procura filas com uma faixa etária mais adequada à tua. Senão, imagina este cenário: sábado à tarde, início do mês, 9º lugar na fila da caixa. Imediatamente à tua frente, está uma família também à espera de pagar a conta do supermercado. Até que seja a tua vez, terás que ouvir aqueles diabinhos cobertos com pele de anjo dizer 89 vezes que querem as pastilhas elásticas, os cromos e a garrafa de refrigerante que estão no expositor ao lado da caixa registadora. E é preciso ter alguma paciência com estas criancinhas (todas lambuzadas pelos chocolates que foram rapinando) que, durante seguramente 3 horas, estiveram expostas a uma enorme quantidade de atractivos, tendo-lhes apenas sido dado 8 ou 9 ítens. E, acima de tudo, é preciso preservar um enorme respeito pelos seus pais que, depois de tudo isto, ainda lhes conseguem dizer com a serenidade característica que a experiência lhes legou: “Se não te calas levas um estalo que até vês estrelinhas. Põe-te fino, pá, que eu até já nem te posso ouvir! Eu desfaço-te, ‘ouvistes’?”

2.    Nunca deixes passar ninguém à tua frente.
Quando estás com pressa, aparece sempre alguém ainda com mais urgência do que tu (pensa essa pessoa) e usa o argumento do “Importa-se que passe à sua frente? É só este pãozinho…”. Na tua boa vontade, cedes e o mais certo será essa pessoa não parar de ir buscar outros produtos enquanto está na fila. Já se sabe que para além do pão, conseguiu abastecer o cesto para fazer um mega jantar de família, excedendo o número máximo de artigos para utilizar aquela caixa expresso – ver ponto 4.

3.    Verifica sempre que os produtos têm o código de barras bem legível.
Esta regra aplica-se sobretudo aos produtos mais íntimos e para clientes mais tímidos. Se o produto não passar na máquina registadora logo na primeira tentativa, a operadora de caixa terá todo o prazer em ligar o altifalante e dizer, com a característica voz de supermercado (como se estivesse com o nariz entupido a cantar a melodia característica dos avisos nestes locais): “Funcionária do bazar é favor dirigir-se à caixa 10 para informar o preço do lubrificante feminino. Repito: lubrificante feminino à caixa 10.”. E apetece-te morrer.

4.    Evita as caixas expresso.
Mesmo que o letreiro indique “Número máximo de volumes: 10 unidades”, vai sempre aparecer alguém com um carrinho cheio com as compras do mês. E ainda que tenha olhado para esse painel 15 vezes e tenha lido o que lá está escrito, essa pessoa vai conseguir fazer aquele ar de surpresa quando lhe disserem que aquela é uma caixa expresso, ao que responderá: “Peço imeeeeeensa desculpa! Estou com tanta pressa que nem tinha reparado nessa plaquinha tão pequenina de 5 m2! Desculpem-me! A sério que não tinha visto. Importam-se que pague na mesma? Já tenho 2 litros de leite no tapete rolante e agora ia ser uma grande maçada ter que voltar a por tudo no carrinho…

5.    Evita as caixas exclusivas para pagamento multibanco.
Tal como nas caixas expresso, também aqui existirão sempre clientes com graves deficiências visuais pelo que no momento do pagamento irão começar a despejar todas as moedinhas pretas da carteira, ao que a funcionária lhes dirá que deverão pagar com o meio definido na placa escrita com letras garrafais. Se optares por esta caixa, seguir-se-á um belo momento lúdico em que terás a oportunidade de assistir a uma grande discussão sobre a relatividade do tamanho das letras, a lógica da existência desta restrição e a problemática da perseguição do Estado a todos os nossos movimentos, através do nosso cartão. O belíssimo espectáculo terminará com o abandono do cliente que deixou as compras todas na caixa e, consequentemente, uma grande confusão que demorará imenso tempo a arrumar até que o próximo cliente (tu) possa pagar a garrafa de água que lá foi comprar – da próxima vez vai à casa de banho e toma o comprimido com a água da torneira que te fará menos mal aos nervos, ainda que te possa provocar uma colite.

6.    Nunca fiques atrás de um carrinho com fruta ou legumes, numa grande superfície comercial.
Nos supermercados pequenos os produtos frescos são pesados nas caixas, pelo que muito boa gente se esquece que nas grandes superfícies essa operação deve ser feita antes. À bom português que se esquece de fazer isso, quando chegar à caixa, a mulher não se vai preocupar minimamente por ter mais 16 clientes à espera para pagar e vai pedir ao marido para lá ir pesar os 18 sacos de fruta e legumes. E apetece-te partir aquilo tudo!

7.    Analisa os utilizadores das caixas automáticas de pagamento antes de optar por esperar por utilizar uma delas.
Tem especial atenção quando decidires pagar as tuas pequenas compras numa destas caixas. Como tiveste a oportunidade de concluir até agora, nem tudo o que parece rápido, efectivamente o é. Muitas pessoas não fazem a mínima ideia de como a utilizar e está cientificamente provado que para pagar um pacote de guardanapos, podemos esperar até 5 minutos, momento em que o cliente percebe que existe um botão em que pode pedir ajuda a um funcionário. Este fará toda a operação por ele, mas demorando o dobro do tempo do que se estivesse a fazê-lo numa caixa normal, porque ainda lhe está a dar uma formação individual – “Como aprender a utilizar a caixa automática em 19 simples passos”.

8.    Evita as caixas reservadas a grávidas
Raramente se vê grávidas nesta caixa, daí que seja utilizada indiscriminadamente por todos. Até aqui, tudo bem. O único problema é quando aparece uma senhora… forte. Forte o suficiente para ficares em dúvida se ela estará realmente grávida, ou não. Ficas sem saber o que fazer. Resolves deixá-la passar, como pessoa educada que és, mas… E se ela não se encontra efectivamente grávida? Já viste a vergonha pela qual passarás? Então finges não a ter visto e aguardas por uma intervenção da sua parte, até que a senhora se cansa de esperar por uma atitude minimamente cívica da tua parte e resolve, sem sequer falar contigo antes, fazer um enorme alarido por não respeitarem as grávidas, o que faz com que toda a gente à tua volta olhe para ti com um ar reprovador, enquanto abanam a cabeça e fazem estalidos com a língua. E apetece-te desaparecer!

9.    Nunca mudes de fila, mesmo que estejas em 9º lugar e abra uma fila nova.
O mais provável é esta caixa ter aberto porque houve uma enchente de clientes para pagar e, para resolver o problema, resolveram chamar a funcionária dos frescos. Se optares por esta mudança vais-te aperceber rapidamente que fizeste uma péssima escolha. Ela vai estar constantemente a perguntar à empregada com a vastíssima experiência de 5 dias que também está a atender, mesmo ao lado dela: “Ó colega? Como faço para anular o código da banana da Madeira que pus em vez da maçã Reineta?”; “Desculpe, colega, mas não estava a ouvir o 'bip' e passei este ‘chicolate’ 8 vezes. Como é que apago isto?”; “Enter, colega? O que é isso, colega? É o código de barras, colega?”. Enfim! Em vez dos 4 minutos previstos na outra fila, vamos ter que esperar, pelo menos, 20 minutos para que o cliente que está à nossa frente pague os 4,37€ de compras que ali veio fazer.

Por tudo isto, vai ao supermercado APENAS se realmente necessitares, porque estudos de mercado podem ser feitos na comodidade do teu sofá, através da internet. Estuda com atenção todas as hipóteses e segue estas regras com cuidado. Preferencialmente, faz as compras online: evitas todas estas chatices e ganhas anos de vida!

E o 1/2 conselho final: quando a fila para pagar estiver um pouco confusa, nunca perguntes "É a bicha?", porque o mote para este post foi precisamente ter feito essa pergunta a um indivíduo de identidade sexual um pouco confusa...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

999


999 Visitas a este blog. Gosto muito deste número! Obrigada por terem vindo visitar o "Arroz do meu Céu"!


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A insustentável leveza do iPad

Hoje li um artigo que me despertou a atenção pelo título que envergava: “Escola norte-americana substitui livros por iPad”. Bonito! A tecnologia é, realmente, uma coisa absolutamente fantástica! Segundo o autor, as entidades que tomaram esta decisão consideram que os alunos carregam um peso excessivo, daí a necessidade de optarem por uma alternativa ergonomicamente mais adequada. 

Automaticamente, isto fez-me lembrar quando ingressei no 5º Ano. No primeiro dia, como toda a gente sabe (menos eu), nunca há aulas a sério. Era uma 2ª feira e só tinha aulas de tarde: História, Inglês, Matemática, Português e Ciências. Na altura era quase impossível ter os livros todos no início do ano porque as escolas atrasavam-se na emissão da lista de alunos novos, as editoras atrasavam-se na distribuição dos manuais, as papelarias atrasavam-se na sua entrega e nós atrasávamo-nos a ir buscá-los porque enquanto não houvesse livros, não havia TPC (quanta nostalgia ao ouvir este nome…) e as mochilas eram transportadas de forma muito mais confortável (sobretudo quando decidíamos brincar a um jogo muito estúpido em que, sempre que passasse um carro com o nosso número da turma na matrícula, tínhamos que carregar com todas as mochilas do pessoal). Mas voltando ao 1º dia de aulas, como aluna exímia que queria ser, lá fui eu para a escola com os livros... de Educação Musical, Educação Física e Educação Visual e Tecnológica, que normalmente nunca esgotavam porque pouca gente os comprava. Apesar de ter consciência que não me iriam valer de absolutamente nada, considerei que caso me questionassem sobre a minha falta de material facilmente poderia ser desculpada ao dizer que levava todos os livros que tinha, ainda que fossem os das disciplinas que não iria ter nesse dia. 

Mas como “não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe” lá chegou o dia em que tive a colecção completa de livros e, a partir daí, acabavam desculpas. E lá ia eu, nas minhas viagens diárias de 30 minutos a pé, sob o sol e sob a chuva, com calor e com frio, com vento ou com granizo, a carregar com uma mochila com 5 manuais, mais os livros de fichas, mais os cadernos, mais o equipamento de educação física, mais a toalha e as coisas para tomar banho, mais o material para as aulas de desenho, mais o lanche, mais o guarda-chuva, mais um par de meias extra “não vás ficar com os pés molhados com a chuva, filha”… 

Depois mudei de casa e a coisa ficou mais facilitada porque havia o autocarro. Mas não para muito melhor, principalmente quando era hora de ponta e as senhoras da 3ª idade me acompanhavam, ainda que o seu passe não lhes permitisse viajar nesse horário e ainda que pudessem ter escolhido qualquer outra hora para regressar a casa. Insistiam em acordar-me, com um (nada) subtil empurrão, depois de me ter levantado ainda de noite, depois de ter tido um dia totalmente preenchido com actividades curriculares e depois de me ter rendido ao cansaço num banco não reservado do autocarro. E eis que começava a lenga-lenga do costume, proferida com aquele sotaque típico de quem trabalhou muitos anos nas “vendas”: “Estes jovens de hoje, não fazem naaaaada! Passam o dia sem fazer nada na escoooola. Eles têm bom corpo para irem aqui de pé, porque são nooooovos. E eu, coitadiiiiinha, que fui beber um cimbalino à praaaaça, tenho de ir aqui de pé às cambalhoooootas. E ainda por cima andam com estes empecilhos montados nas coooostas que só atrapalham a geeeente, que nem conseguimos vir aqui descansaaaaaados, não vá levarmos com isto na caaaaaara. Deviam ir a pé para caaaaasa porque são nooooovos e assim nós já podíamos vir aqui descansadiiiiiinhos sem que o lanche nos saltasse do paaaaaapo. Da idade deles já vendia muito "xixarro" e não havia “otocarro”. Agora não aguentam nada!”. Bem… Chegava a um ponto que lá lhes dava o lugar só para não as ouvir. Mas isso não bastava porque mesmo depois de sentadas, continuavam insatisfeitas e retomavam a cantoria: “Não fez mais do que a obrigação deeeeela. Onde já se viiiiiiiu… Foi preciso falaaar. Esta canalha de hoje em dia…”. E o remédio era mesmo pegar na mochila, que mais parecia ser de um militar à 6ª feira, e entre encontrões e tropeções, mergulhar o mais possível nas profundezas do autocarro onde aquele discurso se ia desvanecendo com as conversas que se iam sobrepondo. 

ipedra
Em vinte anos como as coisas mudaram. Logo assim, para começar, os computadores eram algo que só faziam parte dos filmes de ficção. Acho mesmo que a minha escola não tinha um único exemplar e só recebi o meu primeiro “chaço” passados quase 5 anos, momento de absoluto arrebatamento. Era usado, tinha apenas 2Mb de RAM e quando comprei uma impressora digna de imprimir os relatórios das aulas de laboratório, simplesmente não tinha capacidade para a instalação do software da máquina. A única contrapartida que tive adveio do facto deste computador ter um sistema operativo tão antigo (Windows 3.1) a que ninguém estava habituado (já se usava só o Windows 95), pelo que fui a aluna melhor classificada de “Introdução às Tecnologias de Informação” – tive o único 20 da turma. Anos mais tarde, quando a utilização do computador era relativamente transversal à sociedade, havia ainda a misteriosa internet. Quando entrei na faculdade a minha aptidão para usar o “http://” era praticamente nula e tive mesmo de pedir ajuda à minha amiga Gisela quando quis quebrar estas barreiras. Mas ainda faltava muito para se atingir o ponto em que hoje estamos e de que fala o mote para este post. Três anos mais tarde comprei o meu primeiro portátil por necessidade, e não devido a um simples impulso consumista. Era uma coisa bonita de se ver porque a grande maioria dos alunos tinha de utilizar os muitos computadores que a faculdade colocava à sua disposição, mas que raras eram as vezes que não estavam ocupados com jogos em rede, o que tirava muita gente do sério. Quando tirei o computador da caixa pensava que vinha com defeito porque não tinha sítio para inserir disquetes (?!). Passado um ano TODA a gente tinha um portátil e quando comecei a trabalhar já havia 3 computadores em minha casa. Os pequenitos do primeiro ciclo já levam o “Magalhães” para a escola, por 50€, mesmo que os professores não os ensinem a tirar o melhor partido do equipamento e amanhã irão de iPad debaixo do braço para terem uma aula de gramática ou de álgebra.

ipod
Não sou contra os velhinhos, nem contra a evolução tecnológica. Mas espero que um dia ainda haja gente que saiba, pelo menos, assinar o seu nome sem utilizar a assinatura digital. E que ainda consiga ir ao supermercado comprar comida congelada sem deslocar um ombro, ou ter uma infecção muscular com o peso da embalagem… Mas, pelo menos, aliviem-se os pais porque nunca mais verão os sofás e as paredes pintadas com marcadores coloridos!


domingo, 23 de janeiro de 2011

Do you speak brazilian?

Este grãozinho de arroz caiu do meu céu na passada 5ª feira. Engane-se quem achar que isto é uma montagem, porque não o é. Trata-se de um monumento, de seu nome "Broken Chair", e foi construído para sensibilizar as nações para a problemática das minas anti-pessoais. Enverga uma estrutura com 5,5 toneladas de madeira com 12 metros de altura.


Como não podia deixar de ser, esta peça despertou em mim um enorme interesse. Para além de toda a carga humanitária que suporta (o que merece todo meu respeito e consideração), foi fabricada num material muito nobre e extremamente familiar para mim. Mas quando comecei a examinar com cuidado a peça, esta transformou-se na analogia perfeita da situação actual da nossa língua materna, acrescentando a isso o facto de estar cansada de ver a palavra "DIRETO" escrita no canto superior esquerdo da televisão.

Não sou especialista em linguística (nem de longe, nem de perto), mas as alterações promovidas pelo novo acordo ortográfico fazem-me sentir como se estivesse sentada nesta cadeira: sei que, pela forma como foi construída, não irá tombar, mas sinto uma relutância natural em utilizá-la. A perna partida simboliza, para mim, as regras ortográficas que nos acompanharam durante tantos anos e que simplesmente se pulverizaram, alvos também elas de um qualquer engenho explosivo. Foram normas que se sentaram comigo no banco da escola, quando insistia em deixá-las em casa, mas que cedo se tornaram peças fundamentais para a entender como uma língua tão rica, tão completa!

Este novo acordo privilegia a fonética e a unificação da língua, em detrimento da gramática e da semântica, fazendo-nos crer que a chave para o sucesso do intercâmbio entre países lusófonos assenta única e exclusivamente na ortografia. ERRADO! As diferenças são muito mais do que isso. Não adianta nada andar aqui a explodir com as letras, com os hífenes e com os acentos, se o conteúdo permanecer vazio de sentido para os olhos de quem lê, porque cada povo dá o seu próprio valor e significado às palavras.

Não quero dizer que existe português de primeira e português de segunda, mas na minha muito pouco modesta opinião, talvez o melhor remédio para quem considerar que estas regras só existem para perturbar e confundir, seja optar por continuar iletrado e ignorante. Um dia destes, a álgebra básica é excluída da aprendizagem escolar porque todos temos máquinas de calcular de merceeiro, sendo uma total perda de tempo desenvolvermos o nosso raciocínio com exercícios tão inúteis e desnecessários, quando podemos vegetar à frente de um filme de adolescentes e de uma luta livre americana... Francamente!

Sem querer padecer de uma pretensão exageradamente patriótica, já que apresentamos como cartão-de-visita o rendilhado estilo manuelino, o complexo dedilhar da guitarra portuguesa e as intrincadas rendas de bilros, porque é que nos manifestamos tão complacentes no momento de “vender” a riqueza da nossa língua? Por que é que aceitamos um “acordo” que não é, nem pode ser, “acordado” por quem realmente utiliza a língua, como os escritores, os jornalistas e os professores? Porque é que quem manda nestas coisas são os políticos, os académicos e os sociólogos? Porque é que aceitamos esta vingança retardada de um neocolonialismo político, que aniquila de modo tão consentido uma das derradeiras marcas da nossa cultura? Porque é que pisamos estas minas sabendo que nos vão explodir os pés e acabar com a nossa identidade cultural? Melhor seria, de uma vez por todas, “chamar os bois pelos nomes” e começar a vender dicionários de Língua Brasileira! E já agora, porque não começar a chamar às nossas crianças Waldemar e Yolanda? E se até os brasileiros se queixam da inutilidade deste acordo, porquê mantê-lo? Já para não falar dos PALOP que estão a ver este “trem” passar muuuuuito ao lado! Esta é mais uma daquelas coisas que, sinceramente, ultrapassam os meus cabelos loiros…

Para quem tem uma formação como a minha, sabe que o betão tem muito menor resistência sem os varões de aço e que, na realidade, cadeiras de 3 pernas só existem como obras de arte, por isso deixem-me aproveitar até 2015 enquanto estas minas “anti-linguísticas” não acabam com o que resta da minha herança cultural porque, a partir daí, a iletrada sou eu!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Presa em 2010


Buzzed_woman.gif - (17K)Já não tinha uma gripe a sério, daquelas escoltadas por febre alta, dores no corpo, tosse, nariz incontinente e cabeça desorientada, há alguns anos. Não fui ao médico, porque as minhas hipocondríases não chegam a tanto e porque estas coisas se curam com paracetamol e chazinho de limão. Fiz tudo para não faltar ao trabalho porque apenas tenho 25 maravilhosos e preciosos dias por ano para não ir trabalhar, pelo que não quero ter como recordação de nenhum deles um rolo de papel higiénico na cabeceira da cama (entretanto acabaram-se os lenços). Atestei bem o organismo de analgésicos, antipiréticos, anti-histamínicos e anti-gripais. Guarneci esta dose massiva de drogas com rebuçados para a tosse, mel, chá de limão, de cebola e esfreguei a planta dos pés com Vick Vaporub. E lá fui eu embrulhada em casacos e camisolas. Mas os meus olhos e os meus espirros devem-me ter denunciado, de maneira que o meu chefe me mandou ir tomar o chá para casa, não fossem os meus 39ºC começar a contagiar todos os meus colegas e gerar uma crise laboral.

Por tudo isto, não está a ser nada fácil para mim cumprir qualquer uma das minhas resoluções de ano novo. Entrei em 2011 doente e, logo assim para começar, não é fácil deixar de ser hipocondríaca. Depois, estando doente não posso sair de casa para ir ao ginásio, até porque foi por isso que apanhei a gripe. E se tenho de ficar em casa, como posso não ver as séries da FOX? E quando ver as séries da FOX já é insuportável é preciso fazer qualquer coisa de diferente como… pintar as unhas! Por último, é certo e sabido também que não é recomendável fazer dieta nestes estados enfermos. Muito menos a devorar rebuçados e colheres de mel como se não houvesse amanhã!

Apesar de não o ter referido publicamente, uma das minhas intenções para 2011 é também escrever mais e melhor, mas parece que, para além do nariz, a gripe também entupiu a minha veia da escrita. Por outro lado, estando hibernada em casa não tem caído grande arroz do meu céu que me inspire o suficiente, a não ser a morte do Carlos Castro, cujas teorias começam a cansar a minha beleza, ou os Globos de Ouro, dos quais ainda não consegui recuperar pelo choque e pela desilusão.

É oficial: o ano novo só vai começar, para mim, em Fevereiro!!!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

God save the Queen

Hoje quis abandonar um pouco as trivialidades que caiem do meu Céu para falar sobre uma determinada situação com a qual tenho vindo a ser confrontada, cada vez com maior frequência. E isto pode ser polémico...

Ando a ficar um bocado… “possuída” com o facto de nos dias que correm toda a gente andar para aí a falar e a escrever em inglês, como se assim as suas palavras se cunhassem com maior impacto, ou como se só assim fizessem algum sentido, do you know what I mean? Eu compreendo que o fenómeno não seja recente, muito pelo contrário. A importação dos filmes de Hollywood e da música Rock fizeram há bastantes décadas com que as portas se abrissem. A necessidade de uma linguagem universal nos negócios, no conhecimento e nas viagens alargou caminho. E, off course, tudo isto contribuiu de sobremaneira para a adopção de tantos estrangeirismos na nossa linguagem: na comida (hamburger), no penteado (brushing), na roupa (jeans), na economia (cashflow), etc. Não sou uma entendida nesta matéria, mas o que considero ter criado a verdadeira auto-estrada da globalização da língua foi a tecnologia. For instance: por muita informação traduzida que exista hoje em dia, os jogos de vídeo/PC são em inglês; as linguagens de programação são em inglês; os computadores apresentam muitas instruções em inglês; e à distância de um clique, a internet dá-nos tudo o que quisermos, e que não quisermos também, em inglês.  For God's sake! Como é que não se pode esperar que a Sua Majestade e o tio Sam apareçam, assim, tão espontaneamente na nossa oralidade? Mas não é isso que me põe os nervos em franja. É, sim, quando essa atitude passa a ser plenamente intencional.

A chegada do facebook, do twitter, do flickr, do hi5, do Buzzand soo on, fizeram com que esta impulsividade na utilização do inglês fosse transportada para a escrita informal das redes sociais. As fotografias são legendadas com frases tiradas de romances de casa de banho, mas que, por estarem escritas naquela língua, se transformam em obras dignas de Nobel. A indignação ou satisfação perante um comentário alheio mais impertinente não poderá ser, em tempo algum, reconhecida e respeitada se for publicada na língua de Camões. A frase que melhor caracteriza o status de alguém fica sempre melhor se for um extracto de uma música de uma banda americana dos anos 80. E quando alguém quer parecer verdadeiramente diferenciado pela sua extrema sensibilidade e intelectualidade, pimba, espeta com uma suposta verdade absoluta e irrefutável em inglês, que nos faz pensar “coitado, o gás deve ter acabado no momento em que estava a tirar o champô”. Há mesmo quem se recuse a escrever o que quer que seja em Português. Jesus! (em itálico precisamente para se perceber que deve ser dito em inglês) E às tantas, se são interpelados por um turista que lhes pergunta “Dou you speak English?”, eles ainda são capazes de retribuir com um “Un peu. Un peu”. O jeito que dá ter tradutores online sempre tão disponíveis aos nossos devaneios…

Não quero aqui vestir a pele do corpo de júris dos Ídolos quando os concorrentes teimam em não optar por músicas nacionais, nem parecer exageradamente crítica nem intransigente a este respeito, mas fazem-me espécie estas coisas. Existem palavras unicamente em português, sem qualquer tradução noutras línguas, pelo que facilmente se compreende que temos uma língua riquíssima. Então qual é o objectivo de se manchar constantemente a nossa linguagem com palavras que não pertencem à nossa cultura nem à nossa vivência? Qual é o fundamento para que uma personalidade da cena da música portuguesa, que está para aqui na televisão a ser entrevistada, que ganha prémios e que representa Portugal nos concertos que dá no estrangeiro, esteja a dizer que a nossa música, lá fora, é cool. CoolWhatever, há fenómenos que me transcendem. Qualquer dia andamos por esse mundo fora a cantar o fado “Oh people of my homeland” e a comer “Oporto Way's Guts” (haverá tradução para tripas ou, melhor ainda, haverá algum outro povo no mundo que as coma?).

O pior de tudo é que eu sou uma dessas pessoas… Não que o faça com regularidade, muito pelo contrário. Mas de vez em quando, sem querer, ou de propósito, sai-me. Mas prometo que vou deixar de o fazer, so help me God!

By the way, fica aqui um miminho para quem tem este e outros problemas de expressão…


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pinheirinho, pinheirinho, de ramos caídos.

Antes das feras...
Porque hoje é noite de Reis e termina, oficialmente, o período das festas, tenho de fazer aqui um desabafo.

Antes de mais apresento ao blog o meu pinheirinho de Natal. Era um pinheirinho tão formoso e tão seguro!

Mas a verdade é que este ano é o primeiro em que estou ansiosa por guardá-lo, com muito desagrado meu. Se no ano passado já tinha sido mau, então foi apenas o prenúncio de que algo pior iria acontecer!

Este é o 3º ano que passamos com este pinheirinho e não teríamos razões de queixa se não fossem as minhas feras, que adoram interagir com os seus ramos longos, com as suas folhas barulhentas e com as bolas e enfeites cintilantes. Ele é que, pelos vistos, não acha grande piada ao facto das feras quererem, também elas, fazer parte da decoração. E depois fica assim, triste, descaído, mal arranjado e com a estrela a apontar para Meca, talvez a pedir a outros deuses ajuda para o livrarem deste suplício!
... depois das feras.
Agora até damos com ele no chão, despido de enfeites e de dignidade! Já o pulverizamos com um spray próprio para “repelir” gatos, mas as feras rapidamente se adaptaram a essas condições adversas e lá continuaram a trepar pela árvore acima. E quando chegamos à sala lá vão eles a correr com o rabinho entre as pernas, cientes de que fizeram asneira da grossa, e depois ficam a olhar para nós, como quem diz "Não fui eu, foi a rena branca". Já o recompusemos mais de duas dúzias de vezes, mas a depressão mantém-se. E volta e meia, sobretudo quando estão sozinhos na sala, lá ouvimos “toc (…) (…) (…) toc (…) (…) toc (…) toc toc toc toc” - tentativa falhada de simular a queda de uma bola ao chão. Até fico verde!!!!


Desistimos de a compor. Agora só vai ser arranjada para o fim-de-semana dos Reis e depois terá o seu merecido descanso por mais 1 ano, pelo menos!

Sofrer para saudável ser!

Uma das minhas resoluções para 2011 está relacionada com a prática desportiva. Essa é uma inquietação constante para mim, quer por ser sempre tão difícil encaixar esta actividade nos meus finais de tarde, quer por ser cada vez mais complicado encontrar argumentos válidos para NÃO ir e ficar com a consciência imaculada.

Há uns tempos atrás li em qualquer lado que “com a idade, o nosso organismo perde a capacidade de reciclar toda a porcaria que metemos cá dentro”, como se isto fosse uma central de valorização orgânica... Eu cá dormia bem mais descansada com a outra máxima, a de que “as calorias são pequenos animais que moram dentro dos nossos roupeiros e que, durante a noite, apertam a nossa roupa”. Pois bem, seja qual for o fundamento responsável pela desproporcionalidade entre a minha volumetria e o tamanho das roupas, está mais do que na horinha de fazer alguma coisa pela minha saúde.

Segue-se então uma breve análise racional da “coisa”. Do lado dos prós… bem… as vantagens são mais do que suficientes, pelo que fazer este exercício parece no mínimo ridículo. Mas adiante! O lado positivo tem que ver, sobretudo, com a aquisição de um estilo de vida saudável: conseguir correr atrás da minha metade boa prescreve, efectivamente, uma admirável preparação física e uma notável coordenação motora, sobretudo depois dela desistir de esperar por mim quando lhe digo, pela 5ª vez, “só mais 2 minutos”, enquanto tento equilibrar-me em cima de uns tacões de 10 cm no “paralelo acima, paralelo abaixo”, ao mesmo tempo que seguro nos óculos, nas chaves, nos lenços, no batom de cieiro, nos brincos, no relógio, no cachecol e no chapéu de chuva.
Além disso, sou uma pessoa naturalmente preocupada e ansiosa, pelo que o exercício provou ser o meu Prozac particular. Por outro lado, tenho posturas a trabalhar ergonomicamente desaconselhadas e o inverno tende a congelar-me até à medula, sendo que a actividade física, como já tive ocasião de comprovar, baixa drasticamente o aparecimento de mais maleitas nas minhas costas, o que diminui a minha capacidade “hipocondrófila”. E claro, não podia deixar de referir este motivo: as idas ao ginásio fazem-me (acreditar que consigo) emagrecer uns quilinhos, mesmo que isso me dê o pretexto para no dia do ginásio ter de me alimentar melhor – e melhor, entenda-se, é muitas vezes satisfazer uma compulsiva carência de sacarose… Finalmente, é nestes momentos que tenho a oportunidade de afiar a língua porque, como toda a gente sabe, ninguém, muito menos as mulheres, gosta (nem consegue) ir ao ginásio sozinho. E não deixa de ser engraçado (e embaraçoso, também) quando damos conta que estamos a falar tão alto que todos os outros clientes já tomaram conhecimento que tivemos consulta no ginecologista na véspera. Enfim! Correr, saltar, pedalar revitaliza o corpo e tonifica o espírito! Só boas razões para não dar desculpas…

Do lado negativo… Já sinto as minhas faces a enrubescerem com a vergonha, mas a verdade tem de ser dita! Para começar, o meu ginásio é do outro lado da ponte, numa longínqua cidade em que eu não trabalho nem vivo (ainda que só demore 20 minutos a lá chegar em hora de ponta), sendo que escolhi esse apenas pela companhia. Além disso, este inverno tem sido muito rigoroso e toda a gente sabe que é pavoroso sair do trabalho para se afundar no trânsito de chuva e ainda ter de atravessar a ponte para ir para o outro lado - já deu para perceber que isto da "ponte" tem uma enorme carga psicológica subjacente. Também tenho uma vida social muito preenchida e, curiosamente, aparece sempre alguma coisa nesses dias. Ou seja, entre a dor na narina esquerda, idas ao supermercado para comprar salsa, possível queda de granizo e necessidade de arrumar a gaveta das cuecas, lá aparece sempre um bom subterfúgio para não suar a t-shirt.

Bem vistas as coisas, empreguei mais do dobro das palavras para identificar as vantagens em ir ao ginásio do que para não ir. Desta forma, se calhar não é pior começar a pensar em beneficiar da mensalidade que pago e começar a ir as duas vezes por semana, até porque o IVA aumentou – nos 2 meses anteriores paguei mais para ir 3 vezes por semana e quase não pus lá os pés. Mas há que ir com calma, senão ainda me posso magoar, ou ficar demasiado musculada ou, sei lá, ficar viciada naquilo… :) Tenho de impor a mim mesma uma espécie de castigo se faltar, do género, por cada vez que não for, ter de limpar o forno, ou lavar com uma escova de dentes os buraquinhos das persianas. Mas a quem prestaria contas? Também já considerei a ida a uma nutricionista, porque aí teria de apresentar resultados e como não sei mentir teria mesmo de ir ao ginásio para não ficar mal nas consultas quando ela me questionasse sobre o exercício nessa semana. Se calhar vai ter mesmo de ser…

Tenho uma amiga que vai para o Brasil agora. À parte do trabalho que vai desenvolver, vai ter a oportunidade conseguir “malhar” todos os dias na “academia”. Vai praticar modalidades distintas, umas mais orientadas para o espírito, outras para o corpo. E por gosto! Há mesmo quem faça isto por prazer? Será que algum dia vou ter essa sorte? Para mim é tipo xarope para a tosse… Há uns anos comprei um aparelho de fazer abdominais – acho que ganhou ferrugem. Há dois anos e tal recebi uma bicicleta no Porto Bike Tour, mas não ando com ela porque é muito presa e tem um selim muito duro.
Passados poucos meses adquiri uns patins que usei 3 vezes porque me parece que deslizam pouco. A minha irmã que ganha a vida com o desporto (irónico, não?) já me deu uma bola suíça, uns elásticos, um tapete e mais qualquer coisa que não me estou a lembrar, mas arrumei aquilo em qualquer lado e não encontro. O maridão comprou um vibroshape, embora nos esqueçamos sempre de o usar. Mas ainda me deve faltar algum cromo para completar a colecção e abrir um ginásio em casa. Deve ser mesmo isso que falta para começar a gostar e a querer fazer desporto. Vou procurar diversificar os exercícios, vou frequentar outras aulas e largar um pouco o tapete, a bicicleta e os pesos de sempre. Porque o que custa realmente é tomar a decisão de ir e ficar lá 2 horas a treinar. De resto, não há nada melhor do que a sensação de dever cumprido no momento da saída!

domingo, 2 de janeiro de 2011

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.

Ao longo dos anos tive a oportunidade de reparar que, sem prejuízo de violar qualquer lei da física, a passagem do tempo para mim está dotada de uma certa aceleração. Com isto quero dizer que a velocidade a que as horas, as semanas e os meses passam é crescente, sem que na maior parte das vezes me consiga aperceber disso. E no que diz respeito a esta aceleração, pode-se dizer que a minha vida tem duas grandes fases, AM e DM, respectivamente, Antes e Depois de atingir a Maioridade.

Durante a minha fase AM, conseguia catalogar toda a minha vida por anos escolares. Associados a cada ano vinham os amigos, as mudanças morfológicas, as músicas, as matérias escolares e as paixonetas, sem esquecer acontecimentos políticos, desportivos e sociais da época! Como era fácil para mim relacionar a prestação da “Geração de Ouro” tuga no campeonato europeu de futebol de 1996, com o desembarque da Normandia que era uma das matérias das provas globais que estavam, simultaneamente, a acontecer, e para as quais me preparava ao som da banda sonora do filme “Romeu e Julieta”. Obtinha, assim, um cruzamento perfeito de toda a informação, permitindo-me sem grande esforço contextualizar muito rapidamente qualquer acontecimento dessa altura. E tudo acontecia muuuuuito devagar. Os períodos lectivos pareciam intermináveis. A distância entre os testes era tão grande que nos fazia esquecer tudo o que tínhamos aprendido até então. Além de serem longas, as férias demoravam a passar, sobretudo se nunca mais tínhamos encontrado aquele “alguém especial” com quem apenas tínhamos trocado olhares cúmplices sem nunca termos sequer falado, mas que ainda assim a ansiedade pelo reencontro fazia esticar ainda mais aquela grandeza. Um ano na minha vida, naquela altura, era o suficiente para tudo mudar: o corpo, as ideias e os interesses. Num determinado ano calçava botas de tacão, vestia calças vincadas e ía à discoteca da moda – onda trendy. No ano imediatamente a seguir usava calças tão largas que cabia o equipamento de ginástica lá dentro, trazia a barriga quase sempre à mostra, independentemente da temperatura, e frequentava os bares alternativos onde passava tudo menos a música que toda a gente sintonizava nos walkmans – onda indie. Os rótulos eram excessivamente importantes nessa altura, doentios até.

Maioridade atingida - fase DM. E numa noite, mais precisamente numa 5a feira académica (numa daquelas 5as feiras em que a minha primeira aula começava às 8h e a última só terminava às 20h), sentei-me ao pé de uma mesa do bar onde a comunidade estudantil costumava ir beber uns copos e dançar, como se o dia seguinte não fosse existir, típico destes espaços concebidos bem no coração da cidade. Deviam ser umas 4h e aqui a caloira estava de rastos, dada a infinidade deste dia. Fui abordada por um colega finalista que não reconheceu em mim aquela ausência de energia e que me “ordenou” que aproveitasse, ao máximo, o tempo que tinha pela frente. Segundo ele, a partir do meio do curso o tempo iria passar a uma velocidade louca, pelo que era imperativo sorver todas as experiências, saborear todos os momentos e desfrutar de todos os minutos. E assim aconteceu. 

A partir dessa altura, os dias tornaram-se mais rápidos e os meses mais curtos. “Para o ano já vou no carro do cortejo”, “O próximo é o último ano!”, “Já sou finalista.”, “Tenho de mandar CV.”, “Esta é a minha última queima das fitas, snif, snif…”, “Passei à minha última cadeira”. E sem dar por isso, estou sentada à frente de um computador com o logótipo de uma empresa a aparecer como fundo do desktop, com horas estabelecidas para comer, para dormir, para tomar café e para momentos de lazer: a minha vida transformada num plano de trabalhos com duração, custos e mão-de-obra necessários bem definidos para a empreitada de execução do meu “projecto de vida”! Agora, nunca sei a quantas ando. Tão depressa é 2ª feira, como estou a desejar bom fim-de-semana aos meus colegas. Vejo um filme a pensar que o tinha ido ver ao cinema no ano anterior, quando na verdade já tem 5 anos. Ainda estou a saborear as doces lembranças das férias de verão e começa a azáfama do Natal, que rapidamente dá lugar à preparação das mini férias de Carnaval, a que, num instante, se seguirá o lufa-lufa da organização das férias grandes novamente. E mais um ano que passa. E outro e mais outro. A primeira ruga rasga o meu rosto, a recuperação das noitadas é cada vez mais dolorosa e vou pela primeira vez de urgência para o hospital com uma crise de coluna. São os sinais de uma velhice prematura imprimidos em alguém que mal deu conta que a adolescência acabou e que ainda estranha sempre que é chamada por “Senhora”!

Começa a bater forte a decepção de quem ainda não conseguiu consumar metade das intenções agendadas para 2010 por carência de tempo, por falta de oportunidade ou simplesmente por desmesurada preguiça (nem para 2009, nem para 2008 e muito possivelmente nem para 2007). Mas por mais vertiginosa que seja a velocidade a que o tempo passa, não posso dar esta desculpa - “NHD” como disse no primeiro post que fiz neste blog. “Tempo é o que fazemos com ele!” não foi o slogan de uma campanha publicitária de uma conhecida marca de relógios? Então será precisamente essa a minha palavra de ordem para 2011.

Cheguei ao final de mais um ano e é tempo de balanços e inventários! Está na altura de fazer promessas, de definir resoluções e de estabelecer os objectivos para o ano que está a nascer. Este ano vai ser diferente, pelo que fica aqui o compromisso registado das minhas resoluções de ano novo:
  •  Vou emagrecer 5kg (o que traduzido da linguagem das mulheres significa sempre, pelo menos, o dobro);
  • Vou ver menos séries da fox;
  • Vou praticar mais desporto, pelo menos o suficiente para me permitir subir um lance de escadas sem abafar;
  • Vou gastar menos dinheiro em vernizes, champôs e cremes que não uso;
  • Vou preocupar-me menos com as minhas hipocondríases;
  • E daqui por um ano vou estar aqui a registar (e não, “vou tentar”) o pleno sucesso deste meu plano para 2011, mesmo que o tempo fuja de mim, mesmo que eu corra atrás dele e não o alcance, porque significa que tentei até ao último minuto e que lutei pelo meu próprio êxito – com esta os meus amigos da Programação Neurolinguística ficariam muito orgulhosos!

Um feliz ano de 2011 pleno de concretizações, garantindo assim que a passagem do tempo não se volatiliza sem considerarmos que a nossa existência foi significativa para alguém e para nós próprios!